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18/03/2025

Carta de Herberto Helder, provavelmente para o filho do artista plástico Carlos Fernandes, datada de 17.03.1992 (ou um breve "flash" que poderá iluminar um pouco mais certa passagem de certa obra):

 

     Caríssimo Carlos,

    O texto dactilografado que te mando junto não é inédito, mas eu nunca disse que se inspirou numa conversa com o Carlos Fernandes e, sobretudo, na visão quotidiana de um óleo de sua autoria, no meu apartamento da Marginal de Luanda, antigo atelier dele, Carlos. O segundo bloco da prosa, o mais pequeno, fornece uma breve mas suponho que conveniente explicação. Ignoro se este escrito convirá a uma catálogo de exposição que projectes fazer. A mim parece-me que a exposição deveria ser em grande, uma vasta e elucidativa exposição. Também não sei se há neste momento alguma possibilidade de fazê-la. Os trabalhos do Carlos que a Olga e eu temos ficam ao dispor, sob a condição evidente de que nos serão devolvidos logo após a "mostra", como agora se diz. Acho que o Cruzeiro Seixas tem obras do Carlos; aqui vai o seu endereço:

                               Artur do Cruzeiro Seixas

                               Rua da Rosa, 152 - 3º-dto.

                               1200 - Lisboa  

 

                        Um abraço amigo do 

                             Herberto.

24/06/2019

CARTA AO EGITO

A POESIA não necessita de «ser salva» porque o que nós entendemos por poesia não necessita de espécie alguma de salvação. Todo o acto de revolta ou de rebeldia, todo o processo de violentar «a natureza» e de desconhecer o direito e a moral é para nós poesia embora não se plasme, não se fixe, não se possa generalizar - e aqui está, implícita, a recusa terminante de amarrar o poeta a uma técnica, seja ela qual for, mesmo a mais actual, a mais oportuna, porque, precisamente, o que o distingue do homem de técnica é um sentido de não oportunidade, de inoportunidade, que lhe advém duma clarividência total e duma insubmissão permanente ante conceitos, regras e princípios estabelecidos. Com isto não queremos dizer (Deus nos livre!) que o poeta seja um louco, um visionário, mas que, se ele tem de possuir uma estética e uma moral, é, sem sombra de dúvida, uma estética e uma moral próprias. 
     A poesia é um meio de conhecimento e acção de cujos frutos, bons ou maus, só o poeta aproveita (facto, este, de que muito poucos se dão conta) e daí a inutilidade dos esforços para ligá-lo a qualquer filosofia, política ou teologia, inutilidade que se não desmente no caso de ser o próprio poeta a tentar essa aproximação. É (foi) o caso de Régio como o de Mayakovsky: a sua voz continuará estranha e o sentido das suas palavras incompreensível mesmo para aqueles que escolheu como amigos ou correligionários. É que o poeta é rebelde sem premeditação, demolidor de tudo e de si próprio, esforçadamente anti-caridade-encostada-às-esquinas-de-pistola-em-punho ou caneta-na-mão-lágrima-de-jacaré.
     Daí que resultem contraditórios os termos de poeta católico, marxista, surrealista, existencialista, anarquista ou socialista, quando não se desconhece que só ao poeta é dado compreender o poeta. Daí que resultem ridículas as homenagens colarinho-alto ou selecta-de-infância com que é costume, aqui e lá fora, enfaixar o cadáver daqueles que como Fernando Pessoa, Rimbaud ou Gomes Leal foram em vida o mais esforçado testemunho contra o bom-senso-não-deites-a-língua-de-fora.
     O que possa haver de menos compreensível em tudo isto resulta do facto de que toda a explicação necessita de uma outra explicação para ser compreendida. Aquilo que de um modo imediato é para nós verdadeiro só será inteligível para outrem depois de uma determinada «mastigação» durante cujo processo já todo o objecto em causa adquiriu nova cor, nova forma, novo ou novos sentidos de interpretação. O poeta tem a clarividência desta transformação e daí a sua atitude, sempre de recusa a qualquer espécie de imposição, e ainda quando nos parece que um dos seus gestos adquire uma cor mais conformista, ou um tom menos violento, ele não é mais do que uma forma diferente de recusa.

1949 

Excerto de uma carta ao poeta Egito Gonçalves. Reproduzido em "Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito", Mário Cesariny de Vasconcelos, Guimarães Editores, 1961, e em "A Intervenção Surrealista", MCV, Editora Ulisseia, 1966. (N.A.)

Pedro Oom, in "Actuação Escrita", &etc, 1980

Capa e «hors-texte». Carlos Ferreiro