03/09/2014

(um conto infantil)


       criança, deparei-me com uma pomba doente no quintal de meus avós. o peito arfava, as asas pediam para abrir, as patas não davam azo ao voo. olhei-a e fiquei com a impressão de que me olhava. tremia. movia o pescoço como quem está cansado de pedir, não arrulhava. fui buscar um prato com água e coloquei-o à sua frente: ali estaria toda a veterinária que me era possível. ela debicava nervosamente a água quando me chamaram para o almoço. olhei-a e fiquei com a impressão de que me olhava. fui lavar as mãos – ali estaria toda a higiene que me era possível – e almocei calado.
      mal pude levantar-me da mesa, regressei ao quintal. a pomba já não bebia e tremia notoriamente. da cave surrupiei um pano velho, mas limpo, com o qual a cobri. as asas não o estranharam: aceitou, sem debater-se, o aconchego do tecido (da mão?). os olhos nervosos procuravam não sabia bem o quê e reaproximei o prato de água. tremia e bebia perante a minha parca ciência de besta imberbe, deu-se então o inexplicável: a água que desaparecia do prato acorria aos meus olhos. lembro-me de dar por mim a falar-lhe, sugerindo que bebesse – acreditava que me entenderia, com a mesma força com que acreditava que a transparência da água seria igualmente a da cura.
       olhávamos e pelo menos um dos dois esperava. zangado comigo, insistia para que bebesse: ela, sem vontade, espirrava a água, desviava o bico da minha impertinência. vozes vindas da cozinha indagavam “onde se enfiou o rapaz?”, enquanto um temível nó górdio envolvia a minha maçã de adão, impedindo a circulação da saliva. do cimo, as vozes repetiam-se e chamavam “está na hora”. começaram os estertores, hoje sei-o. recordo-me de balbuciar a custo um “tenho de ir embora” seguido de um “desculpa, tenho mesmo que ir”. passos imprecisos, abeirei-me das escadas tentando resolver os olhos inchados. quando cheguei ao hall de entrada, era um dia como os outros. contudo, os meus pés – culpados –, sabiam da fenda irreparável no meu peito. durante horas, insisti junto dos meus pais para voltar a casa dos avós: tal só aconteceu no dia seguinte.
       apressado, lancei-me escadas abaixo e procurei por todo o quintal. nada. pomba, prato e pano haviam desaparecido. eram três p’s que eu não mais deixaria sossegar. sentia a fenda a cavar dentro de mim e o nó a crescer de novo, pescoço acima. ao subir as escadas no regresso, a inocência já me abandonara: era possível morrer-se. a mais vulgar das pombas, nem sequer branca. o mais pardacento dos cinzas e uns laivos de azul e verde. sequer o requinte do melro fêmea de cunningham, cujo funeral foi presidido por virginia woolf: eu faltara ao funeral do meu amigo. todo eu nó e fenda, cheguei derrotado junto de meus pais. era um dia quase como os outros. ao despedir-me, minha avó olhou-me fixamente e pronunciou as mesmas palavras de sempre: “até amanhã, meu menino.”
       o seu tom, porém, mudara e tinha agora o sortilégio de um manto que me escudava secretamente daquele fio de frio que começava a tremer-me nos ossos.


      criança, descobri a insónia. descobri que nem a voz de uma avó conseguia apagar a ausência. nem o conforto de perceber que ela estivera por trás do desaparecimento da pomba me salvara de tantas e tantas rememorações.
       anos sobre aquele acontecimento, subia a passos manuel a passos magros quando uma pomba foi esfacelada por um automóvel. o condutor não pôde travar: um solavanco e um estalar de ossículos depois, olhei a fragilidade exposta da ave. quase ao mesmo tempo, uma criança de mão dada à mãe descia a rua e desatava a chorar, percebendo o sucedido. pensei que ficar com aquela imagem era muito pior do que a minha ausência revivida. não era um dia como os outros: precisava de uma solução.
      a criança estancara num choro desalmado e a mãe puxava-a para que seguisse caminho, sem grande sucesso. interpus-me entre a criança e a rua, escondendo o cadáver. o choro seguiu incerto, mais brando, e, ao esfregar os olhos, fitava-me com toda a desconfiança que lhe era possível. aos poucos, o nó górdio que ainda tinha na garganta foi-se desfazendo e comecei a falar-lhe. aos poucos, a mãe passava a sorrir, ouvindo a minha explicação sobre a alma dos pássaros. a criança estancara o choro e ouvia, aparentemente atenta. quando terminei, a criança disse-me apenas: “eu sei que os pássaros passam a vida a voar… e que um dia morrem... mas eu tinha que chorar na mesma…”
      a água do prato voltou-me aos olhos, dividiu-se entre os meus e os olhos da mãe. senti-me envergonhado, quis tapar-me com um manto que não estava à mão. a religião, depois da ciência, falhara. o espanto nos olhos da mãe começou a sorrir em despedida com apontamentos de agradecimento diluídos nas pupilas. a criança acenou-me e, juro, os seus olhos pareciam pedir desculpa ao afastar-se. besta alquímica titubeante, esqueci-me de onde ia. durante muito tempo fiquei ali, na rua. mesmo depois de dar por mim em casa.


      agora, ao escrever este (des)conto, invejo aquelas pessoas que lançam pão às pombas: são capazes de dar sem esperar nada em troca. sabem que não há cura e aceitam a morte com a mesma transparência da sede de um pássaro que acaba no limiar de uma fonte. penso que o pássaro sou eu e que ninguém me poderá salvar da infância. estranhamente, sei-me lúcido. tão terreno que não me abstenho de ver as pombas a defecar em cima da estátua em bronze de camilo e ana plácido. ali mesmo, em frente à cadeia da relação.
      o óculo e o bigode dele escorrem de branco estoicismo, porém ana foi poupada. incólume, mostra a sua nudez, com excepção dos seios e sua pomba (perdoem-me esta…). o manto que (não) a tapa é camilo que o segura: ele sempre foi um tanto pudico. por estes dias, as pombas devem sentir-se tão contemporâneas: cagando na cultura e na lei. uma evacuação! uma evacuação e está ali toda a sabedoria possível. ri-te, ó mortal: comer, dormir, escrever, foder e evacuar até que um dia se evacua definitivamente.
      foder é morrer contra a própria morte. amar é acreditar na eternidade sabendo que um dia nos vamos foder. escrever escreve-se por acreditar que isso nos salva. setembro traiu-me: veio em prosa para me cicutar a cognição. 



Pigeons, Jennifer Lynch

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