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12/03/2022

                de Arseny Tarkovsky, um poema do 'Caderno de Chistopol'

                Outrora, uma casa erguia-se aqui. No seu interior, um velho
                vivia com uma criança. E agora a casa não existe.

                Uma bomba de cem quilogramas – a terra, mais escura que breu.
                Uma casa, agora nada. É isso a guerra; o que pode ser feito?

                Sobre um monte de trapos cinzentos, um samovar cintila.
                Um aparador, perto de um cavalo. Por cima do cavalo, vapor.

                Ao longo da parede desabada, algumas urtigas crescerão.
                Os desgraçados fantasmas da guerra terão, aqui mesmo, casa

                para sempre. Sem eles, quem gemeria à noite,
                quem se contorceria e assobiaria em fornos frios?
 

                1942


versão minha, a partir de "I Burned at the Feast" (trad. Philip Metres & Dimitri Psurtsev), pág. 37, Cleveland State University Poetry Center, 2015


 

07/07/2021


Alguns poemas em prosa (c. 1956) do livro "Hermes, Cão, Estrela", de Zbigniew Herbert:

 
Episódio numa biblioteca
 
    Uma jovem loura está debruçada sobre um poema. Com um lápis afiado como uma lança transfere palavras para uma folha branca e traduz linhas, acentuações, cesuras. O lamento do poeta esquecido parece agora uma salamandra carcomida por formigas.
    Quando o carregamos sob fogo, acreditei que o seu corpo ainda quente seria pela palavra ressuscitado. Agora vejo palavras a morrer, sei que não há limite para o declínio. O que permanecerá depois de nós serão fragmentos de palavras dispersos na terra negra. Sinais de acentuação sobre o nada e a cinza.
 
 
Louca

    O seu olhar fulminante rapidamente me agarra como um abraço. Ela pronuncia palavras misturadas com sonhos. Ela chama-me. Serás feliz se acreditares e prenderes o teu camião a uma estrela. Ela é gentil quando amamenta as nuvens; mas quando a calma a abandona, ela corre pela beira-mar e agita os braços no ar.
    Reflectidos nos seus olhos vejo dois anjos expectantes nos meus ombros: o pálido e malévolo anjo da Ironia, e o poderoso, adorado anjo da Esquizofrenia.
 
 
O paraíso dos teólogos

    Vielas, vielas longas ladeadas por árvores que são cuidadosamente podadas como num parque inglês. Ás vezes um anjo passa por lá. O seu cabelo cuidadosamente encaracolado, as suas asas restolham em Latim. Ele segura nas suas mãos um instrumento limpo chamado silogismo. Ele caminha rapidamente sem agitar o ar ou a areia. Passa em silêncio pelos símbolos das virtudes em pedra, as qualidades puras, as ideias dos objectos e muitas outras coisas completamente inimagináveis. Nunca desaparece da vista porque ali não há perspectivas. Orquestras e coros mantêm-se silenciosos contudo a música está presente. O lugar está vazio. Os teólogos falam espaçadamente. Também isto é suposto ser evidência.


Os mortos

   Em consequência de estarem confinados na escuridão e do alojamento não arejado os seus rostos modificaram-se radicalmente. Adorariam falar mas a areia devorou-lhes os lábios. Só ocasionalmente agarram o ar com os seus punhos e tentam desastradamente erguer as cabeças como crianças. Nada os pode animar, nem crisântemos nem tão-pouco velas. Não conseguem reconciliar-se com a sua condição, a condição de coisas.


Inferno
 
    Contando a partir do topo: uma chaminé, antenas, um telhado de estanho deformado. Através de uma janela redonda vê-se uma jovem presa a linhas que a lua se esqueceu de encurtar e abandonada à mercê de coscuvilheiros e aranhas. Mais abaixo uma mulher lê uma carta, arrefece a face com pó de arroz, e continua a ler. No primeiro andar um jovem caminha para trás e para a frente pensando: Como posso ir lá fora com estes lábios mordidos e sapatos a desfazerem-se? O café no piso de baixo está vazio; ainda é de manhã. 
    Apenas um casal a um canto. Estão de mãos dadas. Ele diz: "Ficaremos juntos para sempre. Empregado, um café simples e uma limonada, por favor." O empregado vai para trás da cortina e uma vez lá, desata a rir.


Sete anjos
 
    Todas as manhãs aparecem sete anjos. Entram sem bater à porta. Um deles arranca-me o coração do peito. Leva-o à boca. Os outros fazem o mesmo. Depois as suas asas definham e os seus rostos passam de prateados a purpúreos. Saem batendo pesadamente os seus tamancos. Deixam o meu coração numa cadeira como uma pequena malga vazia. Leva um dia inteiro a enchê-lo de novo para que na manhã seguinte os anjos não me deixem prateado e alado.  
 
 
O lobo e o cordeiro

    — Apanhei-te — disse o lobo e bocejou. O cordeiro voltou os seus olhos lacrimejantes para o lobo. — Tens de comer-me? É mesmo necessário?
    — Lamentavelmente, tenho. É o que acontece em todos os contos de fada: Era uma vez um cordeirinho atrevido que se extraviou da mãe. No bosque encontrou um grande lobo mau que. . .
    — Desculpa, mas isto não é um bosque, apenas o jardim do meu dono. Eu não me extraviei da minha mãe. Sou órfão. A minha mãe também foi comida por um lobo. 
    — Não te preocupes. Depois de morreres os autores de literatura edificante tomarão conta de ti. Disporão o cenário, os motivos, e a moral. Não sejas duro comigo. Não fazes ideia do quão vazio é ser um lobo mau. Se não fosse Esopo estaríamos aqui sentados nas nossas patas traseiras a ver o pôr-do-sol. Isso dá-me imenso gozo. 
    Sim, queridas crianças. O lobo comeu o pequeno cordeiro, depois lambeu os seus lábios. Não ouçam o lobo, queridas crianças. Não vos sacrifiqueis por uma moral.   
 
 
O vento e a rosa
 
    Certa vez cresceu num jardim uma rosa. O vento apaixonou-se por ela. Eram completamente diferentes, ele — leve e justo —; ela — imóvel e pesada como sangue.
    Veio um homem com tamancos de madeira e com as suas mãos grossas arrancou a rosa. O vento saltou atrás dele, mas o homem fechou a porta na sua cara.
    — Oh, pudera eu tornar-me pedra — lamentou o infeliz — fui capaz de dar a volta ao mundo, fui capaz de me afastar por anos a fio, mas sabia que ela estaria sempre à espera.
    O vento percebeu que, para sofrer verdadeiramente, é preciso ter fé.
 
 
Galinha
 
    A galinha é o melhor exemplo do que viver constantemente com humanos acarreta. Ela perdeu completamente a leveza e a graciosidade de uma ave. A sua cauda aponta para cima sobre a sua alcatra protuberante como um chapéu demasiado grande e de mau gosto. Os seus raros momentos de êxtase, quando ela se sustem numa pata e fixa os seus olhos com pestanas membranosas são assombrosamente repugnantes. Acrescente-se a tudo isto aquela paródia de canção, súplicas de cana rachada sobre uma coisa indescritivelmente cómica: um ovo — branco, arredondado, maculado. 
    A galinha faz lembrar certos poetas.
 
 
Zbigniew Herbert, versões livres minhas (amadeu liberto fraga), a partir de "The Collected Poems: 1956-1998" (trad. Alisse Valles), Ecco/Harper Collins, 2008
 

 

 

19/10/2020

mais quatro poemas de Louise Glück, do livro "The House On Marshland", de 1975. originais seguidos de versões livres da minha autoria. a primeira edição da obra é de 1975, porém segui as versões publicadas pela autora na recolha "The First Four Books of Poems", na Ecco/Harper Collins, em 1995.

 






09/10/2020


os quatro primeiros poemas de "The House on Marshland" / "A Casa no Pântano", de Louise Glück. originais seguidos de versões livres da minha autoria. a primeira edição da obra é de 1975, porém segui as versões publicadas pela autora na recolha "The First Four Books of Poems", na Ecco/Harper Collins, em 1995.





 

20/06/2019


Ergo o espelho da vida
até ao meu rosto: sessenta anos.
De um golpe estilhaço o reflexo -
E o mundo como é hábito
fica com tudo no seu lugar.

Taigen Sofu (1495 - 1555), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

18/06/2019

O meu corpo não tem um único osso que seja sagrado - 
não passa de um monte de cinzas de ossos malcheirosos.
Cava um buraco fundo e lá enterra estes restos mortais.
Assim, nem uma partícula de pó irá manchar
As montanhas verdes.

Shumpo Soki (1409 - 1498), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)
 
Aquele que vem sabe apenas da sua chegada
    Aquele que parte sabe apenas o seu fim.   
           Porquê agarrar-se ao penhasco           
              Para ser salvo do abismo?
              Nuvens que flutuam rente
Nunca sabem para onde os ventos as soprarão. 

Sengai Gibon (1750 - 1837), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

17/06/2019

Por mais de trinta anos
Trabalhei para me anular.
Agora dou o salto da morte.
O chão agita-se
Os céus andam à roda.

Rankei Doryu (c. 1231 - 1278), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

16/06/2019

De mãos vazias entrei no mundo
Descalço o deixo.
Minha chegada, minha partida - 
Dois acontecimentos simples
Que se emaranharam.

Kozan Ichikyo (1283 - 1360), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

15/06/2019

Roda em perpétuo movimento é a vida
E cada dia é o dia certo.
Aquele que recita poemas à sua morte
Acrescenta geada à neve.


§

A vida é como uma nuvem de névoa
Emergindo de uma caverna
E a morte
Uma lua flutuante
No seu curso celeste.
Se pensares demasiado
Acerca do significado que possam ter
Ficarás para sempre amarrado
Como um burro a uma estaca.

Mumon Gensen (1323 - 1390), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte".

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

14/06/2019

Setenta e três anos
Retirei água pura do fogo -
Torno-me agora pequeno insecto.
Com um toque do meu corpo
Quebro todas as palavras.

Ingo (? - 1281), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

13/06/2019

Inspirar, expirar
Para a frente, para trás
Vivendo, morrendo:
Flechas, lançadas a voar a si entregues
A meio do caminho encontram-se e cortam
O vazio num voo sem rumo -
Assim eu regresso à fonte.

Gesshu Soko (1618 - 1696), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

16/04/2019

Notre-Dame de Paris

Notre-Dame est bien vieille: on la verra peut-être
Enterrer cependant Paris qu'elle a vu naître;
Mais, dans quelque mille ans, le Temps fera broncher
Comme un loup fait un boeuf, cette carcasse lourde,
Tordra ses nerfs de fer, et puis d'une dent sourde
Rongera tristement ses vieux os de rocher!

Bien des hommes, de tous les pays de la terre
Viendront, pour contempler cette ruine austère,
Rêveurs, et relisant le livre de Victor:
- Alors ils croiront voir la vieille basilique,
Toute ainsi qu'elle était, puissante et magnifique,
Se lever devant eux comme l'ombre d'un mort!

Gérard de Nerval, in "Odelettes", 1853


*

Notre-Dame de Paris

Notre-Dame é vetusta: vê-la-emos talvez
Enterrar ainda a Paris que ela viu nascer;
Mas, daqui a mil anos, o Tempo fará vacilar
Como um lobo a um boi, essa carcaça pesada,
Torcerá os nervos de ferro e logo presa cansada
Morderá tristemente seus velhos ossos de pedra!

Muitos homens, de todos os países da terra
Virão, para contemplar essa ruína austera,
Sonhadores, e relerão o livro de Victor:
- Então pensarão ver a velha basílica,
Tudo isto enquanto ela, possante e magnífica,
Perante eles se erguerá como sombra dum morto!

Gérard Nerval, in "Odelettes", 1853
versão minha

30/12/2018

INSISTÊNCIA, de Edmond Jabès *

§

História de Cabelos 


I

Cortámos as madeixas de água e as madeixas de sal do mar

Aparámos o rochedo e os seixos 
Uma escova e cabelo para fazer uma árvore
Varremos a praia 
e no mar rejeitámos os cabelos inúteis com algas

II

O rio longa barba ruiva rente ao joelho do meu país
Cabeleireiro ousado
dias e noites
nunca a horas

III

Descem a colina
os olhos mais azulados que a fome dos tubarões
mais azulados que as axilas do céu
do amanhecer debruçando-se sobre a terra 


§


História de Pedras 


I

Segredo da pedra vazia

que a picareta procura perfurar
onde o sol jamais penetra
Quanto terão de perseverar
Debruçados sobre o seu ferimento
a única riqueza
eles ignoram até onde a febre os doura

II

Dia batido na sua cave, na sua asa
batido no seu sexo de hermafrodita
dia de sangue nos templos da onda
e na palma dos mergulhadores
Um nome de flor na boca
Um nome de chamas no rasto das borboletas
no fundo das ruínas

III

Não podemos gravar senão um nome
um de cada vez
na morte
não temos direito senão a um elogio fúnebre
a um só epitáfio



§

História de Viagem 


I

O restolho do exílio
o mais terno dos limites
a sua sombra no diário de viagens
como uma rosa

II

O barco liberta-se da constrição do porto
como os braços exauridos de uma mulher
o esquecimento sobe a bordo

III

Amanhã não reconhecerás a terra

os cabelos brancos como o mar
ou careca como a colina
uma árvore para bengala
Amanhã não mais terás nome
Não furarás passagem
por entre ombros anónimos
Uma viúva estenderá os seus lençóis
na linha do teu horizonte

IV

O galo para cata-vento
A coruja para espelho


§


História de Palavras 


I

A tempestade com os seus porta-canetas desesperados

Não se lê tudo o que na terra está escrito
Da mais bela mensagem o padeiro fará talvez o pão
e daquele de cada mulher amada como apenas tu
cujas cartas concordam sob os passos do homem
entre as espigas de trigo então balançando ao sol

II

Matilha de dias alargados
de escritos espólios de caça
A trompa convoca cães espingardas
A ilha inundou os seus trapos
o bairro de lata seus ligeiros telhados
O dilúvio é para este ano
A nado a fuga no corpo
A nado o relâmpago no coração
As girafas são menos apressadas

III

De cada semente de obsessão
a palavra emerge impaciente
como uma arma incompreendida


§


História de Olhos 


I

Os falcões assombram o reino
de João Pestana**
Suas garras fixadas nas pálpebras

II

Ao preço do ouro de novos compromissos
lutando com cada trança de luz
a corda ao pescoço
o carrasco como refém

III

Ao longo das docas de éter
as pessoas acenam com a cabeça
Lajes com graffitis e signos
a âncora no fundo das águas
invejosa memória
O sal conserva a despedida

IV

Crepúsculo

espartilho de reivindicações hostis
Aurora
Paleta de esmalte da renúncia
a mulher nua
desliza
pelo olhar transparente do pintor

V

A morte para noiva

com luvas de missal
e azevinho na cintura

VI


Seus grandes poros dados à luz
Besta de pêlo amarelo acossada
a aldeia uiva ao lobo

VII

Belo caçador com andas

VIII

Para a procissão de cinzas pitorescas
para o soluço das trepadeiras das nações
para o balançar com bochechas ameaçadoras
a terra cospe o seu velho chumbo.

.
* in "Le Seuil, Les Sables", pp. 183-188, Gallimard, 1990
   versão muito livre de amadeu liberto fraga

** Este trecho fala de vendedores de areia e pós, no que aparenta ser uma remissão para um velho conto popular em que esse vendedor, um mago, asperge uma espécie de areia sobre os olhos das crianças que dormem para lhes influenciar os sonhos: os bem comportados teriam bons sonhos, os mal comportados teriam, já se vê, maus sonhos. Ao longo dos tempos este relato foi sofrendo variações mas o essencial manteve-se. Consciente ou inconscientemente, Hubert Reeves participou neste mito popular quando afirmou: "Somos todos feitos de pó de estrelas". No mundo anglo-saxónico este conto daria origem a Sandman, e por cá a João Pestana. Vi-me assim obrigado a abdicar de muita da poeticidade contida naqueles versos para tornar evidente ao leitor que aquele poema remete para o mundo dos sonhos. Infelizmente perde-se ali - além da figura do vendedor de pós - o termo areia (sable) que partilha com seuil (limite) o título dado à poesia completa pelo autor, que remete para a ideia de algo mágico que atravessa o limiar da nossa porta e invade a nossa intimidade - o sonho, a criação, a poesia portanto. Que tenha, pelo menos, prevalecido o carácter onírico da passagem.