15/06/2015

era depois da morte do herberto.
havia água em toda a parte. a
existência alagara-se irrespirável
ante a anatómica impossibilidade de
guelras num tronco desesperançado.

era depois da morte do herberto.
já não fazia sentido trazer água
aos olhos, havia água por fora e
havia água por dentro. um corpo
de orvalho acumulado durante anos.

era depois da morte do herberto.
a derme tornada livro de viagens,
escarificada pela lavra de logros
permitidos em horas indiciais: vida
que o era só no intervalo de outras.

era depois da morte do herberto e
um tipo viu-se licenciado como se o
orvalho se tivesse atrasado para as
primícias do nado-morto, na cara o golpe
a lembrar: barbear é enfrentar o espelho.

era depois da morte do herberto e
o sangue descia em espiral o lavatório.
um tipo imaginou que este escorria até
ao mar e se fundia com o peixe do poeta,
mudando-o para uma cor ainda sem nome.

era depois da morte do herberto.
subitamente, água por todo o lado.
o tipo pensou que entre muita água e
aridez completa, a terra a estalar de
sede, a tecnologia de ponta era a mesma.

era depois da morte do herberto.
houve despedidas antecipadas e outras
prolongadas. as categorias estéticas
faliram: o sartre bem sabia, nunca um
livro salvou uma vida. quo vadis, amici?

era depois da morte do herberto e
à pequena vida juntara-se o "oxi" dos
gregos. um ilustrador dos bons escrevera
no facebook que o medinho dos fascistas lhe
dava uma grande tusa. o tipo riu e anuiu.

era depois da morte do herberto e
um tipo viu-se na história, a técnica
a adquirir carga antropológica. pensou
que a poesia do gusmão tinha ainda restos
salubres de materialismo histórico.

era depois da morte do herberto e
concluiu-se que a pequenez alivia as
facadas dadas nos teatros do tempo
pelo pior dos ditadores, o amor. a
perspectiva não é tudo, mas ajuda.

era depois da morte do herberto
e o tipo lembrou-se, enfim, que se
repetirmos ad infinitum as mesmas palavras
o sentido perde-se no som. era depois
da morte. era depois da _________.

era depois.
e aquela água que tolhia,
que nos tolhe sempre que ascendemos,
bebia-a na mesa do canto e pediu:
mais.


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