02/05/2015

Bach terá dito que a harmonia está próxima da divindade,
Kagel terá dito que todos os músicos acreditam em Bach.
leio duas premissas de que retiro o silogismo: Bach é Deus.
o dilema surge quando sei que estou a ouvir a Suite para
Violoncelo nº3 em Dó Maior e percebo que o violoncelo é
um corpo de mulher, segundo Man Ray. quando sei que o
arco é crina de cavalo nas arcadas do poema do Pessanha.
estou à deriva, não há polissilogismo em que convergir.
nem Yo-Yo Ma nem Maisky nem Kotova me respondem.
os seus braços viajam sobre aquele corpo de mulher,
tangendo-o como às crinas de um poema do Eugénio,
e é o peso desse mesmo corpo, digo mar, que aterra nos
ouvidos: não há mais deuses em que crer, mas nisto creio.
para não morrer de espanto, para poder com isto, diria
Brandão, porque Bach nos aproxima da secura do pó
e das estrelas num só acorde. Bach faz-nos respiração.


© Monica Hahn

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