05/03/2026

 

António Lobo Antunes ( 01.09.1942 - 05.03.2026 )

o que pode dizer-se acerca de um autor da envergadura de ALA, para mais nos momentos que seguem o seu desaparecimento do plano físico? talvez esta pergunta básica explique, por um lado, o silêncio de algum do nosso meio literário, por outro os posts que se limitam a uma fotografia a preto e branco. independentíssimo, a esquerda nunca lhe perdoou que não fosse mais de esquerda, e a direita nunca engraçou com a atenção que dava às "coisas aqui em baixo". e isto dirá mais da pequenez do país do que da grandeza do escritor...
 
correndo o risco de não alinhavar mais do que um par de vulgaridades, ainda assim direi que o caso de ALA demonstra, indiscutivelmente, aquilo que há muito é sabido, mas que parece esquecido pelas gerações que se lhe seguiram: andar em "Letras" na faculdade e ler os amigos não basta para se ser escritor. vou mais longe: ALA jamais teria sido o escritor que foi, se não tivesse tido a experiência que teve com a guerra colonial, e se não tivesse o acesso que teve à alma humana através da sua actividade profissional enquanto psiquiatra.
 
"escreve sobre o que sabes" é o melhor conselho alguma vez dado por um escritor experiente a um novato, e a obra de ALA a prova da adequação desse conselho. desengane-se quem pensar o oposto: nos primeiros livros, ALA usou-se a si mesmo como barro para moldar a sua criação. quem pensam que é aquele médico que observa as filhas à distância nas páginas iniciais de "Memória de Elefante"? e se Barthes proclamara já a morte do autor, ALA começou uma luta escrita para se apagar do seu discurso, dando ao país um dos seus escritores mais inventivos.
 
quando chegamos a "Explicação dos Pássaros", aquele personagem suicidário é de certo modo o autor a matar o cidadão, para que a obra possa começar a ser outra coisa. e sim, o que isto tem de psicanálise e de Bloom... e, contudo, concedendo que ALA terá obras melhores em "As Naus", "Exortação aos Crocodilos" ou mesmo "O Arquipélago da Insónia", entre tantos outros admiráveis romances (e será que eram mesmo romances?), é nesses primeiros livros, creio, que está o melhor laboratório de criação de uma nova linguagem literária em Portugal.
 
naqueles primeiros livros, ALA exorciza-se a si mesmo, faz a sua catábase e a sua catarse, e chega a "Fado Alexandrino", ou "Auto dos Danados", como um novíssimo Orpheu que, tendo tido um segunda oportunidade, decidiu não olhar para trás. evidentemente, ALA continuou a olhar para trás e a carregar os fantasmas da guerra e da sua profissão para as páginas de livros futuros, mas depois dessas primeiras obras, ALA já era só escritor, e os biografemas tinham ficado para trás, o tratamento literário dos seus temas predilectos já não precisava de ecos da sua própria vida, pois bebia da vida dos outros, fossem esses outros reais, por interposta pessoa (companheiros de armas, amigos, vizinhos, pacientes) ou imaginados (títeres mais ou menos moldados, arquétipo ou biótipo idealizado para embalar a palavra a cada novo livro).
 
se nos primeiros livros temos o autor de braço dado com o cidadão privado, no poscénio, a ver a peça desenrolar-se, peça em que o cidadão entra e sai, hesitando entre actor e autor, nos livros seguintes resta o autor no poscénio, certo de que o palco será sempre o seu país, e de que nenhum personagem é demasiado pequeno para merecer uma menção, ou atenção plena, e.g., entre tantos outros citáveis, a governanta Tininha de "Manual dos Inquisidores".
 
no centro da sua obra está aquilo que tantos tentaram imitar sem sequer chegarem perto, e que fazia de ALA autor por uns adorado, por outros odiado: uma torrente discursiva com gramática própria, uma modernidade de inspiração quer francesa, quer anglo-saxónica, mas não só, do nouveau roman a Faulkner, de Kafka a Joyce, ou, porque não, de Woolf a Céline ou Proust.
 
uma torrente atravessada por episódios mais ou menos longos, em que a narrativa nem sempre parece ser o objecto último, com recurso a uma "stream of consciousness" à portuguesa, conceito literário importado da psicologia (há quem diga que não, mas eu continuarei a insistir que sim), entrecortado por acção e/ou diálogo e logo retomado, pejado de imagens inusitadas que a uns irritou (lembro a embirração de Liberto Cruz com essa técnica, que só elogiou quando, aparentemente, ALA não a exagerava) e a outros provocou admiração e desejo de a continuar.
 
por estes dias, em que o "attention span" da juventude parece reduzir-se drasticamente aos 30 segundos de vídeos tiktokianos e os interesses nos momentos de descanso se resumem a danças ao som de baile-funk-brasileiro, com letras de fazer corar o zezé camarinha ou até o tetraneto do marquês Donatien Alphonse, ou então a jogos no telemóvel, o fluxo discursivo, porventura excessivo, que caracteriza a escrita de ALA, entre a prosa e uma certa poesia, parece condenada a ser pouco lida por uma elite que saiba educar os seus filhos, ou por uns raros que, mais ou menos auto-didacticamente, descubram este e outros autores (qual será a fortuna crítica de um Rui Nunes, daqui a 50 anos?).
 
do futuro nada sei, ainda que saiba bem que o autor ALA só existiu porque a vida assim lho permitiu. não é qualquer pessoa que decide parar a sua vida profissional e dedicar-se à escrita, é necessário que isso seja possível para essa pessoa, com tudo o que isso implica. e sim, percebo que isso possa causar urticária a alguns, ainda que ALA não fosse propriamente um aristocrata, mas também sei que a literatura nunca foi para todos. nem a confecção, nem o consumo.
 
portanto, ainda bem que houve um António Lobo Antunes, esse homem que verteu para literatura a psicanálise mítica do destino português, por Eduardo Lourenço ensaiada, esse homem que disse que ter os seus livros na Bibliothèque de la Pléiade era o seu Nobel, e que nos explicou que a crónica é a piscina dos pequeninos, em que a água ao escritor fica pelos joelhos, neste país pequenino em que é raro aparecer gente rara (não acredito que abunde, ao contrário daquilo de que me tentam convencer) e em que as pessoas lhe conhecem mais as crónicas (que ALA só escrevia porque lhe pagavam) do que os romances, num lastimável pretenso gesto de admiração que é inteiramente o seu inverso.
 
por aqui me fico, que já não sei para onde ia.
 
alf 

11/07/2025

 

Fernando Guimarães (03.02.1928 — 11.07.2025)

 

Poeta único (mesmo único) e incansável, ensaísta extraordinário, professor de/para várias gerações, deixa vasta obra, de qualidade contínua inegável. Sendo certo que já não se fazem homens assim (da sua disponibilidade e da sua gentileza têm sido deixados inúmeros testemunhos nas redes sociais desde o dia de ontem), não menos certo será afirmar que poetas assim não surgem a toda a hora.

Combinava o conhecimento literário, a estética, um certo pensamento especulativo (que tornava tantos dos seus poemas em filosofemas, algo que partilhava com o seu amigo Fernando Echevarría), o amor pelas artes plásticas e pela música, com uma linguagem poética própria onde parecia caberem mundos vários, e de onde, apesar disso, estava ausente Fernando Guimarães.

Feito extraordinário, numa obra iniciada na década de 50 e cujo último título é deste ano. Entre "A Face Junto ao Vento" e "Sobre a Voz", fica um legado poético povoado por intertextualidades, palimpsestos, écfrases (no sentido grego/estrito e no sentido mais lato/moderno de exercício meditativo a partir de), mas também exemplos sem igual de metapoesia, assim como textos habitados por personagens, normalmente, de outros tempos.

Essa alteridade, não raro, manifestava-se, por convocação de figuras femininas, como mostram os poemas sobre a violação de mulheres em tempos de guerra ou uma longa fala de uma mulher idosa, entre tantos outros. Além de poemas a partir de esculturas, telas, música dita erudita, ou de convocação de mitos ou de figuras mais ou menos anónimas mas universais, a poesia de Fernando Guimarães adquiria, em momentos altos, uma forte e rara carga simbólica, provavelmente inigualável no panorama da poesia portuguesa, a partir de palavras-imagens que logo se tornavam centros nevrálgicos ou rizomas/pontos de partida.

Disso são exemplo os poemas em torno do conceito de árvore ou de casa, que em dois ou três versos passavam da definição diccionarizada para expansões metafóricas produtoras de inusitados sentidos múltiplos. Nos últimos livros (entra, estilo tardio), as meditações acerca da morte intensificaram-se, de mão dada com um tom elegíaco que homenageava a sua esposa, Maria de Lourdes Guimarães (falecida em 2021), também autora e tradutora.

Além da produção poética, FG deixa vasta obra ensaística, da qual se destacam estudos sobre o Simbolismo e o Modernismo, mas também sobre a poesia contemporânea ou a ligação entre literatura e artes plásticas, tema que lhe era muito caro e que lhe inundou a obra tanto na vertente poética quanto na recensão/ensaística. Se a sua obra poética foi vigilantemente editada e reeditada/recompilada, como mostram as sucessivas recolhas por entre novos livros (na Modo de Ler, nas Quasi e na Afrontamento), urge reeditar alguma da sua obra ensaística, há muito esgotada.

Disso são exemplo algumas obras de estética editadas in illo tempore pela Presença ou obras sobre o Romantismo e sobre o Modernismo editadas pela Lello nos anos 90, quando a Lello ainda era a Lello... Como se não fosse tudo isto já extraordinário, colaborou ainda com várias revistas e alguns jornais, que me coíbo aqui de listar, e foi ainda tradutor, entre outros, de Shelley, Keats ou Dylan Thomas. Poderia dizer-se que aquele verso de Camões, tão citado e deslocado por tudo e por nada - "Para tão longo amor tão curta a vida" - serve a Fernando Guimarães como a muito poucos.


alf

 

 
 


 

18/03/2025

Carta de Herberto Helder ao artista plástico Carlos Fernandes, datada de 17.03.1992 (ou um breve "flash" que poderá iluminar um pouco mais certa passagem de certa obra):

 

     Caríssimo Carlos,

    O texto dactilografado que te mando junto não é inédito, mas eu nunca disse que se inspirou numa conversa com o Carlos Fernandes e, sobretudo, na visão quotidiana de um óleo de sua autoria, no meu apartamento da Marginal de Luanda, antigo atelier dele, Carlos. O segundo bloco da prosa, o mais pequeno, fornece uma breve mas suponho que conveniente explicação. Ignoro se este escrito convirá a uma catálogo de exposição que projectes fazer. A mim parece-me que a exposição deveria ser em grande, uma vasta e elucidativa exposição. Também não sei se há neste momento alguma possibilidade de fazê-la. Os trabalhos do Carlos que a Olga e eu temos ficam ao dispor, sob a condição evidente de que nos serão devolvidos logo após a "mostra", como agora se diz. Acho que o Cruzeiro Seixas tem obras do Carlos; aqui vai o seu endereço:

                               Artur do Cruzeiro Seixas

                               Rua da Rosa, 152 - 3º-dto.

                               1200 - Lisboa  

 

                        Um abraço amigo do 

                             Herberto.

03/01/2023

Discurso proferido por Wisława Szymborska, na cerimónia de entrega do prémio Nobel:

Dizem que a primeira frase de qualquer discurso é sempre a mais difícil. Bom, essa já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as que estão para vir – a terceira, a sexta, a décima, e por aí fora, até à última linha – serão igualmente difíceis, dado que é suposto falar de poesia. Disse muito pouco sobre o assunto – quase nada, na verdade. E quando disse algo, tive sempre a suspeição de que não sou muito boa nisso. E é por isso que a minha prelecção será bastante breve. A imperfeição é mais fácil de tolerar em pequenas doses.

Os poetas contemporâneos são cépticos e desconfiados até, ou talvez principalmente, em relação a eles mesmos. Só relutantemente confessam publicamente que são poetas, como se tivessem um pouco de vergonha de o ser. Mas nestes tempos clamorosos é muito mais fácil reconhecer as nossas falhas, pelo menos se agrupadas por atracção, do que reconhecer os nossos méritos, dado que estes estão escondidos mais fundo e não acreditamos neles inteiramente. Quando preenchem questionários ou conversam com estranhos – i.e., quando não podem evitar revelar a sua profissão – os poetas preferem usar o termo genérico “escritor” ou substituir “poeta” pelo nome de outra actividade que desenvolvam para lá da escrita. Burocratas e passageiros de autocarro reagem com alguma incredulidade quando descobrem que estão a lidar com um poeta. Suponho que filósofos se deparem com uma reacção parecida. Apesar disso, estão em posição melhor, dado que frequentemente podem embelezar a sua vocação com algum título académico. Professor de filosofia: isso soa muito mais respeitável.

Mas não há professores de poesia. Isso significaria, afinal, que a poesia é uma ocupação que exige estudo especializado, avaliações frequentes, ensaios com bibliografia e notas de rodapé apensas e, por fim, um diploma atribuído cerimoniosamente. E isto significaria, por outro lado, que não bastaria encher páginas mesmo com os mais extraordinários poemas para alguém se tornar poeta. O elemento crucial seria um pedaço de papel oficialmente timbrado. Recordemos que o orgulho da poesia russa, o futuro poeta laureado Joseph Brodsky, foi em tempos condenado ao exílio interno precisamente com base nestes princípios. Chamaram-lhe “um parasita” por não ter um certificado oficial que lhe garantisse o direito a ser poeta.

Há vários anos, tive o prazer e a honra de conhecer Brodsky. E reparei que, de todos os poetas que conheci, ele foi o único que gostava de se dizer poeta. Ele pronunciava a palavra sem inibições. Bem pelo contrário: ele dizia-a com uma liberdade desafiante. Isto sucedia, parece-me, porque ele se lembrava das humilhações brutais por que passou na sua juventude.

Em países mais afortunados, nos quais a dignidade humana não é agredida tão prontamente, os poetas anseiam, obviamente, ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco ou nada para se destacarem do rebanho e da rotina quotidiana. E, contudo, não foi há tanto tempo assim, foi nas primeiras décadas deste século, que os poetas se esforçavam por nos chocar com indumentárias extravagantes e comportamento excêntrico. Mas tudo isto era meramente para consumo público. Chegava sempre o momento em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si mesmos, despir o manto, os adornos e outras parafernálias poéticas, e enfrentar – silenciosa e pacientemente aguardando o seu próprio ser – a folha de papel ainda branca. Porque no fim de contas é isso o que realmente interessa.

Não é por acaso que são produzidos tantos filmes biográficos acerca de grandes cientistas e artistas. Os realizadores mais ambiciosos tentam reproduzir convincentemente o processo criativo que levou a importantes descobertas científicas ou ao surgimento de uma obra-prima. E pode-se representar certo tipo de trabalho científico com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos vários, maquinaria elaborada a que é dada vida: cenas desse tipo podem captar a atenção do público durante algum tempo. E esses momentos de incerteza – irá o teste, realizado pela milionésima vez com algumas pequenas modificações, finalmente produzir o resultado desejado? – conseguem ser bastante dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espectaculares, desenvolvem-se em torno das várias fases da evolução de um pintor famoso, da primeira linha feita a lápis até à derradeira pincelada. E a música cresce em filmes sobre compositores: as primeiras notações da melodia que soa no ouvido do músico acabam por emergir como um trabalho maduro na forma de uma sinfonia. Claro que isto é tudo muito inocente e não explica o estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos há algo para ver e ouvir.

Mas os poetas são terríveis. O seu trabalho não é nada fotogénico. Alguém que se senta a uma mesa ou se reclina num sofá enquanto, imóvel, fita a parede ou o tecto. De vez em quando essa pessoa anota sete linhas, apenas para riscar uma delas quinze minutos depois, e depois passa mais uma hora durante a qual nada se passa… Quem suportaria observar semelhante coisa?

Eu mencionei a inspiração. Os poetas contemporâneos respondem esquivamente quando lhes perguntam do que se trata, e se existe realmente. Não é que nunca tenham conhecido a benção desse impulso interior. É que não é fácil explicar a outra pessoa aquilo que não se compreende.

Quando, ocasionalmente, me indagam acerca disso, também eu me escudo. Mas a minha resposta é esta: A inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas ou artistas. Há, houve, haverá sempre um determinado grupo de pessoas a quem a inspiração visita. Esse grupo é constituído por aqueles que escolheram conscientemente a sua vocação e fazem o seu trabalho com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros – podia listar centenas de profissões. O seu trabalho torna-se uma aventura contínua enquanto conseguirem descobrir novos desafios no mesmo. Dificuldades e contratempos não fazem esmorecer a sua curiosidade. Um enxame de novas questões emerge de cada problema resolvido. O que quer que seja a inspiração, nasce de um contínuo “Não sei”.

Não há muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para se desenrascar. Trabalham porque têm de o fazer. Não escolheram este ou aquele trabalho por paixão; as circunstâncias das suas vidas escolheram por eles. Trabalho sem amor, aborrecido, valorizado apenas porque outros nem isso têm – eis uma das mais duras misérias humanas. E não há sinal algum de que os séculos vindouros venham a produzir quaisquer mudanças para melhor no que a isto diz respeito. E assim, ainda que negue aos poetas o monopólio da inspiração, coloco-os, apesar de tudo, num grupo selecto de amados pela Fortuna.

Chegados a este ponto, no entanto, poderão surgir algumas dúvidas na assistência. Toda a espécie de torturadores, ditadores, fanáticos, e demagogos sedentos de poder com uns quantos slogans gritantes, apreciam também os seus trabalhos, e levam a cabo os seus deveres com fervor inventivo. Bem, é verdade. Mas eles “sabem”, e o que quer que saibam basta-lhes para todo o sempre. Não querem saber de mais nada, dado que isso poderia diminuir a força das suas discussões. Mas qualquer conhecimento que não leve a novas questões rapidamente se esgota: não consegue manter a temperatura necessária à manutenção da vida. Em casos mais extremos, bem conhecidos da história antiga e moderna, constitui mesmo uma ameaça mortal à sociedade.

Por isso tenho em tão alta conta aquela pequena frase “Não sei”. É pequena, mas voa em asas poderosas. Expande as nossas vidas para que inclua espaços dentro de nós bem como planuras externas nas quais a nossa pequena Terra está suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo “Não sei”, as maçãs do seu pequeno pomar talvez tivessem caído ao chão como granizo e, na melhor das hipóteses, ele ter-se-ia dobrado para agarrar uma e comê-la com deleite. Se a minha compatriota Maria Sklodowska-Curie nunca tivesse dito a si mesma “Não sei”, teria provavelmente acabado a leccionar química numa escola privada para raparigas de boas famílias e acabado os seus dias a desempenhar este trabalho inteiramente respeitável. Mas ela continuou a dizer “Não sei” e essas palavras levaram-na, não uma, mas duas vezes a Estocolmo, onde espíritos incansáveis e inquisitivos são ocasionalmente premiados com o Nobel.

Os poetas, se forem genuínos, devem também continuar a repetir “Não sei”. Cada poema assinala uma tentativa de responder a esta afirmação, mas assim que o ponto final bate na página, o poeta começa a hesitar, começa a perceber que esta resposta específica é pura panaceia, completamente inadequada. E por isso os poetas continuam a tentar, e mais cedo ou mais tarde, os resultados sucessivos da sua insatisfação são agrupados com um clip por historiadores da literatura e designados “obras”.

Por vezes sonho com situações que nunca se poderão tornar realidade. Por exemplo, imagino audaciosamente que tenho uma oportunidade de falar com Eclesiastes, o autor daquele lamento comovedor sobre a vaidade de todas as empresas humanas. Curvo-me pronunciadamente diante dele, porque ele é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois agarro a sua mão. “Não há nada de novo debaixo do sol”: foi o que escreveste, Eclesiastes. Mas tu mesmo nasceste novo debaixo do sol. E o poema que criaste também ele é novo debaixo do sol, uma vez que ninguém o escreveu antes de ti. E todos os teus leitores são também novos debaixo do sol, uma vez que aqueles que viveram antes de ti não poderiam ter lido o teu poema. E esse cipreste sob o qual estás sentado não cresceu desde o princípio do tempo. Veio a ser através de outro cipreste semelhante ao teu, mas não exactamente igual.

E, Eclesiastes, gostava também de te perguntar em que nova coisa debaixo do sol tencionas trabalhar agora? Um acrescento a pensamentos que já expressaste? Ou talvez estejas tentado a contradizer alguns agora? No teu trabalho inicial mencionaste a alegria – que importa que seja fugaz? Talvez o teu poema novo debaixo do sol seja acerca da alegria? Já tomaste notas, tens esboços? Duvido que digas: “Já escrevi tudo, nada mais tenho a acrescentar”. Nenhum poeta no mundo pode dizê-lo, muito menos um grande poeta como tu.

O mundo – independentemente do que possamos pensar quando ficamos aterrorizados pela sua vastidão e pela nossa impotência ou quando estamos amargurados com a sua indiferença para com o sofrimento individual de pessoas, animais, e talvez até plantas (porque estamos nós tão certos de que as plantas não sentem dor?); o que quer que possamos pensar das suas planuras perscrutadas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos, ainda mortos, simplesmente não sabemos; o que quer que possamos pensar acerca deste teatro imensurável para o qual temos bilhetes reservados, mas cuja duração é risivelmente curta, unida como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos mais sobre este mundo – ele é espantoso.

Mas “espantoso” é um epíteto que esconde uma falácia. Ficámos espantados, apesar de tudo, por coisas que se desviam de algumas normas bem conhecidas e reconhecidas universalmente, de uma evidência a que nos acostumamos. Mas a questão é que não existe tal mundo óbvio. O nosso espanto existe per se, não é baseado numa comparação com outra coisa.

É certo que, no discurso coloquial, no qual não paramos para pensar em cada palavra, todos usamos frases como “o mundo normal”, “a vida normal”, “o normal decorrer dos acontecimentos”. Mas na linguagem da poesia, em que cada palavra é pesada, nada é habitual ou normal. Nem uma só pedra nem uma só nuvem sobre esta. Nem um só dia nem uma só noite depois. E acima de tudo, nem uma única existência, nem a existência de ninguém neste mundo.

Parece que os poetas terão sempre o seu trabalho a correr de feição.

 

WISŁAWA SZYMBORSKA

7 de Dezembro de 1996

Estocolmo

 

versão de amadeu liberto fraga a partir do texto fixado no livro "Poems New and Collected", Harvest Book/Harcourt (edição americana que segue inteiramente a da faber & faber), com tradução de Stanisław Barańczak e Clare Cavanagh.  

 

 

 

25/10/2022

 No Capitalism And No Way Out of it Without Science 

To account for the rift between actual life and the life of capital it is not enough to evoke the fact that, in capitalism, the metabolic process between humans and nature is subordinated to the valorization of capital. What made this rift explode was the intimate link between capitalism and modern science: capitalist technology which triggered radical changes in rational environs cannot be imagined without science, which is why some ecologists already proposed to change the term for the new epoch we are entering from Anthropocene to capitalocene. Apparatuses based on science enable humans not only to get to know the real which is outside the scope of their experiential reality (like quantum waves); they also enable them to construct new “unnatural” (inhuman) objects which cannot but appear to our experience as freaks of nature (gadgets, genetically modified organisms, cyborgs, etc.). The power of human culture is not only to build an autonomous symbolic universe beyond what we experience as nature, but to produce new “unnatural” natural objects which materialize human knowledge. We not only “symbolize nature,” we as it were denaturalize it from within.

Today, this denaturalization of nature is openly palpable, part of our daily lives, which is why radical emancipatory politics should aim neither at complete mastery over nature, nor at the humanity’s humble acceptance of the predominance of Mother-Earth. Rather, nature should be exposed in all its catastrophic contingency and indeterminacy, and human agency should assume the whole unpredictability of the consequences of its activity. In spite of the infinite adaptability of capitalism which, in the case of an acute ecological catastrophe or crisis, can easily turn ecology into a new field of capitalist investment and competition, the very nature of the risk involved fundamentally precludes a market solution—why?

Capitalism only works in precise social conditions: it implies trust in the objectivized/“reified” mechanism of the market’s “invisible hand” which, as a kind of Cunning of Reason, guarantees that the competition of individual egotisms works for the common good. However, we are in the midst of a radical change. Until now, historical Substance played its role as the medium and foundation of all subjective interventions: whatever social and political subjects did, it was mediated and ultimately dominated, overdetermined, by the historical Substance. What looms on the horizon today is the unheard-of possibility that a subjective intervention will intervene directly into the historical Substance, catastrophically disturbing its run by way of triggering an ecological catastrophe, a fateful biogenetic mutation, a nuclear or similar military-social catastrophe, etc. No longer can we rely on the safeguarding role of the limited scope of our acts: it no longer holds that, whatever we do, history will go on. For the first time in human history, the act of a single sociopolitical agent effectively can alter and even interrupt the global historical process, so that, ironically, it is only today that we can say that the historical process should effectively be conceived “not only as Substance, but also as Subject.”


Slavoj Žižek, in "Surplus Enjoyment. A guide for the non-perplexed", pág. 71-72, 1ª ed., Bloomsbury, 2022

 


 

20/07/2022

 
            Dignitas Hominis
 
            Hoje devemos falar de um tópico que o pensamento
            do nosso século em recusa tanto
            amplamente revisitou: dignitas
            hominis, indignitas hominis, guerra
            mundial de nossos pais crianças.
            Mas evitar Malraux, e resistir
            a Marcel e Du Noüy. Convém sempre
            tematizar a dignidade humana, sob pena
            de se cair no abismo da poesia impura
            mente pura ou mera arte
            de joalharia verbal. Da indignidade
            humana também é dever falar, por cénica função
            de contraste e pedagogia. Dignificar
            a poesia, narrativa humana. E é de esquecer
            aquele Nietzsche para quem o humano
            pode tornar-se assim demasiado humano.
            Falemos de um tópico que o pensamento etc.
 
            Luís Adriano Carlos, in "Livro de Receitas", pág. 27, 1ª ed., Campo das Letras, Porto, 2000
 

 

15/07/2022

            O nível e o espaço, o firmamento
            desaguando em nós, que somos água,
            tão repentino vício de morrer,
            acesso de cratera e interstício.
            O nível da visão, o cruzamento
            invariável de sossego e dor,
            oh cristalina superfície, rasa
            inspiração de espaço, vício de água
            em místicas passagens. Repentinas
            figuras que um axioma delimita.
 
            Luís (F.) Adriano Carlos, in "Invenção do Problema", pág. 33, 1ª ed., Moraes Editores, Lisboa, 1986
 

 

27/06/2022

O PACIFISMO É A REACÇÃO ERRADA, por Slavoj Žižek (trad. minha)

Para mim, o mega-êxito “Imagine” foi uma canção popular sempre pelas razões erradas. Imaginar que o “mundo viverá em uníssono” é o melhor modo de acabar no inferno.

Aqueles que se agarram ao pacifismo face ao ataque russo à Ucrânia permanecem agarrados à sua própria versão de “Imagine”. Imaginem um mundo em que as tensões já não são resolvidas através de conflitos armados… A Europa persiste neste mundo do “imagine” ignorando a realidade brutal fora das suas fronteiras. É tempo de acordar.

O sonho de uma célere vitória ucraniana, repetição do sonho inicial de uma rápida vitória russa, acabou. No que parece cada vez mais um impasse prolongado, a Rússia progride lentamente, e o seu objectivo final é claro. Já não há qualquer necessidade de ler nas entrelinhas quando Putin se compara com Pedro, o Grande: “Aparentemente, ele estava em guerra com a Suécia colhendo frutos disso… Ele não estava a tirar nada, ele estava a recuperar e a reforçar, era isso que ele estava a fazer… Claramente, recaiu sobre nós a responsabilidade de recuperar e reforçar também.” https://edition.cnn.com/2022/06/10/europe/russia-putin-empire-restoration-endgame-intl-cmd/index.html

Mais do que concentrar em aspectos particulares (está a Rússia somente a recuperar? E o quê?) devemos ler cuidadosamente a justificação principal para a sua afirmação: “Para reclamar qualquer tipo de liderança – nem sequer falo de liderança global, refiro-me a liderança em qualquer área – qualquer país, qualquer povo, qualquer grupo étnico deve assegurar a sua soberania. Porque não há termo intermédio, não há estado intermédio: ou um país é soberano, ou é uma colónia, independentemente do nome que se atribui à colónia.”

O que estas linhas implicam, como um comentador disse, é evidente: há duas categorias de estado: “O soberano e o conquistado. Na visão imperialista de Putin, a Ucrânia deve inserir-se na segunda categoria.” https://edition.cnn.com/2022/06/10/europe/russia-putin-empire-restoration-endgame-intl-cmd/index.html

E, como é não menos evidente pelas declarações oficiais feitas nos últimos meses, a Bósnia e Herzegovina, o Kosovo, a Finlândia, os Estados Bálticos e, por fim, a própria Europa, “caem nessa segunda categoria.”

Agora sabemos o que significa o pedido para permitir que Putin salvasse a sua face. Não significa aceitar um pequeno acordo de cedência territorial no Donbass, mas antes a ambição imperial de Putin. A razão por que esta ambição deve ser rejeitada incondicionalmente é por, neste mundo global hodierno em que todos somos assombrados pelas mesmas catástrofes, estarmos todos no meio termo, num estado intermédio, nem num estado soberano, nem em território conquistado: insistir numa soberania total face ao aquecimento global é pura loucura uma vez que a nossa sobrevivência depende de uma estreita cooperação global.

Mas a Rússia não ignora simplesmente o aquecimento global – porque ficou tão irritada com os países escandinavos quando expressaram a sua intenção de aderir à OTAN? Com o aquecimento global, o que está em jogo é o controlo sobre a passagem do Ártico (por isso Trump queria comprar a Gronelândia à Dinamarca). Com o desenvolvimento explosivo da China, do Japão e da Coreia do Sul, a principal rota de transporte passa a norte da Rússia e da Escandinávia. O plano estratégico da Rússia é lucrar com o aquecimento global: controlar a principal rota comercial, enquanto desenvolve a Sibéria e controla a Ucrânia. Deste modo, a Rússia dominará tanta produção alimentar que será capaz de chantagear o mundo inteiro. É esta a derradeira realidade económica sob o sonho imperial de Putin.

Aqueles que defendem um menor apoio à Ucrânia e maior pressão para que a Ucrânia negocie, incluindo a aceitação de renúncias territoriais dolorosas, gostam de repetir que a Ucrânia simplesmente não pode ganhar a guerra contra a Rússia. É verdade, mas é exactamente nisso que vejo a grandeza da resistência ucraniana: eles arriscaram o impossível, desafiando cálculos pragmáticos, e o mínimo que lhes devemos é apoio total, e, para fazer isto, precisamos de uma OTAN mais forte – mas não como prolongamento de políticas americanas.

A estratégia americana de contra-atacar através da Europa está longe de ser auto-evidente: não é só a Ucrânia, mas a própria Europa que está a tornar-se o local de uma guerra por procuração entre os Estados Unidos e a Rússia, que poderá muito bem terminar com um acordo entre ambos às expensas da Europa. Há somente dois modos de a Europa sair deste lugar: fazer o jogo da neutralidade – um atalho para a catástrofe – ou tornar-se um agente autónomo (pensemos como a situação poderá mudar se Trump vencer as próximas eleições americanas).

Enquanto alguma esquerda afirma que a continuação da guerra é do interesse do complexo industrial/militar da OTAN, que usa a necessidade de novo armamento para evitar crises e conseguir novos lucros, a sua verdadeira mensagem para a Ucrânia é: Sim, vocês são vítimas de uma agressão brutal, mas não contem com as nossas armas porque desse modo estão a colocar-se nas mãos do complexo industrial/militar…

A desorientação causada pela guerra na Ucrânia tem produzido aliados estranhos como Henry Kissinger e Noam Chomsky que vêm de extremos opostos do espectro político – Kissinger serviu como secretário de estado sob a alçada de presidentes republicanos e Chomsky é um dos principais intelectuais de esquerda nos Estados Unidos – e colidiram frequentemente. Mas no que concerne à invasão russa da Ucrânia, ambos recentemente defenderam que a Ucrânia deveria considerar a hipótese de abdicar de algum território para alcançar um acordo de paz mais rápido.

Em suma, ambos professam a mesma versão de “pacifismo” que só resulta se negligenciarmos o facto fundamental de que a guerra não é sobre a Ucrânia, mas um momento de uma tentativa selvagem de mudar toda a nossa situação geopolítica. O verdadeiro alvo da guerra é o desmantelamento da unidade europeia defendida não apenas pelos conservadores americanos e pela Rússia, mas também pelas extremas direita e esquerda europeias – até ao momento, em França, Melenchon meets Le Pen.

A ideia mais louca que circula por estes dias é a de que, para contrapor a nova polaridade entre Estados Unidos e China (que representam os excessos do liberalismo ocidental e do autoritarismo oriental), a Europa e a Rússia deveriam juntar forças e formar um terceiro bloco “eurasiático” baseado no legado cristão purificado dos seus excessos liberais. A própria ideia de uma terceira via “euroasiática” é uma forma de fascismo actual.

Então o que acontecerá quando os votantes na Europa e na América, confrontados com custos crescentes na energia e uma inflação alargada propalada por sanções contra a Rússia, possam perder o apetite para uma guerra que parece não ter fim, com necessidades que só irão aumentar enquanto ambos os lados se dirigem a um impasse prolongado? A resposta é clara: chegados a esse ponto, o legado europeu estará perdido, e a Europa estará efectivamente dividida entre as esferas de influência americana e russa. Resumindo, a própria Europa tornar-se-á o lugar de uma guerra que parece não ter fim…

O que é absolutamente inaceitável para um verdadeiro esquerdista hoje é não só apoiar a Rússia, mas também fazer alegações neutras mais modestas de que a esquerda está dividida entre pacifistas e apoiantes da Ucrânia, e que devemos tratar esta divisão como um facto menor que não deve afectar a luta global da esquerda contra o capitalismo global.

Quando um país é ocupado, é a classe dominante quem é normalmente subornado para colaborar com os ocupantes para manter a sua posição privilegiada, para que a luta contra os ocupantes não se torne uma prioridade. O mesmo pode ser dito quanto à luta contra o racismo; num estado de tensão racial e exploração, o único modo de lutar eficazmente pela classe trabalhadora é manter o foco em combater o racismo (e é por isso que qualquer apelo à classe trabalhadora branca, conforme feito hoje pelo populismo de extrema direita, trai a luta de classes).

Hoje, não pode alguém ser de esquerda se não apoia inequivocamente a Ucrânia. Ser um esquerdista que demonstra compreensão pela Rússia é como ser um desses esquerdistas que, antes da Alemanha ter atacado a União Soviética, levaram a sério a retórica anti-imperialista alemã dirigida ao Reino Unido e professaram a neutralidade na guerra da Alemanha contra a França e o Reino Unido.

Se a esquerda vai falhar aqui, o jogo acabou para a esquerda. Mas significa isto que a Esquerda deve simplesmente tomar o partido do ocidente, incluindo os fundamentalistas de direita que também apoiam a Ucrânia? Num discurso em Dallas, a 18 de maio de 2022, enquanto criticava o sistema político da Rússia, o ex-presidente Bush disse: “O resultado é a ausência de pesos e contrapesos na Rússia, e a decisão de um homem de lançar uma invasão violenta e inteiramente injustificada do Iraque.” Ele corrigiu-se rapidamente: “Quer dizer, da Ucrânia”, dizendo depois “o Iraque, enfim…” provocando o riso da multidão, e acrescentou “75”, referindo-se à sua idade.

Como vários comentadores notaram, duas coisas saltam à vista neste óbvio deslize freudiano: o facto de a assistência ter recebido a confissão implícita de Bush de que a invasão americana do Iraque (por ele ordenada) se tratou de “invasão violenta e inteiramente injustificada” com riso, ao invés de a tratar como uma admissão de um crime comparável ao da invasão russa da Ucrânia; acresce a continuação enigmática de Bush na sua auto-correcção “o Iraque, enfim…” – o que quis ele dizer com aquilo? Que a diferença entre a Ucrânia e o Iraque não tem importância? A referência final à sua idade avançada não afecta em nada este enigma.

Mas o enigma é dissipado a partir do momento em que levamos a sério e à letra a declaração de Bush: sim, tendo em conta todas as diferenças (Zelensky não é um ditador como Saddam), Bush fez o mesmo que Putin faz agora com a Ucrânia, portanto deveriam ser ambos julgados pelos mesmos critérios.

No dia em que escrevo isto, ficamos a saber pelos media que a extradição para os Estados Unidos, do fundador da WikiLeaks, Julian Assange, foi aprovada por Priti Patel, Secretária de Estado para Assuntos Internos do Reino Unido. O seu crime? Nada mais do que tornar públicos os crimes confessados pelo deslize de Bush: os documentos revelados pela WikiLeaks mostraram como, sob a presidência de Bush, os militares americanos mataram centenas de civis em incidentes não reportados durante a guerra no Afeganistão, enquanto os documentos sobre a guerra do Iraque tornados públicos mostraram que 66.000 civis foram mortos, e vários prisioneiros torturados. Crimes inteiramente comparáveis com o que Putin está a fazer na Ucrânia. Em retrospectiva, podemos afirmar que a WikiLeaks revelou dezenas de Buchas e Mariupols imputáveis aos Estados Unidos.

Assim, se levar Bush a tribunal é tão ilusório quanto levar Putin ao tribunal de Haia, o mínimo que deve ser feito por aqueles que se opõem à invasão russa da Ucrânia é exigir a libertação imediata de Assange. A Ucrânia alega lutar pela Europa, e a Rússia alega lutar pelo resto do mundo contra a hegemonia ocidental unipolar. Ambas as alegações devem ser rejeitadas, e aqui a diferença entre esquerda e direita entram em cena.

Do ponto de vista da direita, a Ucrânia luta por valores europeus contra autoritarismos não-europeus; do ponto de vista da esquerda, a Ucrânia luta pela liberdade mundial, incluindo a liberdade dos próprios russos. E é por isso que o coração de cada verdadeiro Russo bate pela Ucrânia.


daqui: https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/jun/21/pacificsm-is-the-wrong-response-to-the-war-in-ukraine?fbclid=IwAR1JumHex23GIUWdFU8xq7CoclHq5iQIp1FStmR_tpdGOIPnv6n1TogMIlI

22/05/2022


A situação pós-comunista

Uma observação conclusiva sobre a "situação espiritual do tempo" deve evidenciar a perspectiva estratégica característica das exposições seguintes - antigamente, teríamos falado do seu engajamento. Elas colocam-se num debate que movimenta a esfera pública intelectual do Ocidente desde os anos 1990. Para dizer resumidamente, o que está em questão aqui é a interpretação moral e psicopolítica da situação pós-comunista.

A entrada em cena dessa situação apanhou de maneira completamente desprevenida a grande maioria dos contemporâneos de 1990 no seu pensamento político. Por quase toda a parte, os intérpretes políticos do tempo do pós-guerra satisfizeram-se em comentar a situação do mundo, criada pela vitória dos aliados sobre a ditadura nacional-socialista, com os conceitos tradicionais da sua disciplina. Em ampla frente, as pessoas declararam-se partidárias da democracia e da economia de mercado, deixando aos antigos camaradas a parca satisfação de tirar do armário, de tempos a tempos, as suas condecorações antifascistas. Durante essa longa belle époque (assombrada por ameaças nucleares) predominou a opinião de que, com a "eliminação" dos excessos totalitários da Europa, teria sido preenchido o programa do diagnóstico do tempo - de resto, precisaríamos de considerar como é que a civilização liberal, sob o efeito concomitante de correctivos social-democratas, se ateve com os seus meios às requisições históricas por um mundo melhor. Quase ninguém possuía os meios teóricos e os impulsos morais que tornassem possível pensar para além das relações da era bipolar. A implosão do hemisfério ligado ao socialismo real não promoveu apenas o encolhimento e a redução das suas próprias ideologias e aparatos à insignificância. Pelo contrário, também colocou mais ainda o capitalismo "plenamente vitorioso" diante do impasse de precisar de assumir praticamente sozinho a responsabilidade pelo mundo. Não se pode afirmar que os pensadores ocidentais tenham sido provocados por essa situação a encontrar respostas extraordinariamente criativas.

Peter Sloterdijk, in "Ira e Tempo", pág. 52-53, Estação Liberdade, 2012, São Paulo

[sidenote: existe edição em português europeu, com a chancela da Relógio d'Água, mas a escolha da palavra 'cólera' em vez de 'ira' parece-me tão incompreensível que me impede de usufruir dessa tradução. o livro parte da primeira palavra da Ilíada: ira e não cólera, e que é repetidamente revisitada ao longo do livro associada a vários conceitos...]