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05/03/2026

 

António Lobo Antunes ( 01.09.1942 - 05.03.2026 )

o que pode dizer-se acerca de um autor da envergadura de ALA, para mais nos momentos que seguem o seu desaparecimento do plano físico? talvez esta pergunta básica explique, por um lado, o silêncio de algum do nosso meio literário, por outro os posts que se limitam a uma fotografia a preto e branco. independentíssimo, a esquerda nunca lhe perdoou que não fosse mais de esquerda, e a direita nunca engraçou com a atenção que dava às "coisas aqui em baixo". e isto dirá mais da pequenez do país do que da grandeza do escritor...
 
correndo o risco de não alinhavar mais do que um par de vulgaridades, ainda assim direi que o caso de ALA demonstra, indiscutivelmente, aquilo que há muito é sabido, mas que parece esquecido pelas gerações que se lhe seguiram: andar em "Letras" na faculdade e ler os amigos não basta para se ser escritor. vou mais longe: ALA jamais teria sido o escritor que foi, se não tivesse tido a experiência que teve com a guerra colonial, e se não tivesse o acesso que teve à alma humana através da sua actividade profissional enquanto psiquiatra.
 
"escreve sobre o que sabes" é o melhor conselho alguma vez dado por um escritor experiente a um novato, e a obra de ALA a prova da adequação desse conselho. desengane-se quem pensar o oposto: nos primeiros livros, ALA usou-se a si mesmo como barro para moldar a sua criação. quem pensam que é aquele médico que observa as filhas à distância nas páginas iniciais de "Memória de Elefante"? e se Barthes proclamara já a morte do autor, ALA começou uma luta escrita para se apagar do seu discurso, dando ao país um dos seus escritores mais inventivos.
 
quando chegamos a "Explicação dos Pássaros", aquele personagem suicidário é de certo modo o autor a matar o cidadão, para que a obra possa começar a ser outra coisa. e sim, o que isto tem de psicanálise e de Bloom... e, contudo, concedendo que ALA terá obras melhores em "As Naus", "Exortação aos Crocodilos" ou mesmo "O Arquipélago da Insónia", entre tantos outros admiráveis romances (e será que eram mesmo romances?), é nesses primeiros livros, creio, que está o melhor laboratório de criação de uma nova linguagem literária em Portugal.
 
naqueles primeiros livros, ALA exorciza-se a si mesmo, faz a sua catábase e a sua catarse, e chega a "Fado Alexandrino", ou "Auto dos Danados", como um novíssimo Orpheu que, tendo tido um segunda oportunidade, decidiu não olhar para trás. evidentemente, ALA continuou a olhar para trás e a carregar os fantasmas da guerra e da sua profissão para as páginas de livros futuros, mas depois dessas primeiras obras, ALA já era só escritor, e os biografemas tinham ficado para trás, o tratamento literário dos seus temas predilectos já não precisava de ecos da sua própria vida, pois bebia da vida dos outros, fossem esses outros reais, por interposta pessoa (companheiros de armas, amigos, vizinhos, pacientes) ou imaginados (títeres mais ou menos moldados, arquétipo ou biótipo idealizado para embalar a palavra a cada novo livro).
 
se nos primeiros livros temos o autor de braço dado com o cidadão privado, no poscénio, a ver a peça desenrolar-se, peça em que o cidadão entra e sai, hesitando entre actor e autor, nos livros seguintes resta o autor no poscénio, certo de que o palco será sempre o seu país, e de que nenhum personagem é demasiado pequeno para merecer uma menção, ou atenção plena, e.g., entre tantos outros citáveis, a governanta Tininha de "Manual dos Inquisidores".
 
no centro da sua obra está aquilo que tantos tentaram imitar sem sequer chegarem perto, e que fazia de ALA autor por uns adorado, por outros odiado: uma torrente discursiva com gramática própria, uma modernidade de inspiração quer francesa, quer anglo-saxónica, mas não só, do nouveau roman a Faulkner, de Kafka a Joyce, ou, porque não, de Woolf a Céline ou Proust.
 
uma torrente atravessada por episódios mais ou menos longos, em que a narrativa nem sempre parece ser o objecto último, com recurso a uma "stream of consciousness" à portuguesa, conceito literário importado da psicologia (há quem diga que não, mas eu continuarei a insistir que sim), entrecortado por acção e/ou diálogo e logo retomado, pejado de imagens inusitadas que a uns irritou (lembro a embirração de Liberto Cruz com essa técnica, que só elogiou quando, aparentemente, ALA não a exagerava) e a outros provocou admiração e desejo de a continuar.
 
por estes dias, em que o "attention span" da juventude parece reduzir-se drasticamente aos 30 segundos de vídeos tiktokianos e os interesses nos momentos de descanso se resumem a danças ao som de baile-funk-brasileiro, com letras de fazer corar o zezé camarinha ou até o tetraneto do marquês Donatien Alphonse, ou então a jogos no telemóvel, o fluxo discursivo, porventura excessivo, que caracteriza a escrita de ALA, entre a prosa e uma certa poesia, parece condenada a ser pouco lida por uma elite que saiba educar os seus filhos, ou por uns raros que, mais ou menos auto-didacticamente, descubram este e outros autores (qual será a fortuna crítica de um Rui Nunes, daqui a 50 anos?).
 
do futuro nada sei, ainda que saiba bem que o autor ALA só existiu porque a vida assim lho permitiu. não é qualquer pessoa que decide parar a sua vida profissional e dedicar-se à escrita, é necessário que isso seja possível para essa pessoa, com tudo o que isso implica. e sim, percebo que isso possa causar urticária a alguns, ainda que ALA não fosse propriamente um aristocrata, mas também sei que a literatura nunca foi para todos. nem a confecção, nem o consumo.
 
portanto, ainda bem que houve um António Lobo Antunes, esse homem que verteu para literatura a psicanálise mítica do destino português, por Eduardo Lourenço ensaiada, esse homem que disse que ter os seus livros na Bibliothèque de la Pléiade era o seu Nobel, e que nos explicou que a crónica é a piscina dos pequeninos, em que a água ao escritor fica pelos joelhos, neste país pequenino em que é raro aparecer gente rara (não acredito que abunde, ao contrário daquilo de que me tentam convencer) e em que as pessoas lhe conhecem mais as crónicas (que ALA só escrevia porque lhe pagavam) do que os romances, num lastimável pretenso gesto de admiração que é inteiramente o seu inverso.
 
por aqui me fico, que já não sei para onde ia.
 
alf 

11/07/2025

 

Fernando Guimarães (03.02.1928 — 11.07.2025)

 

Poeta único (mesmo único) e incansável, ensaísta extraordinário, professor de/para várias gerações, deixa vasta obra, de qualidade contínua inegável. Sendo certo que já não se fazem homens assim (da sua disponibilidade e da sua gentileza têm sido deixados inúmeros testemunhos nas redes sociais desde o dia de ontem), não menos certo será afirmar que poetas assim não surgem a toda a hora.

Combinava o conhecimento literário, a estética, um certo pensamento especulativo (que tornava tantos dos seus poemas em filosofemas, algo que partilhava com o seu amigo Fernando Echevarría), o amor pelas artes plásticas e pela música, com uma linguagem poética própria onde parecia caberem mundos vários, e de onde, apesar disso, estava ausente Fernando Guimarães.

Feito extraordinário, numa obra iniciada na década de 50 e cujo último título é deste ano. Entre "A Face Junto ao Vento" e "Sobre a Voz", fica um legado poético povoado por intertextualidades, palimpsestos, écfrases (no sentido grego/estrito e no sentido mais lato/moderno de exercício meditativo a partir de), mas também exemplos sem igual de metapoesia, assim como textos habitados por personagens, normalmente, de outros tempos.

Essa alteridade, não raro, manifestava-se, por convocação de figuras femininas, como mostram os poemas sobre a violação de mulheres em tempos de guerra ou uma longa fala de uma mulher idosa, entre tantos outros. Além de poemas a partir de esculturas, telas, música dita erudita, ou de convocação de mitos ou de figuras mais ou menos anónimas mas universais, a poesia de Fernando Guimarães adquiria, em momentos altos, uma forte e rara carga simbólica, provavelmente inigualável no panorama da poesia portuguesa, a partir de palavras-imagens que logo se tornavam centros nevrálgicos ou rizomas/pontos de partida.

Disso são exemplo os poemas em torno do conceito de árvore ou de casa, que em dois ou três versos passavam da definição diccionarizada para expansões metafóricas produtoras de inusitados sentidos múltiplos. Nos últimos livros (entra, estilo tardio), as meditações acerca da morte intensificaram-se, de mão dada com um tom elegíaco que homenageava a sua esposa, Maria de Lourdes Guimarães (falecida em 2021), também autora e tradutora.

Além da produção poética, FG deixa vasta obra ensaística, da qual se destacam estudos sobre o Simbolismo e o Modernismo, mas também sobre a poesia contemporânea ou a ligação entre literatura e artes plásticas, tema que lhe era muito caro e que lhe inundou a obra tanto na vertente poética quanto na recensão/ensaística. Se a sua obra poética foi vigilantemente editada e reeditada/recompilada, como mostram as sucessivas recolhas por entre novos livros (na Modo de Ler, nas Quasi e na Afrontamento), urge reeditar alguma da sua obra ensaística, há muito esgotada.

Disso são exemplo algumas obras de estética editadas in illo tempore pela Presença ou obras sobre o Romantismo e sobre o Modernismo editadas pela Lello nos anos 90, quando a Lello ainda era a Lello... Como se não fosse tudo isto já extraordinário, colaborou ainda com várias revistas e alguns jornais, que me coíbo aqui de listar, e foi ainda tradutor, entre outros, de Shelley, Keats ou Dylan Thomas. Poderia dizer-se que aquele verso de Camões, tão citado e deslocado por tudo e por nada - "Para tão longo amor tão curta a vida" - serve a Fernando Guimarães como a muito poucos.


alf

 

 
 


 

14/01/2021

já está online a nova Revista Oresteia (http://revistaoresteia.com/) -, dedicada à divulgação de literatura, filosofia, ciências sociais e artes. lá encontrarão muitos e bons textos inéditos de autores vários. também lá está um texto meu, uma espécie de ensaio sobre 2020 e as muitas dúvidas que me trouxe, que escrevi a convite dos organizadores. fica a sugestão, ao vosso critério. 

 👇

https://revistaoresteia.com/2021/01/12/um-ensaio-fil-social-politica/

 

 


30/04/2019




( diarística, mais ou menos )


mais um passeio pelo parque. durante a caminhada percebo que a bateria da máquina chegou ao casco, enquanto o dedo e depois o pé - afectados por uma queda há uns meses - começam a latejar: à medida que o pé aquece a dor diminui mas não desaparece na íntegra. procuro concentrar-me nas coisas ao meu redor, as que perdi para sempre porque levei a máquina sem bateria. foco. as margens do lago repletas de sementes, pétalas e lodo a servir de camuflagem a cágados e rãs. um cisne eufórico que corta as águas certeiro para se alimentar de girinos, sujando as asas em toda a sorte de detritos flutuantes; uma libélula enorme de um lapiz lazuli como nunca vira pousa no canavial mesmo ao meu lado, como se dizendo: bem feito. uma mãe ganso e suas crias vagueiam pelas águas em busca de alimento. uma das crias salta usando os seus princípios de asas e fecha o bico sobre um moscardo. adiante, num carreiro, uma cria de galinhola morta. formigas.

mais adiante, um casal pratica yoga, enquanto um amigo, depois de colocar uma corda elástica entre troncos, ensaia equilibrismo. uma família com uma criança pequena diverte-se junto de cisnes e cágados. uma velhinha abre um saco cheio de pão seco e é cercada por aves várias. um casal namora no esplendor da relva, entre lençóis de pequenas flores brancas. já no regresso a casa, sob um túnel de videiras, uma jovem de bicicleta tenta em vão que o vento não lhe levante o vestido. sorri e eu sorrio de volta. o perfume da jovem perde-se na intensidade de umas flores marginais, não muito distantes de uma planta parasita cuja beleza subjuga a da árvore vampirizada. um velho que vejo com frequência pelo parque mantém a sua antipatia, ou talvez as minhas feições não lhe inspirem qualquer confiança. a escassos metros da saída do parque, o meu corpo pede-me (ou dá-me) uma longa inspiração. no decurso dessa inspiração e expiração percebo enfim que algo me abandonou. algo que levou demasiado tempo a deixar-me. dói-me o pé, mas com as dores físicas posso eu bem.

quase em casa ainda ouço num charco rãs a coaxar e recordo os simbolistas e o O'neill, os caminhantes Rousseau e Thoreau, e outras coisas mais ou menos aleatórias. blá, blá, blá, passarinho, piu, piu, a primavera, lugares comuns, etc. passo os dias a evitar lugares comuns, mas as pessoas precisam deles: não na escrita, evidentemente na vida. só quem não passou por nada poderá dizer o contrário. o lugar comum é sinónimo de segurança, estabilidade. gostamos de não gostar, ou talvez o contrário. não que defenda ser como aquelas pessoas que viajam apenas para procurar em cada cidade o que é igual em todas. isso era outra conversa dentro desta. casa, computador: golpe na venezuela, ciclone em moçambique, uns patetas na universidade a mostrar que o associativismo fechado à comunidade e as praxes de toda a espécie já deviam ter sido banidos há muito. balanço geral: percebo que estou um pouco menos zangado com a escrita, i.e., comigo mesmo.



amadeu liberto fraga

30/12/2018

INSISTÊNCIA, de Edmond Jabès *

§

História de Cabelos 


I

Cortámos as madeixas de água e as madeixas de sal do mar

Aparámos o rochedo e os seixos 
Uma escova e cabelo para fazer uma árvore
Varremos a praia 
e no mar rejeitámos os cabelos inúteis com algas

II

O rio longa barba ruiva rente ao joelho do meu país
Cabeleireiro ousado
dias e noites
nunca a horas

III

Descem a colina
os olhos mais azulados que a fome dos tubarões
mais azulados que as axilas do céu
do amanhecer debruçando-se sobre a terra 


§


História de Pedras 


I

Segredo da pedra vazia

que a picareta procura perfurar
onde o sol jamais penetra
Quanto terão de perseverar
Debruçados sobre o seu ferimento
a única riqueza
eles ignoram até onde a febre os doura

II

Dia batido na sua cave, na sua asa
batido no seu sexo de hermafrodita
dia de sangue nos templos da onda
e na palma dos mergulhadores
Um nome de flor na boca
Um nome de chamas no rasto das borboletas
no fundo das ruínas

III

Não podemos gravar senão um nome
um de cada vez
na morte
não temos direito senão a um elogio fúnebre
a um só epitáfio



§

História de Viagem 


I

O restolho do exílio
o mais terno dos limites
a sua sombra no diário de viagens
como uma rosa

II

O barco liberta-se da constrição do porto
como os braços exauridos de uma mulher
o esquecimento sobe a bordo

III

Amanhã não reconhecerás a terra

os cabelos brancos como o mar
ou careca como a colina
uma árvore para bengala
Amanhã não mais terás nome
Não furarás passagem
por entre ombros anónimos
Uma viúva estenderá os seus lençóis
na linha do teu horizonte

IV

O galo para cata-vento
A coruja para espelho


§


História de Palavras 


I

A tempestade com os seus porta-canetas desesperados

Não se lê tudo o que na terra está escrito
Da mais bela mensagem o padeiro fará talvez o pão
e daquele de cada mulher amada como apenas tu
cujas cartas concordam sob os passos do homem
entre as espigas de trigo então balançando ao sol

II

Matilha de dias alargados
de escritos espólios de caça
A trompa convoca cães espingardas
A ilha inundou os seus trapos
o bairro de lata seus ligeiros telhados
O dilúvio é para este ano
A nado a fuga no corpo
A nado o relâmpago no coração
As girafas são menos apressadas

III

De cada semente de obsessão
a palavra emerge impaciente
como uma arma incompreendida


§


História de Olhos 


I

Os falcões assombram o reino
de João Pestana**
Suas garras fixadas nas pálpebras

II

Ao preço do ouro de novos compromissos
lutando com cada trança de luz
a corda ao pescoço
o carrasco como refém

III

Ao longo das docas de éter
as pessoas acenam com a cabeça
Lajes com graffitis e signos
a âncora no fundo das águas
invejosa memória
O sal conserva a despedida

IV

Crepúsculo

espartilho de reivindicações hostis
Aurora
Paleta de esmalte da renúncia
a mulher nua
desliza
pelo olhar transparente do pintor

V

A morte para noiva

com luvas de missal
e azevinho na cintura

VI


Seus grandes poros dados à luz
Besta de pêlo amarelo acossada
a aldeia uiva ao lobo

VII

Belo caçador com andas

VIII

Para a procissão de cinzas pitorescas
para o soluço das trepadeiras das nações
para o balançar com bochechas ameaçadoras
a terra cospe o seu velho chumbo.

.
* in "Le Seuil, Les Sables", pp. 183-188, Gallimard, 1990
   versão muito livre de amadeu liberto fraga

** Este trecho fala de vendedores de areia e pós, no que aparenta ser uma remissão para um velho conto popular em que esse vendedor, um mago, asperge uma espécie de areia sobre os olhos das crianças que dormem para lhes influenciar os sonhos: os bem comportados teriam bons sonhos, os mal comportados teriam, já se vê, maus sonhos. Ao longo dos tempos este relato foi sofrendo variações mas o essencial manteve-se. Consciente ou inconscientemente, Hubert Reeves participou neste mito popular quando afirmou: "Somos todos feitos de pó de estrelas". No mundo anglo-saxónico este conto daria origem a Sandman, e por cá a João Pestana. Vi-me assim obrigado a abdicar de muita da poeticidade contida naqueles versos para tornar evidente ao leitor que aquele poema remete para o mundo dos sonhos. Infelizmente perde-se ali - além da figura do vendedor de pós - o termo areia (sable) que partilha com seuil (limite) o título dado à poesia completa pelo autor, que remete para a ideia de algo mágico que atravessa o limiar da nossa porta e invade a nossa intimidade - o sonho, a criação, a poesia portanto. Que tenha, pelo menos, prevalecido o carácter onírico da passagem.

27/11/2018

            o primeiro contacto que tive com a obra de Bertolucci (1941-2018) foi o seu 1900, filme que de certo modo fecha o período neo-realista da sua filmografia. nunca mais consegui apagar da memória a cena em que Atilla, o fascista interpretado por Donald Sutherland, mata uma criança aterrorizada, numa espécie de acidente procurado, sem remorso, partindo-lhe a cabeça de encontro a uma coluna. até hoje esta cena persegue-me bem mais do que salós e sucedâneos. 
            seguiu-se Último Tango..., que não me impressionou absolutamente nada, e La Luna, já de 1979, que inaugura o Bertolucci que mais me interessa. sempre vi este filme como uma tentativa de trazer a tragédia grega para os nossos dias, projecto que me parece conseguido e continuado nos dois últimos filmes: The Dreamers e Me and You (embora neste último se sentisse alguma bonomia porventura escolhida por ser a despedida), ao mesmo tempo mostrando os sonhos falhados de uma certa geração, quer pela big picture do maio de '68, por ex., quer pela falência da instituição família. 
            posso também falar de filmes em que o espaço – natural ou aquele erguido pela mão humana – tem um papel preponderante: é por esta lente que escolho apreciar filmes tantas vezes criticados pejorativamente, como The Sheltering Sky (muito distante do livro que o originou, é certo), Little Buddha, ou Besieged, em que a vida interior das personagens e a paisagem exterior se relacionam - por analogia ou por contraste. 
            mas se tivesse de escolher um filme para apresentar o realizador a quem nada dele conheça, decidir-me-ia por The Conformist, de 1970. neste filme, bem como em The Spider's Stratagem (este baseado num conto de Borges), temos a big e a small picture – o fascismo e a disfuncionalidade familiar – tudo a partir da ideia de conformismo, de um quotidiano falsamente asséptico, num cocktail que junta espionagem, drama, intervenção, fazendo-nos questionar o que é afinal a normalidade, ou se tal conceito é sequer válido. 
            também se pode já ver ali o cuidado com o espaço, com o modo como este pode ser filmado para transmitir uma determinada mensagem – seja a luz, seja a aproximação da câmara, por vezes a lembrar Godard – quer nos interiores, quer nos exteriores. escolho-o porque é urgente revê-lo, perceber porque nos interpela, porque nos faz pensar no passado, no presente e no futuro, como se as coisas não tivessem mudado assim tanto (será que mudaram?). escolho-o porque é um filme que nos pede agitação, revolta, revolução.


amadeu liberto fraga

27/05/2018


    (pensei muito, antes de escrever e publicar isto. não pretendo substituir-me a tratados de bioética, é apenas o que penso acerca desta matéria. opinião, portanto. sintam-se à vontade para comentar, mas já não participo em debates. grato, desde já, pela vossa leitura e compreensão.)


    eu defendo a eutanásia. este enunciado: "eu defendo a eutanásia.", pede alguma análise de todos nós. na larga maioria das ocasiões, quando escuto alguém falar sobre eutanásia, o seu argumentário acaba por centrar-se no individualismo: a minha vida, a minha decisão. porém, a eutanásia não é sinónimo de comprar uma arma e dar um tiro na têmpora. por isso prefiro hoje falar de despenalização da morte assistida. aquilo que estou a tentar dizer é isto: para que alguém possa decidir pôr termo à sua vida, essa possibilidade tem de ser facultada, i.e., os meios humanos e logísticos para a prossecução de tal acto não aparecem aos olhos do paciente ab nihilo. não podemos, contudo, cair em alarmismos: ninguém andará por aí com uma agulha no bolso a "eutanasiar" velhinhos, tão-pouco a desleixar cuidados paliativos ou a recusar cirurgias apenas por ser mais fácil e económica uma "morte limpa" (alguma morte é limpa?). 

    também vos digo - quem já teve, por exemplo, um familiar doente oncológico saberá do que falo - como é fácil fazer circular substâncias num hospital, com ou sem consentimento médico: os enfermeiros não poupam na morfina, quando se deparam com um paciente em sofrimento atroz, e, mesmo com notas de poupança da administração, mesmo sem o aval médico, saem e entram de alas inúmeras vezes trazendo no bolso doses lenitivas que administram, não como anjos exterminadores, mas como gente com um pouco de coração, apesar da necessária frieza e distanciamento a que a sua profissão obriga para que se não tornem maus profissionais. portanto, despenalizar ou legalizar uma morte assistida não irá mudar absolutamente nada - continuarão a morrer velhos em lares pagos pelas famílias, quando durante a noite perdem a capacidade de engolir a própria saliva, assim como tantos jovens cuja sorte dita que partam antes dos pais. 

    parece-me apenas que deverá existir um enquadramento legal para que: 1) seja feita uma avaliação independente a cada caso, analisando o estado psíquico e clínico de cada paciente; 2) exista, o quanto antes, formação e apoio para o pessoal médico e/ou familiares que, no futuro, venham a ter um papel preponderante na preparação e no momento da morte assistida do paciente. se isto não é claro, estamos ainda longe de ser gente civilizada. isto não tem qualquer relação com religião, pelo que os líderes religiosos bem podem unir-se para o não. isto não tem qualquer relação com governos de esquerda, direita, centro, ou quaisquer outros. não defendo alguma forma distorcida de nazismo clínico, apenas um fim condigno para aqueles que, perante uma existência de dor apenas, e sem alternativas, possam, conscientemente, decidir pôr termo a um mal crónico que lhes diminua a humanidade. 

    quando já não temos como cerzir o tecido da nossa existência, quando já nem retalhos somos, prolongar o sofrimento alheio é um acto de profundo egoísmo: muitas vezes sentimos a culpa de não termos dado o suficiente de nós aos outros e, por isso, na recta final, confiamos na medicina para prolongar o rio do tempo dos outros. mas por conta dessa culpa judaico-cristã não pode valer tudo. não pode valer sobretudo a hipocrisia. como um rio, a vida. nada detém a água, nada. e um dia, como quando o rio, na foz, encontra o mar, morremos mas não desaparecemos: tornamo-nos parte de algo maior.

amadeu liberto fraga

10/08/2017




- LEMBRANDO RUI KNOPFLI - 

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Na raiz do que hoje pode considerar-se uma poesia moçambicana, está uma geração de que se podem destacar nomes como Noémia de Sousa, José Craveirinha, Fonseca Amaral e Rui Knopfli, entre tantos outros que nos anos ’40 e ’50 do século XX deram corpo às sementes que haviam sido lançadas à terra por Rui de Noronha, Caetano de Campos ou Augusto Conrado.

No ano de 1951, Orlando Albuquerque e Vítor Evaristo foram os responsáveis pela antologia Poesia em Moçambique, uma separata da revista Mensagem, da Casa dos Estudantes do Império. Ao pioneirismo deste trabalho seguiu-se, em 1960, a antologia Poetas de Moçambique, prefaciada por Alfredo Margarido e organizada por Luís Polanah também para a Casa dos Estudantes do Império. Corridos dois anos, Alfredo Margarido organizava e prefaciava – uma vez mais com a chancela da incansável CEI – uma terceira recolha, intitulada novamente Poetas de Moçambique.

Em 1994 foram reunidas num só livro as três antologias prévias, pela Associação da Casa dos Estudantes do Império. Esta espécie de cancioneiro acabou por balizar o modo como se perspectivava a denominada poesia moçambicana. As iniciativas editoriais da CEI marcaram uma época, reivindicando a nacionalidade daquela literatura que mal acabava de ser parida. Simultaneamente, as páginas literárias dos jornais e os suplementos culturais foram emprestando espessura àquela poesia, numa tradição que se manteve mesmo no pós-Independência.


Na última década do século XX, contudo, período de retoma económica do país, a literatura desapareceria das páginas dos jornais e seus suplementos. Curiosíssima lição esta, se a memória histórica nos diz que 

Foi no tempo em que dominava o monolitismo político que Moçambique conheceu uma fecunda expressão na sua cultura. A cultura de resistência – este é o lastro mais importante da cultura moçambicana – parece-nos ser aquela que mais inventiva colhe porque indaga, põe questões, desassossega (1).

O debate que a literatura moçambicana gerou no seu curso, com a polémica da moçambicanidade sempre a pairar, obriga a destacar, de entre separatas, suplementos e outros, a Itinerário (anos ’40), a folha de poesia Msaho (1952), o suplemento de O Brado Africano (1955-57), a revista de cultura e arte Paralelo 20 (1957-61), o suplemento do jornal Notícias (1958-59) – Moçambique 58, o suplemento Artes e Letras, do jornal A Voz de Moçambique, o Despertar, suplemento do Notícias e a revista de poesia Caliban (1970-72). Todas estas publicações contribuíram para erigir o edifício da literatura moçambicana. No que à narrativa diz respeito, esta teve um incremento considerável no período após a Independência. Já no campo da poesia, antes mesmo de ’75, o panorama moçambicano comportava um pluralismo de que se viria a destacar dois nomes de maior expressão: José Craveirinha e Rui Knopfli.

As gerações posteriores puderam, assim, usufruir da tradição de que ambos foram traves-mestras. O primeiro, 


pela sua força telúrica, sobretudo por traduzir na sua poesia o devir moçambicano, haurindo, de forma excepcionalmente esplendorosa, o ser e o modo moçambicanos. Knopfli emprestou-nos a modernidade, o ecletismo e o complexo entendimento de que os dogmas identitários não podem nem devem explicar facilmente a moçambicanidade (2).

Com efeito, apenas pesando a tradição de toda uma poesia se podem citar, a contrapelo, nomes tão díspares como Rui de Noronha, Orlando Mendes, Reinaldo Ferreira, Noémia de Sousa, Alberto de Lacerda, Rui Nogar, Glória de Sant’Anna, Sebastião Alba, Grabato Dias, Eduardo White ou Luís Carlos Patraquim. Estes como tantos outros, que me abstenho de aduzir, no entretecimento de uma poesia assente nas experiências geracionais, foram deixando o seu particular.


Os primeiros anos da Independência ficaram marcados pela denominada poesia de combate. Esta literatura, de profundo valor histórico, constitui testemunho da construção de uma nação e abriu, certamente, as portas para o que teria lugar na década de ’80: apoiadas pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco, surgirão aquelas vozes que, na colecção Autores Moçambicanos, se começarão a distanciar da antecessora geração literária (sem, por isso, se despirem de algum espírito interventivo). Luís Carlos Patraquim, Sebastião Alba ou mesmo Jorge Viegas são alguns dos nomes que começaram a afastar-se do combativo Nós, em direcção a uma poesia vincada pelo lirismo intimista, na qual o Eu subjectivista toma meandros despidos de qualquer aproximação colectivista.

Some-se a este facto, o nascimento, em 1982, da AEMO – Associação dos Escritores Moçambicanos, que irá divulgar novos autores. As revistas literárias Charrua e Forja albergaram muitos dos autores da AEMO, além da Gazeta de Artes e Letras, da Revista Tempo, que divulgou poetas e ficcionistas da nova vaga. A não desprezar, o papel relevante de suplementos como o Diálogo, do Diário de Moçambique, ou Literatura e Artes, do Notícias.

No ano de 1985, Manuel Ferreira edita o terceiro volume das suas antologias dedicadas a África, No Reino de Caliban, sobre Moçambique. Em 1988, na cidade da Beira, comemorando os dez anos da página Diálogo, os mentores desta (Heliodoro Baptista, Julio Bicá, Simeão Cachamba, entre outros) editaram uma antologia do percurso do suplemento, à qual chamaram As Palavras Amadurecem. Em 1993, em Moçambique, surgiria a Antologia da Nova Poesia Moçambicana, organizada por Fátima Mendonça e Nelson Saúte. Esboçado que fica, em traços rápidos, o caminho nem sempre fácil desta literatura “jovem”, forjada 


Entre a necessidade de reivindicação da moçambicanidade e do espaço para a gestação de uma Nação – Noémia e Craveirinha são os nomes mais emblemáticos – e a afirmação de uma pluralidade que se distancia dos propósitos imediatamente ideológicos ou contestatórios da ordem então estabelecida – Knopfli – a poesia moçambicana intenta hoje uma singular viagem de descoberta (3). 

O intimismo parece dominar a actual poesia moçambicana, talvez na tentativa de sarar uma ferida que teima em abrir ainda nas páginas do complexo quotidiano de Moçambique. Mais do que interpretar, esta poesia reinterpreta e exorciza, elevando-se do mundano para um registo que transfigura metalinguisticamente o real colhido, “porque é na palavra que muitas vezes está, / perdido ou escondido, / o outro homem que no poeta reside” (4).


Ingrata tarefa a da crítica, que, ao longo de décadas, tentou aproximar a obra de Rui Knopfli daquilo que consideravam ser uma nova poesia. Ancorada em axiomas que predominaram na década de ’50, como lidaria a crítica com aquela poesia híbrida, a um tempo lírica e eclética, barroca e depurada, sincera e cáustica, moçambicana e europeia? Nascido a 10 de Agosto de 1932, em Inhambane, e educado na então Lourenço Marques, este homem singularizou-se na poesia moçambicana, bem antes de Eduardo White nos mostrar a sua voz (a meu ver, nem sempre tão bem conseguida). Ainda hoje parecem existir largos equívocos quanto à obra knopfliana, “subsistindo uma vaga e subliminal resistência na adesão cabal a uma obra que se não sabe como situar dentro dos discursos poéticos vigentes na língua portuguesa” (5).



Desde a primeira hora, Knopfli apresentou-se rigoroso à escala clássica, sem nunca deixar o temperamento lírico resvalar em excessos discursivos. Prova disso será o poema “Despedida” (6), incluído em O País dos Outros (1959). A estilização de uma Renuntiatio Amoris, que remonta a Ovídio e nos chegou pela pena de Camões, é aqui exercício de uma depuração extrema, que nos faz recordar “Adeus” (1950), de Eugénio de Andrade (7). Perante a antecipação da despedida, Eugénio diz-nos: “Já gastamos as palavras pela rua, meu amor, / e o que nos ficou não chega / para afastar o frio de quatro paredes”, enquanto Knopfli nos anuncia: “Tudo entre nós foi dito”, como se nem espaço houvesse já para nomear, no outro, a palavra “amor”. E o frio que nada consegue afastar, aparecerá em Knopfli exteriorizado num Outono 



                                                  decisivo de folhas secas
                                                  e bancos abandonados de cimento frio
                                                  onde não cantam aves
                                                  e o vento desce em brandos rodopios.


que se adivinha fora de época, como o presente impossível de cumprir. E a saudade, instalada precocemente no presente vivido, permite a Eugénio lembrar que “Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro”, enquanto em Knopfli o abandono é previsto na sua irreversibilidade desde o primeiro verso, restando


                                                 Apenas uma vaga angústia presente,
                                                 uma saudade sem recomeços,
                                                 a lembrança tépida a gelar como
                                                 veios de mármore.


Ora, é esse mesmo mármore que parece aproximar Luís de Sousa Rebelo (8) à filosofia de matriz grega que aflora nos versos de Ricardo Reis, em “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”. O silêncio que os amantes de Reis preenchem ao dar as mãos, advém, em Knopfli, das próprias palavras que “entre nós (…) colocam um mundo / de silêncio e vazio estéril” e que, de modo um tanto ataráxico, deixam os amantes “cansados e tristes”, olhando o “apodrecer do parque, / o vento, o crepitar leve das folhas”, até lhes restar apenas dizer adeus, porque, e bem o sabia Eugénio, em momentos de ruptura, “o passado é inútil como um trapo”.



O retomar de certos temas foi, para Knopfli, um meio de pôr em prática a descontrução de discursos instituídos, por vezes munido de uma ironia insuspeita, o que sucede, entre outros, no caso do poema “Terra de Manuel Bandeira”, também do seu primeiro livro. Misturando o quotidiano com uma elevação às vezes cosmosófica, somos confrontados com reflexões que não estariam na competência de outros poetas. Veja-se, por exemplo, como nos propõe um roteiro pela Ilha de Próspero (1972), e, depois de nos surpreender com lendas da ilha e a ausência celebrada de monumentos, somos confrontados com a “Mesquita Grande” (9). A ilha é, afinal, um “raso Olimpo argamassado em febre / e coral” em que 

                                                 o Deus maior sou eu. Por mais
                                                 que as pedras, os muros e as palavras afirmem
                                                 outra coisa, por mais que me abram o corpo
                                                 em forma de cruz.


marcando, sem margem para alternativas, uma concepção de civilidade muito prévia à de Próspero. Ficamos perante um daqueles raros momentos em que a voz de Knopfli se despe da sua individualidade, para univocamente proclamar na voz de um Caliban – a voz, afinal, de todos os nativos daquela ilha – que a conquista foi uma falácia:


                                                  Pórticos, frontarias, o metal
                                                  das armas e o Poder exibem na tua sigla
                                                  a arrogância do conquistador. Porém o mel
                                                  de tâmaras que modula o gesto destas gentes,
                                                  o cinzel que lhes aguça a madeira dos perfis,

                                                  a lenta chama que lhes devora os magros rostos,
                                                  meus são. Dolorido e exangue o próprio
                                                  Cristo é mouro da Cabaceira e tem a esgalgada
                                                  magreza de um velho cojá asceta.


Embora escreva num português enxuto, pouco dado a corruptelas ou ao léxico de origem dialectal africana, nem o latim escapa a Knopfli, e “às doces inflexões do cantochão latino” responderá aquela outra raça, a quem Caliban roga: “raça de escribas, mandai, julgai, prendei: / Só Alá é grande e Maomé o seu profeta”. 

Se a este texto juntarmos o que fora já prenunciado, tão-só duas páginas antes, naquele “Terraço da Misericórdia” (10) em que “As sombras salmodiam tristemente / versículos do Corão” ficamos perante o chamamento a uma África poli-dialectal, com muito pouco de monoteísta (apesar do foco aqui nos ensinamentos do Corão), e que não esquece as acções de Próspero mesmo quando dentro da “Capela” (11): 


                                                  A cor é fria, o branco quase cinza
                                                  e as púrpuras do retábulo simulam
                                                  fogos morrentes onde crepita
                                                  o fulgor mais vivo de uma ou outra
                                                  rara chama. África ficou
                                                  ao umbral das portas, no calor
                                                  da praça.


Contudo, ironicamente,

                                                  sob um baldaquino hindu
                                                  e num desvario de cores e santos hieráticos,
                                                  salta o púlpito oitavado e é o Oriente
                                                  que chega com seus monstros.


e o grande cisma do Ocidente é invocado, pois

                                                   Do silêncio fita-nos um rosto trifonte
                                                   e nós estamos na encruzilhada
                                                   cismática desse olhar que se prolonga,
                                                   nos examina e considera.


Este, como outros poemas de Knopfli, comporta implicações às quais seguramente não acedo na plenitude, e mostra bem, creio, o porquê da estranheza da crítica perante uma obra tão prenhe de sentidos. Mas não se pense que a inépcia da crítica levaria o poeta a uma lamentação metafísica pseudo-pessoana. Não. Ao invés, a sua resposta surge, desde logo, no seu poema “Contrição” (12), do volume Mangas Verdes com Sal (1969). Com um sarcasmo contundente, Knopfli satiriza os seus detractores, que insistem em ler-lhe influências que podiam muito bem ter vindo de obras que não coincidem com as que a crítica refere.



Seja uma palavra, uma imagem, nada parece escapar ao escopo desfocado de uma crítica a que o poeta responde remetendo, entre outros, para o universo anglo-saxónico que lhe era tão caro:


                                                  Felizmente, é pouco lido o detractor de meus versos,
                                                  senão saberia que também furto em Vinícius,
                                                  Eliot, Robert Lowell, Wilfred Owen
                                                  e Dylan Thomas. No grego Kavafi,
                                                  no chinês Po-Chu-I, no turco
                                                  Pir Sultan Abdal, no alemão
                                                  Gunter Eich, no russo André Vozenesensky
                                                  e numa boa mancheia de franceses. Que desde
                                                  a Pedra Filosofal arrecado em Jorge de Sena.
                                                  Que subtraio de Alberto de Lacerda
                                                  e pilho em Herberto Helder e que
                                                  – quando lá chego e sempre que posso –
                                                  furto ao velho Camões.


China, Turquia, Rússia, Grécia, Alemanha, França e até os portugueses Camões, Alberto de Lacerda e Herberto Helder, que haveria de publicar na revista Caliban, são convocados numa erupção de influências, de entre as quais Fernando J. B. Martinho viria a destacar a anglo-saxónica (13). Em ensaio coligido para publicação na Gulbenkian, este crítico recorda que, tanto por via da literatura, como por via do cinema e do jazz, a referência cultural anglo-saxónica vai ser acolhida, em parte pela proximidade com a África do Sul, pelos intelectuais “euromoçambicanos do período antes da Independência”. Já Noémia de Sousa, por exemplo, acolhera as “vozes de lamentação” que não vinham senão dos spirituals. E Knopfli, em Sketch Book, conjunto de quatro poemas que havia incluído em Reino Submarino (1962), aproxima-se do universo do jazz. Posteriormente, todavia, removeu esse conjunto do tomo supracitado (pelo que não pude aceder aos mesmos, dado que apenas encontrei edições recentes, distribuídas em Portugal pela Imprensa Nacional).



Porém, o jazz e os jazzmen voltarão a aparecer em Mangas Verdes com Sal, o mesmo livro em que se conta “Contrição”. A primeira parte, Nunca mais é Sábado, é precedida por uma citação do Book of Jazz, de Leonard Feather, que o poeta toma para si: “…threw conventional beauty out the window to concentrate more fully on matter rather than manner”. O jazz surgirá depois em textos da secção O Dente do Siso, em que o poeta se vai debruçar sobre Miles Davis e o seu estilo despido de efeitos e sobre Thelonius Monk, com a sua imprevisibilidade. A intertextualidade cresceu dentro da poesia de Knopfli, alicerçada numa sinceridade sem par, sem pruridos, e o jazz, o rock, o cinema, enfim, o exílio, adensificariam a obra deste cidadão da poesia. Os seus alargados interesses, no entanto, não obstaram a que mantivesse bem presente o seu horizonte poético, nunca abdicando da lúcida vigilância a que sempre obrigou o seu labor.

Alude mesmo a um rigor clássico, em “Não Obstante…”, também do livro Reino Submarino, quando nos explica o seu método: “eu trabalho, dura e dificilmente / a madeira rija dos meus versos, / sílaba a sílaba, palavra a palavra, num registo próximo do que se encontra na Arte Poética (Carta aos Pisões), de Quinto Horácio Flaco: “Nec uirtute foret clarisue potentius armis /quam lingua Latium, si non offenderet unum /quemque poetarum limae labor et mora”. 

Se a esta consideração juntarmos o cerco da crítica, percebemos melhor porque reescreveu tantas vezes, ao longo da sua obra, a sua Ars Poética. Percorrendo um caminho de memória que o leva por um itinerário espiritual – algo semelhante ao de T. S. Eliot, desde Terra Devastada até desaguar nos seus Quatro Quartetos (14) –, Knopfli meditará também acerca da temporalidade. É talvez em Máquina de Areia (1964) que o autor melhor o fará: a transitoriedade que desagrega o quotidiano trará um tom confessional q.b., despido de qualquer ironia, em que as cinzas do passado se diluirão na tinta para recuperar seres e objectos da usura do tempo. É um tomo do qual saímos salvos, reconciliados com a nossa própria existência. 

Knopfli apresenta-nos, em “Pirâmide” (15), a uma música que cura, uma “Doce música de areia leve, / contínuo sibilar de horas” por onde se pode, tal como o poeta, seguir, “quase alegre, quase sem remorso, / vertical, amargo e tímido / ó implacável máquina de areia”. Mesmo que os retratos de família tragam amargura e saudade, já que “Breve chega o instante de se olhar /o cadáver do amigo”, a verdade maior assomará à flor dos versos, para relembrar: 

                                                  Ali estendido ele não tem idade,
                                                  parou de envelhecer,

                                                  (…)

                                                  eu sou agora umas horas mais velho,
                                                  um pouco antigo e dolorido na penumbra.


Sempre presentes estarão “os que atravessaram o grande rio”, na arquitectura de gestos que agora encontram o vazio da ausência, enquanto


                                                  A parábola das horas
                                                  traça no espaço os trilhos da memória:
                                                  Um resíduo de tempo persiste,
                                                  imprime uma lembrança ténue,
                                                  imperceptível nervura no rosto
                                                  acumulado dos dias.


Estamos, pois, não perante um registo poético do quotidiano fugaz, mas em face de uma transmutação em que o espírito intui o destino do Homem na inexorável corrente do tempo: o esquecimento é, afinal, o que nos salva da loucura. Na segunda parte do livro, em “Visitação” (16), apõe-se uma linguagem do desejo, em que mesmo a despedida detém um cariz erotizante. A tónica, contudo, permanece no discurso da memória, que agrega todo o livro. Mas o erotismo é sublimado num fluir de vicissitudes biográficas, que o poema – “biofágico” – expurga da comezinha pena para se elevar, ex machina, como o grande triturador do desejo. Homem e mulher refundem-se na infância, “Crianças sem memória / somos o riso mortífero / que sabendo tudo ignora”, assentindo que, da sua inocência, ardem “Na escuridão e na distância. / Quase longamente”, sabendo, de antemão, que


                                                  Os músculos e o sangue e os nervos
                                                  reaprendem cautelosamente o caminho
                                                  que os olhos desvendam no dia claro.
                                                  A liberdade é a ressurreição.


Chegado a O Corpo de Atena (1984), Knopfli pondera o problema da criação, escavando sentidos a partir de signos e sons: 

Atena, deusa do saber na mitologia grega, será objecto do culto ritual do poeta, que emprega toda a alquimia do verbo para entrar no âmago dos seus mistérios. A imagem que surge com frequência é a “lâmina e o sangue”, numa associação ritualista que tem a haver com o culto de Apolo e só por extensão metonímica se pode vincular ao corpo de Atena (17). 

A contemplação do corpo de Atena esconde o aprofundar de um mistério que a escrita não penetra. O poeta vê-se confrontado, no poema que dá nome ao livro (18), com o seu mester, que é afinal, o de um cego bicho humano:



                                                  Proscrito da luz, o irmão
                                                  de Orfeu desconhece o óbvio

                                                  (…)

                                                  A cegueira é sua condição.
                                                  Os filhos de Mársias são cegos,
                                                  ou perturba-os uma visão enferma.


e adiante, com “O Escriba Acocorado” (19), no “neutro olhar sem órbitas”, permanece fitando “mais além”, “Nesse olhar / de não ver tudo” em que se inscreve, “repensa e adivinha: teus limites /e, ainda, o que excederia tua humana // estatura”. Na Primavera de 1996, Rui Knopfli cedia entrevista a Francisco José Viegas (20), a partir de Londres. Nela assumia a saudade de Portugal. Questionado sobre o distanciamento que prejudicava a divulgação da sua obra poética, respondeu, depois de uma vida dedicada ao ofício poético: “Em Portugal, além do mais, não sabem onde me situar. Sou uma daquelas criaturas que ninguém sabe onde situar.” O poeta dizia que 

não é muito cómodo, mas é aquela em que a gente acontece, com as coordenadas que há para seguir (…). Quer dizer, eu sei, lá no fundo… Eu sei que sou da Língua Portuguesa, sei que a minha cultura é portuguesa, e os meus mestres são o Camões, o Pessoa, (…), são as leituras do Herberto, do Alexandre O’ Neill, do Sena e, depois, aquilo que a gente vai roubando de outras culturas.

Passando a conversa por Ilha de Próspero ou por O País dos Outros, Knopfli recorda que, a dada altura, estava triste com a sua memória de Moçambique até Noémia de Sousa lhe ter dito: “Estás totalmente enganado; se há gente que te admira é a nova geração.” Esta apresentou-o a Nelson Saúte, que o saudou com um abraço afectuoso, e Rui Knopfli redescobriu como a sua poesia ainda dizia algo a Moçambique. 



A entrevista prossegue, retomando o livro Ilha de Próspero, que o autor lamenta ter sido, a dada altura, lido como um guia, ou um coffee-table book. A colonização e o que a precedeu é chamado, a propósito, pelo poeta, que acaba por deixar bem claro que o título O País dos Outros não era para os brancos… Seguem-se memórias do 25 de Abril, da sua saída do Tribuna, relembra como Luís Bernardo Honwana disse a vários amigos mútuos que a Frelimo se tinha portado mal com ele e a sua saída de Moçambique em ’75, ao contrário do que certas vozes quiseram fazer crer.

Sempre crítico, aponta o dedo àqueles que vestem a farda de escritor e são mais pose do que obra, para adiante se definir: “Eu sou das poucas pessoas que não andei a fazer a estratégia da glória, nunca pertenci a nenhum lobby no poder, fui sempre uma espécie de voz discordante.” Em 1997 sairia Monhé das Cobras, com aqueles poemas que Knopfli referira a José Viegas, numa edição da Caminho. Quando o também poeta e ensaísta David Mourão-Ferreira indagava 


Moçambique arriscar-se-á, a breve trecho, a compartilhar a sorte da Tanzânia – a qual, em duas gerações, deixou de ser país de expressão oficial alemã para se tornar mais um, dos que na região abundam, de expressão oficial inglesa. Mas quem ouviu o grito de José Craveirinha? (21).

talvez não aguardasse uma resposta de Rui Knopfli. Porém, aquele que seria o último livro deste, parece responder-lhe, ao mesmo tempo que continua a sua ruptura com a crítica. Quando se esperava que esta aceitasse melhor a sua poesia, no que ela bebia do mundo anglo-saxónico, o poeta direcciona, como nunca, o seu discurso para África. 



A memória (consentida) de África levará Knopfli pelas emoções de um tempo dourado, em que a figura encantatória de um mago manipulador espalhava prodígios pelos dias. As cidades de África do Sul já não trazem o bafo de uma Europa distante, o que será explicável, quiçá, pela mundividência do exílio londrino que gastara o fascínio europeu de outra idade. As reminiscências darão vívida cor à sua africanidade e o processo de rememoração – tão fotográfico quão poeticamente metaforizante – tirará ao pó do tempo pormenores de uma cronologia pessoal que darão a mão a uma palavra de rigor sempre clássico, com travo amargo e com apontamentos, aqui e ali, de um embargo da voz que se lia premonitório. 

Abrindo com o tomo Os Nomes, Os Lugares, o livro pinta o retrato d’ “O Monhé das Cobras” (22), 

                                                  envolto em alvos panos e silêncio,
                                                  está. O pudvém cobre-lhe o escroto

                                                  e sobraça-lhe as pernas magras e finas
                                                  de esquálido aracnídeo. No topo o turbante

                                                  e a barba anciã oscilam na brisa matinal.


preparando o leitor para o sortilégio: “Principia, então, a enfeitiçar o dia, / com exactos gestos rituais”. No poema seguinte percebemos que aquele menino, o que ficava paralisado de medo a olhar o ancião, traz para o presente a geografia íntima que o poeta ritualiza: lugares da infância e descrições da sua mãe. Daí, avançaremos para uma “moringa” e para o sabor daquela água “matando a primeira de todas as sedes”, seguida por mais memórias que nos trarão à presença d’ “O Curandeiro” (23), que “lança os ossos e antevê futuro e curas.” A adolescência brota já dos ensinamentos de “Madala” (24), e vem acompanhada de “espadas nuas”, “o estrondo dos disparos, o cheiro da pólvora.” 

Ao “Passanoute” (25) opor-se-á Hugh Lemay e os comics, seguido de memórias d’ “A Casa da Areia” (26), as Oficinas Gerais dos CFM, até à visão adulta de “Artemisa e Não” (27): 

Artemisa, não a deusa da mitologia,


                                                  Artemisa de seu nome, deusa por mérito próprio,
                                                   
                                                  (…)

                                                   Solta a negra cabeleira, o tafetá,
                                                   a cingir-lhe a curva da anca, a apertar

                                                   o seio apetitoso.


Talvez ciente de que um certo tom confessional poderia tornar o seu itinerário pessoal demasiado sentimental, Knopfli insere nesta memória o universo clássico, ainda que para satirizá-lo, enobrecendo, no processo, a mulher africana. Em “Dana” (28), temos já o “trajecto sangrento das acácias”, Mafalala e o prédio Pott. Na segunda parte, As Estátuas, é-nos apresentado um falso mundo grego pela voz do aedo, e torna-se claro que, por metonímia, Grécia é a Europa e, o pior, aquela parte da Europa que insistia em invadir os espaço de África com escritórios e “a rede ferroviária”. 

Chegados, enfim, à terceira e última parte, n’ “O Desterro” (29), “corre já um arrepio pela crista / de Novembro (…) // (…) Toma-se de frio / o ombro esquerdo”, um frio que nem “Vila Viçosa, Alentejo profundo” conseguirão apaziguar. Com o último poema, espera-se o “Cair do Pano” (30), quando “As acácias já se incendiaram de vermelho / e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante / a manhã de Dezembro”. E ao longe, imagine-se,


                                                  Ao longe, no extremo distante da caixa
                                                  de areia, o monhé das cobras enrola
                                                  a esteira e leva o cesto à cabeça,
                                                  cumprido o papel exacto que lhe coube.

Teremos então de assumir que nós, os leitores, “comparsas convocados / para esta comédia” não podemos consignar esta obra tão ímpar “ao olvido / e à erva daninha que, persistente, a cobrirá”, porque “O encenador faz / a vénia da praxe e, porque aplausos” lhe são, e bem, mais do que devidos – à esquerda e à direita. Não deixemos “encurtar o tempo, o pouco que nos sobra” e leia-se Rui Knopfli. 


amadeu liberto fraga


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N.A.: à data do término deste texto, a antologia de Rui Knopfli editada pela do lado esquerdo, não se encontrava ainda disponível, pelo que não pude consultar o prefácio de António Cabrita. Ausente está também a entrevista que Rui Knopfli cedeu a Michel Laban, para o livro Moçambique. Encontro com escritores, editado pela fundação Eugénio de Almeida, e a que conto ainda poder aceder, altura em que este texto poderá ser aumentado. 




(1) SAÚTE, Nelson, in Prefácio a Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana, pág. 26, D. Quixote, 1ª edição, Lisboa, 2004

(2) idem, pág. 28

(3) idem, pág. 32

(4) do poema A Palavra, de Eduardo White, in País de Mim e coligido em Nunca mais é Sábado…, pág. 559-561

(5) REBELO, Luís de Sousa, in Prefácio a Obra Poética, por Rui Knopfli, pág. 8, INCM, ed. única de 1000 ex., Lisboa, 2003

(6) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 41

(7) in ANDRADE, Eugénio de, Primeiros Poemas/ As Mãos e os Frutos/ Os Amantes sem Dinheiro, pp. 88-9, Edições Quasi, 2ª edição, Vila Nova de Famalicão, 2008

(8) REBELO, Luís de Sousa, in Prefácio a Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pp. 9-10, INCM, ed. única de 1000 ex., Lisboa, 2003

(9) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 355

(10) opus cit., pág. 353

(11) idem, pág. 359

(12) idem, pág. 210

(13) MARTINHO, Fernando J. B., no ensaio A América na poesia de Rui Knopfli, in Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, pp. 119-137, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª edição, Lisboa, 1987

(14) Ambas as obras estão editadas em Portugal pela Relógio d’Água

(15) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 171-74

(16) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 175-77

(17) REBELO, Luís de Sousa, in Prefácio a Obra Poética, por Rui Knopfli, pp. 21-2

(18) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 439

(19) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 448

(20) in Revista Ler Nº 34, pp. 52-67, 1996

(21) MOURÃO-FERREIRA, David, Magia Palavra Corpo: Perspectivas da Cultura de Língua Portuguesa, pág. 24, Cotovia, ed. única de 1500 ex., Lisboa, 1993

(22) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 487

(23) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 492

(24) idem, pág. 493

(25) idem, pág. 494

(26) idem, pág. 496

(27) idem, pág. 504

(28) idem, pág. 509

(29) idem, pág. 492

(30) idem, pág. 528