06/04/2014



ontem, uma voz amiga disse-me és um anjo.
sem saber que dizer, fui à procura de um vento
que me relembrasse como se voa, como se faz
o bem. saí gorado. fim do dia, voltei à sua voz. 

és um anjo, repetia. e eu apenas pensava que
quem mais gosta, menos nos conhece. então,

abatido, voei para longe, até me saber caído.

(hipótese de releitura: onde se lê um anjo, leia-se
apenas homem. onde se lê caído leia-se culpado,
como quem lê santo agostinho. ou esqueçam só
e regressem a mourão-ferreira que, conhecedor,
nos indagava, sem resposta para esses mistérios:

“Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio d’asas.
– Como quereis o equilíbrio?”

antes fosse um pássaro transparente, não para
voar, mas para me confundir com a paisagem.)



 
na imagem: O Mensageiro, de Irene Vilar