( . . .)
Ouço músicas bárbaras que devem estar tocando no interior longínquo do teu corpo. Sinto
um arrepio, uma vertigem.
As palavras que se me atravessam na mente lembram-me a tua alma. Mas não me lembro
bem em que porto desembarcaste para morrer.
Eu sei que nada está vivo na fotografia, mas guardo-a junto ao peito.
Nada se repetirá, nem a tua morte nem a minha vida. É tão estranha a serenidade do teu rosto...
Quem sabe o que nos espera no fim desta viagem...
Uma fera enfurecida salta por cima da sebe.
A boca seca. Um lugar que recordo. A tua juventude ficou ali, a fera devorou-a.
As mãos seguram ramos de violetas. Um tronco de cedro caiu dentro do lago.
O entardecer, a tempestade, a fera... horror no pressentimento de que havia alguma coisa a
vir. A devorar-te. A ouvir.
( . . .)
Al Berto, in "Luminoso Afogado", pág. 12, 1ª ed., Salamandra, 1995, Lisboa
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