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24/02/2022


- Não há dúvida nenhuma de que, quanto às campanhas e aos perigos, partilhava deles com todos os camaradas... Oh, meu Deus, que belas horas vivia a nossa Ucrânia!
 

- Era terrível! — suspirou Ana Mikhaïlovna.

 

- Era esplêndido! — ripostou o jovem visionário.
 

- Agora nada resta! — declarou Piotr num tom decisivo, aproximando-se do lado da carruagem. Alteando as sobrancelhas e aplicando o ouvido ao passo dos cavalos vizinhos, obrigou o seu a regular-se pela caleche. —Tudo agora desapareceu — repetiu ele.

 

- O que foi condenado a desaparecer desapareceu — declarou o tio Maksim, num tom estranhamente frio. — Eles viviam à sua maneira, vós viveis à vossa, eis tudo.
 

- O senhor não se arrisca a nada agora — respondeu o estudante. Já tomou da vida tudo o que ela lhe podia dar. Nós é outra coisa.

- É bem verdade, a vida deu-me tudo e tudo me tirou — disse, sarcástico, o velho garibaldino, olhando as muletas. E depois de um curto silêncio acrescentou: - Há muito tempo também eu aspirava a tomar parte em batalhas, sonhava com a poesia furiosa das lutas e com a liberdade completa do espírito... Parti mesmo para a Turquia, onde Tchaikovsky, nosso compatriota, queria organizar um estado cossaco, completamente independente...

 

- E depois? — perguntaram vivamente os rapazes.

 
- Depois... curei-me, e bem depressa. Curei-me desde que vi os «livres cossacos» servir o despotismo turco. Uma mascarada histórica e uma escroquerie política foi tudo o que verifiquei. 


Vladimir Korolenko, in "O Músico Cego", pág. 148-49, Publicações Europa-América, 1971



17/01/2021


    ( . . . )
 

    Convenhamos que o mundo ficaria bem mais pobre e mais vazio sem o Artista. Nenhuma classe, porém, está entre nós tão desprotegida. É certo que, geralmente depois de morto, o Artista beneficia de certas compensações... é falado, é lido e relido, comentado, antologiado, imitado, entra no património nacional. Donde se poderá então concluir que o costumado confronto com a cigarra é odioso e injusto, que da cigarra pouco fica para o seu semelhante e os vindouros, mas do Artista fica muito em relação do que deixa a maioria dos seus contemporâneos, que é caca. 

    Denunciemos com toda a energia a fórmula, hipócrita e falsamente optimista que 𝑎𝑚𝑎𝑛ℎ𝑎̃ 𝑒́ 𝑑𝑜𝑠 𝑙𝑜𝑢𝑐𝑜𝑠 𝑑𝑒 ℎ𝑜𝑗𝑒 (e, Pessoa, que pôs a correr em verso esse lugar-comum, o exibe melhor que ninguém: o "louco" era ele e os "de juízo", os sensatos espertalhões, é que descobriram 𝑢𝑚𝑎 𝑚𝑖𝑛𝑎 na sua obra). Quando se vê que as videirinhas formigas tomam conta, cedo ou tarde, do canto da cigarra para se alambazarem à sua custa, em boa-fé somos levados a admitir que o canto sempre vale alguma coisa e sendo assim, a própria cigarra, como vivente, vale alguma coisa e justo será que seja ela, antes de ninguém, a lucrar com isso, ao menos para não morrer de fome e frio, tiritando a dançar no Inverno, como quer a fábula. E a formiga, claro!, para seu gozo e proveito.

    Meus Senhores, estimados Amigos, preclaros Confrades: esta situação é ignóbil e ridícula, e para quem a sofre é pior, porque é atroz, inibitória para o Artista, vexatória para a sociedade. Não deve continuar, e tem-se mantido um pouco também por distracção, passividade dos principais interessados. A minha tese é esta: pelo respeito que nos merecem 𝑜𝑠 𝑙𝑜𝑢𝑐𝑜𝑠 𝑑𝑒 𝑜𝑛𝑡𝑒𝑚 temos de ser hoje 𝑡𝑎̃𝑜 𝑙𝑜𝑢𝑐𝑜𝑠 𝑐𝑜𝑚𝑜 𝑒𝑙𝑒𝑠, ou mais, sabido que cada época tem seu tipo e grau de 𝑙𝑜𝑢𝑐𝑢𝑟𝑎 𝑐𝑟𝑖𝑎𝑑𝑜𝑟𝑎, e marcar, desde já, a nossa reserva e o nosso desdém pelos sensatos espertalhões que nos querem comer as papas na cabeça, como parasitas do Artista que são e agem. Que não contem com a nossa cumplicidade! que não apostem na nossa doce aquiescência!... Que não trocem muito e para sempre! do artista, que lhes pode puxar as orelhas em justiceira prosa jocosa. Quando meterem a foice na seara que é nossa, por amor nosso e nosso direito comprado com sangue, serão mordidos, 𝑐𝑎𝑣𝑒 𝑐𝑎𝑛𝑒𝑚! E a tese tem um corolário: melhor é ajudar um artista 𝑛𝑎 𝑑𝑢́𝑣𝑖𝑑𝑎 (de que venha a realizar-se em grandeza, de que prossiga a obra que se propõe) que não apoiar um Artista que fracassará, poderá fracassar, sem esse apoio. No primeiro caso, não se perde grande coisa, fez-se caridade (até porque, como é natural, geralmente apenas lhe demos do nosso supérfluo); no segundo caso... sim, aí a perda foi incalculável. Para o Artista, para nós, para a sociedade. Não acham? E com equívocos destes, alguns fatais, está a História da Arte bem documentada. Entre nós, o mais conhecido e motivo de maior escândalo é Camões, 𝑡𝑎̃𝑜 𝑝𝑜𝑏𝑟𝑒, 𝑡𝑎̃𝑜 𝑝𝑜𝑏𝑟𝑒 𝑞𝑢𝑒 𝑣𝑖𝑣𝑖𝑎 𝑑𝑒 𝑎𝑚𝑖𝑔𝑜𝑠... Uma vergonha nacional.

    Atendo-me à criação literária, onde o meu depoimento pode rechear-se de testemunhos vividos e exemplos significativos, afirmo que esta é, em Portugal, salvo as honrosíssimas excepções da praxe, e são mui poucas, uma farsa e uma fraude pegada. Que sendo entre nós o escritor profissional uma ave rara, ele se encontra sem nenhuma protecção legal ou as que há são tão mesquinhas do ponto de vista prático, que é quase o mesmo. Que se pagam hoje em Portugal quantias irrisórias - por um artigo, um romance, uma tradução, etc., e comparadas com outros salários nos revelam que a profissão do escritor é das que menos garantias oferece, das que menos dinheiro aufere (e o escritor é um bípede que come, que diabo!). A um Amigo meu, muito íntimo, que trabalha há anos (reparem: ℎ𝑎́ 𝑎𝑛𝑜𝑠) e exclusivamente (leram bem? eu disse: 𝑒𝑥𝑐𝑙𝑢𝑠𝑖𝑣𝑎𝑚𝑒𝑛𝑡𝑒) como escritor, perguntava-lhe outro dia o que aconteceria se, longe o agoiro!..., se lhe faltasse de repente a vista, ou o ouvido (ele é crítico musical, e dos mais excelentes, dos mais combativos): qual era o enquadramento de Previdência que lhe daria amparo, o socorria no doença, ou na invalidez, ou na velhice, até numa simples dor de dentes, em suma aquilo de que dispõe, e com todo o direito corporativo e legislação social adequada, um servente de tipografia.

𝑁𝑎̃𝑜 𝑠𝑜𝑢𝑏𝑒 𝑞𝑢𝑒 𝑚𝑒 𝑟𝑒𝑠𝑝𝑜𝑛𝑑𝑒𝑟. 𝐸 𝑒𝑢 𝑎𝑔𝑜𝑟𝑎 𝑔𝑜𝑠𝑡𝑎𝑟𝑖𝑎 𝑞𝑢𝑒 𝐴𝐿𝐺𝑈𝐸́𝑀 𝑚𝑒 𝑓𝑜𝑠𝑠𝑒 𝑐𝑎𝑝𝑎𝑧 𝑑𝑒 𝑟𝑒𝑠𝑝𝑜𝑛𝑑𝑒𝑟 (𝑜𝑢 𝑒𝑥𝑝𝑙𝑖𝑐𝑎𝑟, 𝑠𝑒 𝑎 𝑚𝑖𝑛ℎ𝑎 𝑝𝑒𝑟𝑔𝑢𝑛𝑡𝑎 𝑛𝑎̃𝑜 𝑒𝑟𝑎 𝑎𝑝𝑜𝑑𝑖́𝑐𝑡𝑖𝑐𝑎) 𝑝𝑜𝑟 𝑒𝑥𝑒𝑚𝑝𝑙𝑜, 𝑆. 𝐸𝑥.ª 𝑜 𝑀𝐼𝑁𝐼𝑆𝑇𝑅𝑂 𝐷𝐴𝑆 𝐶𝑂𝑅𝑃𝑂𝑅𝐴𝐶̧𝑂̃𝐸𝑆, 𝑜𝑢 𝑜 𝑚𝑒𝑢 𝑝𝑟𝑒𝑧𝑎𝑑𝑜 𝑑𝑟. 𝑀𝑎𝑛𝑢𝑒𝑙 𝑑𝑎 𝑆𝑖𝑙𝑣𝑎 𝐿𝑒𝑎𝑙, 𝑑𝑎 𝐽𝑢𝑛𝑡𝑎 𝑑𝑒 𝐴𝑐𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑆𝑜𝑐𝑖𝑎𝑙.

    E porquê é uma excepção o escritor profissional neste nosso belo país? por que espírito de resignação, gáudio alvar de analfabetos, se costuma repetir alegremente que aqueles que vivem da pena entre nós se contam pelos dedos duma mão? Mas há algum povo dito civilizado onde isto seja assim?! onde isto pareça coisa fatal e natural, e dizê-lo em voz alta constitua um diagnóstico decente para repetir muitas vezes em público?! Então, não teremos precisão, ou não merecemos, técnicos abalizados da escrita?!... Contentamo-nos toda a vida com curiosos, amadores, jornalistas sabujos, e semi-fradescos retóricos da pluma?! Lembremo-nos, para vergonha nossa, que ainda há meia-dúzia de anos não se podia averbar no Bilhete de Identidade a profissão de 𝑒𝑠𝑐𝑟𝑖𝑡𝑜𝑟, no Arquivo de Identificação de Lisboa 𝑛𝑎̃𝑜 𝑎 𝑐𝑜𝑛ℎ𝑒𝑐𝑖𝑎𝑚!... (Ignoro como ali se processa agora legalmente tal qualificação, mas creio ter ouvido dizer que era por meio de uma declaração da Sociedade Portuguesa de Escritores. Ora valha-nos isso!... que já temos uma instituição que toma medidas importantes e vela pelos interesses do escritor... Mas esta é matéria em que me não quero adiantar, porque poderei estar enganado ou iludido. Se já me disseram que a S.P.E. se tratava de um clube de foliões das letras, divididos por mesquinhas querelas e politiquices internas, e passando o tempo em zaragatas e em beberetes de recepção a estrangeiros!... Mas há gente muito má-língua e não podemos dar ouvidos a tudo: o certo ao certo é que não sei o que lá se passa, moro na Província).

( . . . )


Luiz Pacheco, in "O Cachecol do Artista", 1ª ed., Contraponto, 1965, Santarém


 

02/01/2021

 «A atracção exerce-se na ausência de quem se ama», deixou ele pelas paredes.
O que me comoveu, como silêncio.
 

Maria Gabriela Llansol, in "O Texto-Catarina", pág.35, 1ª ed., Sr. Teste Edições, 2020, Lisboa

 

https://www.instagram.com/p/CJbcCSiMFx7/?hl=pt

 

07/05/2018

Tenho pena, ah como eu tenho pena!... dos que precisam de inventar coragem para um novo dia, certezas certezinhas, obediência a religião ou partido ou rotinas, de inventar-se comodidades necessidades ou ilusórias vaidades de levar melhor vidinha (ceguetas todos eles aos limites da humana criatura que é para todos e de repente o coveiro), razões para estar e lutar além destas, tão simples afinal e misteriosas sempre, tão naturais e primitivas: uma rapariga nossa que amamenta o filho, duas crianças que pedem pão e olham para ti.
Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente variada nesta Viagem. Pobre gente: estúpidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos, foliões e parasitas da Vida, parasitas (os mais criminosos, estes) chulos do próprio talento desperdiçando tudo: as horas do relógio deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo tem seu calor e seu exemplo; ou frustrados falhados tentando arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por impotência de criar, lazeira ou cobardia (mas o coveiro nada perdoa). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e muito mal mascarados. Uma caca a respirar.
Ora deixem-me que lhes diga: um cadáver não nunca tem terá razão, mesmo que a tivesse tido antes. Um estúpido um cobardola é para rir e chorar, porque a estupidez e o medo não têm medida. Um patareco, dá-se-lhe um pontapé no cu, um parasita esborracha-se por nojo e a um folião fazemos notar que não lhe achamos graça nenhuma. E fugi dos frustrados e falhados que é a malta mais tratante e castradora que existe. Mas um bebé! uma rapariga com o filho ao colo! os bambinos em volta! são os bichos mais exigentes e precisados de tudo. E há que lhes dar tudo. Eis, Senhores, porque saúdo a manhã e faço gosto em a ver inda uma vez, eis porque a pardalada me incita. E no riso do meu Paulocas uma leve ironia contente me desperta, babada em leite e ternura. Somos puros. Sabemos e cumprimos. Bemaventurados somos e vós, também, SE SABEIS ESTAS COISAS, BEM-AVENTURADOS SEREIS, SE AS PRATICARDES."

Luiz Pacheco, in "Comunidade"




04/05/2018

APRENDER OU NÃO (EXCERTO)

     Por acaso, lembro-me como aprendi essas coisas do «masculino-feminino» com uma criança de oito anos, à volta com a 2.ª classe. Vagabundeávamos os dois pelos cais. Não era nada inesperado haver barcos por ali. Havia muitos. Estava eu a ver que era assim quando o meu companheiro me coloca este embaraço: «Porque é que os barcos, que são masculinos, têm nomes femininos?» Decifrei o nome de alguns barcos: «Maria Rita, «Ana Mafalda», «Nossa Mãe», «Bambolina». Dei uma resposta idiota porque realmente não compreendia aquela desatenção denominadora: «É que os donos dos barcos são parvos.» Ele sorriu, irónico: «Não. É que não são barcos. São barcas.» E, dentro de mim, tudo se reorganizou, e o mundo - com seus barcos (ou barcas) e nomes - recuperou o abalado sentido.

Herberto Helder, in "em minúsculas" 


12/02/2018

"Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio", Nº 2 fevereiro 2018





COORDENAÇÃO

Victor Oliveira Mateus

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CONSELHO EDITORIAL


Ana Cecilia Blum (Equador), António Carlos Cortez (Portugal), Daniel Gonçalves (Portugal), Hugo Pinto Santos (Portugal), José Ángel Garcia Caballero (Espanha), Leonor Castro (Portugal), Maria João Cabrita (Portugal), Maria João Cantinho (Portugal), Marta López Vilar (Espanha), Mbate Pedro (Moçambique), Mirna Queiroz (Brasil), Ricardo Gil Soeiro (Portugal), Risoleta Pinto Pedro (Portugal), Ronaldo Cagiano (Brasil), Stefania Di Leo (Itália), Victor Oliveira Mateus (Portugal).
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COLABORADORES DO PRESENTE NÚMERO
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poesia:
Adalberto Alves, Albano Martins, Alberto Bresciani, Alberto Pereira, Alfredo Pérez Alencart, Álvaro Mata Guillé, Amadeu Liberto Fraga, Ana Cecilia Blum, Ana Luísa Amaral, Ana Maria Puga, Anderson Braga Horta, André Domingues, António José Borges, António José Queirós, António Salvado, Artur Ferreira Coimbra, Cláudia Lucas Chéu, Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Everardo Norões, Gisela Ramos Rosa, Gonçalo Salvado, Henrique Levy, Inês Lourenço, Isabel Mendes Ferreira, Isabel Miguel, João Ricardo Lopes, João Rui de Sousa, José Ángel Garcia Caballero, José do Carmo Francisco, José Eduardo Degrazia, Josep M. Rodríguez, Leonor Castro, Licínia Quitério, Manuel Neto dos Santos, Maria Augusta Silva, Maria do Cebreiro, Maria José Quintela, Maria Toscano, Maurício Vieira, Myriam Jubilot de Carvalho, Pedro Lyra, Pedro Sánchez Sanz, Pompeu Martins, Ricardo Gil Soeiro, Rita Taborda Duarte, Rui Almeida, Sandra Lopes, Stefania Di Leo, Victor Oliveira Mateus.
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ensaio:
André Barata, César Freitas, Hugo Pinto Santos, Jaime García Mafla, José Cândido de Oliveira Martins, Maria João Cabrita, Nuno Brito, Pedro Marques Pinto, Rosa Alice Branco, Victor Oliveira Mateus.
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caderno:
Maria João Cantinho.
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crítica literária:
Hugo Pinto Santos.
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prosa:
António Ladeira, Luísa Venturini, Paulo Pego, Pedro Martins.


09/11/2016

Há séculos que a mesma série de figuras repete os mesmos gestos. Há séculos que a mesma mulher esfarrapada pare e o mesmo cavador revolve a terra. Há séculos que comem o mesmo pão e a mesma usura os leva até à cova. Há séculos que choram as mesmas lágrimas e o monte deita a mesma água. As mulheres trazem os pequenos ao colo e falam-lhes como lhes falaram a elas. O que se gasta, o que a dor e a vida consomem, é a parte externa: as lágrimas renovam-se sempre. As leiras dão sempre o mesmo pão escasso, no monte não se estanca o fio de água, que, como o fio de ternura, reproduz a vida e remoça sempre quatro palmos de erva. A mulher, esta ou outra, chora debruçada sobre a masseira, pare com dor no mesmo catre, morre com dor na mesma enxerga.

Raul Brandão, in "Húmus"

Retrato de Raul Brandão e de sua esposa D. Angelina Brandão, 1928, òleo sobre madeira de Columbano Bordalo Pinheiro 

04/05/2015

(a pedido de alguns amigos leitores, reponho aqui um texto então escrito a quente, agora retocado aqui e ali. permanece apenas um registo, mantém-se o essencial.)

            soube da morte de Herberto Helder por mensagem. o meu telemóvel é agora um instrumento de morte. menti à amiga que ma comunicou e disse que me tinham vindo as lágrimas aos olhos: a verdade é que chorei como um menino, encolhido no assento do autocarro que me levava para uma aula na faculdade. uma falta de respeito pelo poeta, eu sei. talvez uma falta de respeito para com a sua família, também. ainda assim, não soube conter as palavras que desaguavam nos meus olhos. de cada vez que repetia mentalmente “gregos”, “necrológios”, “paixão”, ria e chorava ao mesmo tempo. nessa bendita aula, uma professora-autora falou acerca do poeta a uma turma mais ou menos interessada, mais ou menos conhecedora. fiquei em silêncio a tentar enganar a amiga da mensagem, que também lá estava. a cada comentário ou paragem cerebral de não-leitores, repetia para mim que “a morte é passar, como rompendo uma palavra, / através da porta, / para uma nova palavra”.
            foi uma homenagem conseguida, para quem lá esteve. não desejaria estar noutro sítio. eu estive a meio gás, pensando que, na sua hora, Herberto terá levado “(...) uma flecha / pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado / loucamente / por um caçador de que nada se sabia.” no dia em que o poeta do corpo deixou o seu corpo – ironia terrível – multiplicaram-se as partilhas de poemas e manifestações públicas de amizade. eu não conhecia o poeta cujas mãos eram cítara, por isso me doeu que, como num relâmpago intelectual, tantos iluminassem tão grande obra num só dia; por isso “não posso ouvir cantar tão friamente”. eu não conheci “o” Herberto porque ele quis assim e eu também. a minha relação com o seu corpo poético estará sempre armadilhada: fuga e captura, em loop. de um ponto de vista geracional cheguei atrasado. enquanto leitor, até a morte procurarei aprender. os seus livros foram para mim uma “casinfância” na qual me formei leitor e homem, apalpando, cego, as “líricas rodas da vida”.
            cresci com aquele “leite cantante” que me ensinou que um poema se começa com o objecto mais vulgar – uma bic de tinta preta – e que assim se atinge o sublime, que “subindo pela caneta”, o poema regressa e “Tudo se levanta como um cravo, / uma faca levantada.” Herberto fez de leitores e obra um continuum, uma “devastação inteligente”. hoje, apetece-me dizer-te, Herberto, coisas que poucos entenderão. apetece-me lembrar quando cheguei à “assombrada roseira” que espalhaste no ventre de todas as mulheres e que, ora quente, ora fria, presidiu às relações, às mulheres que a mim se entregaram. ciciar-te que anseio pela roseira derradeira. apetece-me dizer-te que tenho muita vontade de cerrar “(…) os olhos para ouvir durante toda a noite, / e todo o mês, e recomeçando no interior / da minha vida – o sangue.” dizer-te que hoje sou como “Alguém que se deitasse / com um grito / dentro” não basta.
            apontado como ininteligível, respondeste: “Meu deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.” tudo o que se proferir para lá disso, será excrescência. a ti, como a ninguém, pertenciam o underground e o sagrado, o cósmico e o concreto. budista e hedonista, homem-língua do inominável, corpo-vaso do sopro sagrado, correndo “pelo orvalho dentro”. tu, que tantas vezes calçaste luvas de sangue para nos devolveres o terreno e o eterno, de quem não ficará registo “em nenhum écran do Deus descontínuo”, estás agora livre de todas as servidões. és uno e verbo. és, como quiseste, gramatical. não há despedida, sei onde te encontrar. que “funda manhã” aquela, fiquei-me dobra a pedir ar ao corpo. entrei na sala “de dentro para fora”, sorrindo educadamente “até cada objecto se encher de luz”. fraquejei, foi uma fracção. ou foi uma hora? ou foi... não. a professora-autora pressionou o play e eu encolhi-me de novo na cadeira, desta feita com inveja. a tua voz era só para mim. ou não era? lembrei que o dardo se atira “com o corpo todo”, fiz-me alvo. estóico. escutei.
            com o livro Servidões tornou-se evidente estarmos já de fora do poema contínuo: “ele que tinha ouvido absoluto para as músicas sumptuosas do verso livre / ouvia a cada nó de sílaba / um silêncio de morte”. da aflição que isto causou à crítica não falarei. aduzo apenas uma hipótese de leitor: o seu último livro – Poemas Completos – abandona a ideia de continuidade, pelo que leio a obra de Herberto como composta por três poemas. o primeiro aquele contínuo que termina com os inéditos de A Faca Não Corta o Fogo; o segundo Servidões, no qual “matou o poeta contínuo”; o terceiro A Morte Sem Mestre, no qual resolveu a sua biografia enquanto escrevia, a seu modo, um ars moriendi para ajudar, não a si mesmo, mas os seus leitores. não sei se esta dos três agradaria a Herberto; é que todo o tronco precisa de dois braços para viver e morrer. depois da desarrumação levada a cabo por Cesariny, Herberto Helder é o mælstrøm da literatura portuguesa. mesmo aos que não o lêem ainda, a esses “rebenta-lhes a flor na nervura”. doravante, muitos (se não todos) escreverão contra, porque a sua obra é “a frase de que” somos “filho”. daqui a uns dias talvez releia o Húmus, do Raul Brandão. agora vou mergulhar os polegares numa laranja.


20/04/2015

(dia 20 de abril de 2015, Ano do Senhor, pelas 16h47min, conversa escutada no autocarro a caminho da minha "segunda actividade")



fulano: viste as notícias, aquela cena no mediterrâneo?


sicrano: vi, pá. sabes, é uma pena aquilo, mas quem manda os tipos meterem-se naquilo?
fulano: mas eles não têm culpa, eles
sicrano / interrompendo bruscamente / : lá que morram está mal, mas que vinham eles fazer para "cá"?
fulano / agarrando o iphone e entretendo as vistas para não ver a minha cara / : pois é, pá, tens razão, tens razão...
eu / tentando acreditar / : ¿ ____ (...) , _____________ ?
 

 dia 20 de abril de 2015, Ano do Senhor, pelas 16h48min, numa ponte entre porto e gaia (espero que entre mundos também).


© Claúdia Silva

13/02/2015

(nunca é tarde para o que não pode ser mudado)



ϔ


/ 16h10min. saio de casa. dirijo-me à paragem em que apanho o autocarro. três ou quatro paragens adiante, deparo-me com um grupo de homens sorridentes a assaltar um automóvel. dentro do autocarro, iphones, telemóveis, tablets e afins, servem para registar o acto, enquanto os assaltantes acenam em poses cinematográficas. chamar a polícia para quê? /


/ 16h35min, desço do autocarro nos Aliados. encaminho-me para o meu cabeleireiro, quando sou abordado por um tipo da minha idade que me explica que está a viver na rua com a namorada há mais ou menos um mês. entrego-lhe alguns cêntimos por acreditar, por acreditar que se alguém estivesse na rua há mais tempo não me pediria desculpa pela abordagem. com os olhos marejados, e por cortesia – suponho –, pergunta-me em que trabalho. respondo que trabalho numa livraria e que escrevo nas horas vagas (ou ao contrário?). ele pergunta o que escrevo e eu respondo: “poemas, na maioria das vezes.” ele responde-me: “shiiiiii… estás fodido! eu era músico, pá! olha, não deixes a livraria.” despeço-me com um aceno e subo a rua para o cabeleireiro. /


/ depois do senhor que semanalmente apara o bigode, sento-me. confirmo com um lacónico “o costume” e, daí a instantes, acabo surpreendido por um casal de alemães que fotografa o estabelecimento que se conta entre os mais antigos da cidade. suspeito que fico na fotografia, corte a meio, novelos de cabelo aos meus pés. riem-se para mim como se fizesse parte de um anúncio publicitário e afastam-se. mais alguns minutos e, lá fora, uma rapariga deixa o carro descair na fila ao arrancar no trânsito, batendo no carro de trás. levanto-me, visto o blusão, pago e saio. enquanto desço a rua, a discussão escala. /


/ 17h25min, encaminho-me para a paragem, não sem antes passar por uma livraria na qual cumprimento alguns amigos e aproveito para espreitar o Morada, do Rui Pires Cabral. passo ainda num café onde tomo um e ponho a conversa em dia com a rapariga que lá trabalha. dou graças pelo decote nosso de cada dia, pago e saio. /


/ ao cabo de meia hora na paragem, entro no autocarro que me leva de volta a casa. durante a viagem, duas senhoras na casa dos setenta encetam uma discussão por causa de um lugar. a violência verbal faria corar um pós-doutorado em vernáculo. divididos entre a surpresa e o riso, ninguém se atreve a arbitrar. três passos adiante, o autocarro seguia meio vazio. quase em casa creio reconhecer na frente do autocarro um antigo colega de escola, enquanto recordo uma historieta que este confirma ao voltar a cara. /


/ 19h menos uns trocos, aproximo-me do portão de minha casa. sou abordado por um indivíduo que sonda: “o que deseja?” respondo com um seco “boa noite” e acrescento “desculpe, não percebi...” olha-me com desagrado e repete: “perguntei o que deseja daqui. está a entrar numa zona reservada.” olho-o de cima a baixo e respondo: “eu é que lhe pergunto o que deseja. moro aqui desde que nasci e nunca o vi por cá.” depois de esclarecida a situação, fico dividido entre a pouca vontade de dar as boas-vindas ao novo vizinho e o quase irreprimível desejo de o esbofetear por me confundir com um assaltante apenas “por estar todo de negro.” /


/ casa. tomo um banho, janto em família, escuto como foi o seu dia. levanto-me, passo pela casa de banho e olho o cínico no espelho, lançando-lhe um esgar. observo o corte, podia ter ficado melhor… vou para o quarto-escritório, sento-me a ler o tão mal comentado “poema da bilha” do Herberto, incluído no seu mais recente A Morte sem Mestre. fico a saber que o gás de três dias é suficiente para um tipo se suicidar. fico a saber que o poeta pede o gás fiado, ou pedia. a folha da dívida acabou-se, até para o Herberto Helder. /


/ 21h e uns minutos. releio o poema, concentro-me agora na transição feita da bilha de gás para as câmaras de gás. Herberto parece afastar a sua proposta de suicídio ao ponderar, talvez, que seria indigna uma morte por gás, ante as mortes atrozes do Holocausto. arrepio-me, e o quarto até está bem aquecido. na minha cabeça começam a ressoar palavras: “se eu fosse judeu”, “se esta europa fosse nazi”, se e mais se. volto-me para o portátil e desato a escrever, com uma vontade que não vale a pena explicar. uma dor na coluna pede-me cama, mas ainda é muito cedo. ainda é cedo para tanta coisa, afinal. acabo a pensar que o Echevarría devia vencer o Correntes d’Escritas deste ano. está quase a fazer anos e se um livro, com quase 500 páginas e aquela qualidade, não é prova de vigor poético, então não sei o que será. refiro-me ao seu Categorias e outras Paisagens, pois claro. /


/ 23h42min. já dei duas cabeçadas no ar sem deixar cair o Herberto. parece-me um feito. já sonhei que estava na Póvoa e que o júri tinha escolhido mal. sonhei que passeava pela biblioteca de praia e que me deparava com uma ex-namorada que lia um autor que eu abomino. as paixões têm disto: um homem desiludir-se pelo que a namorada lê. meio a dormir desato a repensar porque foi o Herberto para a Porto Editora. e se terá alguma relação com a compra da Assírio por esta. e com a criação das chancelas Sistema Solar e Documenta, por esse vulto que ainda dá pelo nome de Manuel Rosa. /


/ 23h57min. olho para o Herberto, ali do meu lado. sei que nunca escreverei assim, nem devo tão-pouco desejá-lo. o pior que se poderia desejar a um poeta de tal calibre seria um pior que mau seguidor por prémio, depois de recusado o Pessoa. lembro-me que escrevi em tempos um poema em que surgia a figura de um sem-abrigo. como diria o Sartre, nunca um poema salvou alguém. e é por isso que agradeço a gente que se voluntaria para ajudar essa outra gente que é, afinal, a mesma. gente que recolhe meias, cuecas, casacos, o que houver a recolher, para dar a quem não tem. gente bonita por dentro, tão distante de algumas que fui vendo hoje, ao longo deste dia salvo apenas pelo Herberto e por algumas lembranças. porra, que esta noite faz frio. /

amadeu liberto fraga

05/01/2015




(tímpano e pupila)


                                 
                                                                     caminho, a alma aberta como uma ferida,
                                                                                               ao longo da memória, onde se fundem
                                                                                               o tímpano e a pupila.


                                                                                               Luís Miguel Nava



 *

entrei na vida pelos pulmões, dispensando a protocolar palmada e apresentando um suposto grito iniciático. remetendo para aquele choro que nos muda efectivamente, poderei dizer que chorei pela segunda vez quando o meu pai me comunicou o falecimento do meu avô paterno. os meus pulmões tiveram que reaprender a vida: queria, mas não conseguia gritar.

para lá do amor incondicional aos netos, guardo do meu avô a vontade de viver, os jogos de rimas e o som dos seus dedos a percutir na máquina de escrever. a ele devo a aquisição de tanto vocabulário, assim como aquele amor impagável que hoje não se encontra em lugar algum. a minha talvez tenha sido a última geração a ter uma “educação sentimental”, no sentido mais literário da expressão.

aos vinte anos caminhava como quem acredita piamente que vai ao encontro das palavras. saía quase sem destino, na certeza de, ao regressar a casa, ter algo para escrever. e quase sempre isso acontecia. depois rasguei tudo e passei a escrever em cafés. acabei por escolher o storia na passos manuel. havia sempre música que eu nunca ouvira, ao fundo janelas com vista para prédios abandonados, muita juventude a consumir e a falar sobre a música: não acerca, mas acima de. recordo os tempos em que se podia fumar nos cafés: eram tempos melhores, hoje é tudo demasiado asséptico.

uma tarde, anotava umas linhas num bloco vermelho ridiculamente pequeno, e um homem na casa dos cinquenta dirigiu-se a mim: “veja aquilo. uma vergonha, não acha?” olhei na direcção que me apontava e vi duas belas jovens – uma morena e uma ruiva – a beijarem-se. respondi-lhe que uma vergonha era eu não estar no meio delas. vi-o afastar-se com cara de caso, como quem se sente estrangeirado. ri tão alto que elas interromperam a actividade e olharam para mim: voltei cobardemente à caneta no pulso e escrevi-lhes um poema que se perdeu com o bloco – era ridiculamente pequeno, o bloco. 

o beijo, esse, de tão líquido, ficou até hoje nas minhas pupilas aguadas.

 *

nestes dias que escorrem, a custo, por entre um défice que esgota a paciência de um país, mancando por entre uma classe política que pilha até o tutano aos velhos, lembro as muletas do meu avô e o esforço com que saía de casa para ir ver os amigos. da sua amizade nunca sobraram dúvidas. anos depois da sua morte, ao passear na foz, cruzava-me com pessoas que me abordavam para perguntar: “é o neto do liberto? sabe, eu era muito amigo do seu avô!” e havia ali uma honestidade tão limpa que me molhava os olhos e me fazia erguer a cabeça, a mim que andava sempre a olhar para o chão.

porque envelheci, chorei outras vezes. mas não importa referir o choro quando é já um cálculo nos rins da vida. à fase dos cafés seguiu-se a fase da foz: ia até às palmeiras para me sentir pouco digno, lembrava o eugénio e regressava a casa feliz por ser tão pequeno. passava na casa do brandão, batia a foz velha, a corguinha, todas aquelas ruas; depois nevogilde, a pérgula, o molhe. por esta altura andava com um caderno preto A4 que não metia na gabardine, como o Torga, só porque não a tinha. em vez disso, remetia-o para uma sacola à tiracolo que me entortou a coluna. aprendi a meter muita coisa para a sacola, e a coluna sempre a sofrer. um dia estava já tão desalinhado que quis gritar, mas faltou-me a prática. em vez disso, mudei a sacola de ombro e, com os anos, ao entortar a coluna para o outro lado, a coisa acabou por normalizar.

fui desaprendendo a escrita: as regras, os espartilhos, tudo caiu por terra. quanto mais leio, mais desaprendo. um dia pensei que tinha enlouquecido, mas fui salvo por uma menina que, no parque da cidade, me veio oferecer uma flor (talvez um dia me apeteça explicar isto, senão que se foda). a flor secou dentro do clepsidra, a marcar um poema do pessanha e eu fui secando caminhada após caminhada: perdi a minha avó para o alzheimer, perdi o meu padrinho para o cancro, o deus omnipotente de todas as doenças. perdi todas as palavras numa caminhada, uma tarde.

nunca mais fui o mesmo.

 *

quando regressei à escrita, não foi à escrita que voltei. lembrei os dedos do meu avô a bater na máquina e aquele compasso, aquele tempo, devolveu-me uma música pela qual reentro na poesia, quando estou apto. podia falar um pouco do meu padrinho, mas ainda estou verde: só sei que ainda me dói o braço de ter transportado o caixão para o cemitério.

e não quero que deixe de doer.   

o storia, entretanto, mudou de gerência e de nome. à foz, não vou tantas vezes quantas gostaria: o trabalho é sempre uma boa desculpa. caminhar, caminho de quando em vez, mas é com a vista cansada, como quem sabe ao que vai. deixei o amor algures lá atrás, na adolescência, para nunca mais acreditar. às vezes, fodo como escrevo: quando consigo, e cada vez mais torto. não por causa da coluna, por taras perdidas. entendo que, para os antigos, eros e thanatos fossem tão próximos. já não morro de amor, mas respeito muito a petite mort dos nossos amigos franceses, aquela branca insciência que nos mata e recupera para a insanidade dos dias.
temo que as leituras de estética me estejam a tirar o gosto – da escrita, claro. quer dizer, ainda bebo os dias com sofreguidão, mas com ganas de vazio. restam-me os meus actuais poetas, que bebo como um hedge butler de vinte cinco anos: se custa a engolir é porque está no ponto. abstenho-me de nomes, os poetas são retornos da idade. creio que pára por aqui este texto: já fiz o gosto aos agiotas da palavra que me pediam uma prosazinha. não sei como classificar estas linhas, nem vou dormir a pensar nisso. não queria uma mulher para amar, mas uma para caminhar. a idade está a mudar-me, há uns anos jamais escreveria coisa assim. se tanto, diria que queria uma mulher. apenas isso. neste século já tão árido, as pessoas já não sabem caminhar. andam, mas sempre a caminho de algo. e a mim agrada-me tanto não saber para onde vou.
entre o tímpano e a pupila, tenho a alma esquiva a pedir leituras que tardam, as desculpas a acumular-se. mas isto não é como um gajo quer: para escrever, precisarei abrir feridas velhas ou arranjar novas. nelas, como um idiota, espetar palavras como lâminas. o cabral de melo neto entender-me-ia, talvez. 


foto: uma rua algures na Foz do Douro
amadeu liberto fraga