22/09/2015

há alguns anos escrevia muitíssimo,
tinha medo que as ideias fugissem.
agora escrevo muito, muito pouco,
tenho medo que as ideias fiquem.
tudo isto para dizer que andam ondas
nos meus lençóis, altas em espessura
e silêncios que morreram na praia.
na almofada, um rosto marca ainda
o sítio onde não pretendo adormecer.
nas sombras da cadeira em que largo
a roupa floresce um tronco soerguido,
afundo com o terror às costas, onde
o cheiro de cabelos que não estão.
há um risco na parede do quarto, obra tua,
mais sublime que quaisquer destes versos
(burke falaria de habituação e subitaneidade).
a vida pode ser uma elipse. paisagem
esboroando, até restar não se sabe o quê.
palavras como bombas de fragmentação,
citações a abrir fendas sem aspas.
já ninguém morre de amor, graça moura dixit,
mas pode ficar-se estropiado para a vida.
também em maus lençóis se contam os anos.
algodão nem sempre doce. sim,
a vida é uma elipse,
uma eli
uma __________ .
e o candeeiro arde de ausência. palavra.

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