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18/03/2025

Carta de Herberto Helder, provavelmente para o filho do artista plástico Carlos Fernandes, datada de 17.03.1992 (ou um breve "flash" que poderá iluminar um pouco mais certa passagem de certa obra):

 

     Caríssimo Carlos,

    O texto dactilografado que te mando junto não é inédito, mas eu nunca disse que se inspirou numa conversa com o Carlos Fernandes e, sobretudo, na visão quotidiana de um óleo de sua autoria, no meu apartamento da Marginal de Luanda, antigo atelier dele, Carlos. O segundo bloco da prosa, o mais pequeno, fornece uma breve mas suponho que conveniente explicação. Ignoro se este escrito convirá a uma catálogo de exposição que projectes fazer. A mim parece-me que a exposição deveria ser em grande, uma vasta e elucidativa exposição. Também não sei se há neste momento alguma possibilidade de fazê-la. Os trabalhos do Carlos que a Olga e eu temos ficam ao dispor, sob a condição evidente de que nos serão devolvidos logo após a "mostra", como agora se diz. Acho que o Cruzeiro Seixas tem obras do Carlos; aqui vai o seu endereço:

                               Artur do Cruzeiro Seixas

                               Rua da Rosa, 152 - 3º-dto.

                               1200 - Lisboa  

 

                        Um abraço amigo do 

                             Herberto.

23/03/2022



O mês de março vem ver como é e toca em tudo, e as montanhas descem pela tarde íngreme, nos espelhos tu serás daqui em diante todo o meu braço esquerdo, porque eu vou levantar voo com o braço direito na camisa demasiado azul, meu amor a espuma é uma pressa das águas que chegam à alvorada, nascidas num centro nocturno onde os animais estremecem e dormem - nunca mais terei sono, vou despir-te tão lentamente quanto se tece uma estação, e arderá nos meus dedos uma doçura negra, só depois eu saberei como é leve toda essa roupa exaltada, na atmosfera que treme dás um passo com os teus cabelos, e a paisagem ergue-se e respira, com a cor toda na voz procuro o nosso silêncio, como tu és uma criança passa a sombra do vento, e passa porque estás nua uma vertigem de sal, e ouve: o teu país é pimenta, e então é a noite pintada ao fundo e a lua senta-se, meu amor como um cardume livremente branco, e olhar é um modo de crescer em silêncio, respiras elevada até ser teu corpo um grande pensamento, e tudo se cala para termos muitas mãos por onde compreender, o mês de março está no meio e não se move, sentimos apenas os seus pulmões ardentes na matéria delicada que ferve atrás dos séculos.
 
Herberto Helder, in "Vocação Animal", pp. 23-24, 1ª ed. e única, publicações D. Quixote, maio de 1971
 

 

23/11/2021

Duas cartas de Herberto Helder, datadas de 12 e 28 de Março de 1978, em que o autor agradece a intervenção de Eduardo Lourenço junto do Secretário de Estado da Cultura do II Governo Constitucional, António Reis, e fala de uma certa "Cobra" em rápida mutação.

 




daqui: http://www.eduardolourenco.com/textos/correspondencia/03-Herberto-Helder-12-3-1978.html

23/03/2021

 


                                            Fonte
 

                                            I
 

                                            Ela é a fonte. Eu posso saber que é
                                            a grande fonte
                                            em que todos pensaram. Quando no campo
                                            se procurava o trevo, ou em silêncio
                                            se esperava a noite,
                                            ou se ouvia algures na paz da terra
                                            o urdir do tempo
—


                                            cada um pensava na fonte. Era um manar
                                            secreto e pacífico.
                                            Uma coisa milagrosa que acontecia
                                            ocultamente.


                                            Ninguém falava dela, porque
                                            era imensa. Mas todos a sabiam
                                            como a teta. Como o odre.
                                            Algo sorria dentro de nós.

                                            ( . . . )

 

in Revista/antologia/caderno "Búzio", organização de António Aragão, pág. 15, 1ª ed. (e única), 1956, Funchal

 

 

 

Herberto Helder, resposta a inquérito, in Revista "O Tempo e o Modo", 1ª Série, nº 6 - número especial, Junho de 1963

 



 

 


A população faz-me mal. Está toda inclinada para os pequenos enigmas. É dali que recebe a maldita inspiração com que anda pelas ruas, se debruça nas varandas sombrias, se deita para cair na treva sufocante de imagens e imagens sepultadas. Às vezes esta gente ignóbil move-se lá em baixo, mexe as mãos e os pés, nada cegamente naquela água tenebrosa. Talvez procure o seu espelho, o seu cravo, não sabendo de um impulso remoto, insondável desejo de morrer pelo perfume, pela apresentação do rosto.

Herberto Helder, in "Retrato em Movimento", pág. 25, 1ª ed. (e única), Editora Ulisseia, maio de 1967

 


23/12/2020

[ ou um modo de vos endereçar ] Boas Festas!

em 2008, pouco depois do aparecimento de "A Faca Não Corta o Fogo", de Herberto Helder, a Assírio & Alvim divulgava um livro com a obra do escultor autodidacta madeirense Francisco Ferreira. essa obra é uma lapinha (presépio expandido com figuras típicas madeirenses e outras, religioso e profano de mão dada, até uma decapitação nos aparece...), inteiramente feita com madeiras e com pigmentos naturais. a obra tomou tal dimensão e tal fama, que, perante o fluxo de visitantes, se tornou inviável manter a lapinha em sua casa, pelo que mandou construir no seu quintal uma capela para expôr todo o seu trabalho. Francisco Ferreira e Maria Augusta Fernandes, sua esposa, morreram nos anos '30, mas a família foi mantendo a lapinha. nos anos '70 um incêndio destruiu a capela, mas as figuras foram salvas. o livro de que vos falo: "Lapinha do Caseiro", com fotos de Ricardo Jardim, procura reconstituir na medida do possível essa lapinha, disposta em casa de Lourdes Castro num cenário que procurou replicar o original. a obra de um analfabeto (para quem a mulher lia a Bíblia) quase desaparecer num incêndio numa capela, seria já de si motivo para despertar o interesse deste agnóstico. se lhe juntarmos poema(s) do bisneto do escultor, o poeta Herberto Helder, que vai para o ringue com Deus, então perceberão o valor acrescentado e o foco que esta obra permite. abaixo apenas uma foto de uma página, alusiva à época natalícia e parte do(s) poema(s) de HH. a lapinha é muito mais, mas vão à procura... e sim, se não forem crentes, ou mais ainda se o não forem, poderão apreciar a lapinha com olhos de ver. 
 

                                    Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos?
                                    Nem música nem cantaria.                                
                                    Foi-se ver no livro: de um certo ponto de vista de
                                    terror sentido beleza
                                    acontecera sempre o mesmo - quebram-se os selos aparecem                                
                                    os prodígios
                                    (...)
                                    O homem não é uma criatura entre mal e bem: falava-se com Deus
                                    porque Deus era potência, Deus era unidade rítmica.
                                    A mão sobre as coisas com vida sua, com essa mão reunir as coisas,
                                    refazer as coisas - cada coisa tem a sua aura, cada animal tem
                                    a sua aura, como se pastoreiam as auras!
                                    em transe: eu sou a coisa. Acabou.
 

 

08/09/2019

     Aprendi como é devagar – comer devagar, sorrir, dormir devagar, cagar e foder – aprendi devagar.
     Entretanto, se me falarem de rosas não me falem de rosas – falem-me da espinhosa arte de ser rosa, da arte do devagar.

Herberto Helder, in "Vocação Animal", pág. 62, D. Quixote, Lisboa, 1971

06/09/2019

Herberto Helder, registos da PIDE

(1) 1960 - por declarações quando ao serviço das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian;
(2) 1963 - primeira página de um poema destinado à revista "O Tempo e o Modo", cortado pela censura em Março daquele ano;
(3) 1968 - a propósito de "Apresentação do Rosto".


(1)
(2)
(3)

fonte: https://ephemerajpp.com/


04/05/2018

APRENDER OU NÃO (EXCERTO)

     Por acaso, lembro-me como aprendi essas coisas do «masculino-feminino» com uma criança de oito anos, à volta com a 2.ª classe. Vagabundeávamos os dois pelos cais. Não era nada inesperado haver barcos por ali. Havia muitos. Estava eu a ver que era assim quando o meu companheiro me coloca este embaraço: «Porque é que os barcos, que são masculinos, têm nomes femininos?» Decifrei o nome de alguns barcos: «Maria Rita, «Ana Mafalda», «Nossa Mãe», «Bambolina». Dei uma resposta idiota porque realmente não compreendia aquela desatenção denominadora: «É que os donos dos barcos são parvos.» Ele sorriu, irónico: «Não. É que não são barcos. São barcas.» E, dentro de mim, tudo se reorganizou, e o mundo - com seus barcos (ou barcas) e nomes - recuperou o abalado sentido.

Herberto Helder, in "em minúsculas" 


16/01/2018

Herberto Helder, do Catálogo Comprovado: Livros de Artista, de Lourdes Castro e extraído de "Prefácio para um Dicionário de Rimas":





02/12/2017

Levanto à vista o que foi a terra magnífica 
e as estações mais bêbedas, 
e estou tão leve porque não tenho nenhum segredo 
e tão oculto porque daqui a nada já posso dizer tudo,
daqui a uma pouca ciência saberei pensar 
que algum pouco depois estarei morto, 
e só de o pensar já nem respiro, 
já quase em nada toco, 
já só vejo no fundo das mãos daquilo que fica escrito 
que escrevi coisa nenhuma do mundo até ao esquecimento 
e movendo-me com as unhas movo os nomes inúmeros 
para dizer que mal nasci logo me deram por morto,
e não fui tido nem havido na razão do episódio 
de um rosto ter passado por um espelho 
e ter desaparecido,
portanto não me venha ninguém falar de nada, 
sei bastante do que sabem todos, 
vejo a água a mover-se contra si mesma, tão marítima, 
e acho até que é bonito, 
cada qual morre do quanto alcança e não alcança, 
e ninguém compreende, 
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas 
e passa, a água fácil, sem retôrno, 
porque nada tem retôrno e tudo é dificílimo 
(não só o máximo mas também o mínimo)

Herberto Helder, in "Servidões"

(no link abaixo, o poema dito por Fernando Alves, em maio de 2013, numa iniciativa da TSF com o apoio da Assírio & Alvim.)

09/03/2016

"Paradiso, Um Pouco"

(Testemunho de Herberto Helder sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, originalmente publicado na revista Relâmpago nº 9, Out. 2001, republicado na revista-caderno 7faces, ano 5, edição 10, Ago. - Dez. 2010)

clicar nas imagens para melhor leitura




04/05/2015

(a pedido de alguns amigos leitores, reponho aqui um texto então escrito a quente, agora retocado aqui e ali. permanece apenas um registo, mantém-se o essencial.)

            soube da morte de Herberto Helder por mensagem. o meu telemóvel é agora um instrumento de morte. menti à amiga que ma comunicou e disse que me tinham vindo as lágrimas aos olhos: a verdade é que chorei como um menino, encolhido no assento do autocarro que me levava para uma aula na faculdade. uma falta de respeito pelo poeta, eu sei. talvez uma falta de respeito para com a sua família, também. ainda assim, não soube conter as palavras que desaguavam nos meus olhos. de cada vez que repetia mentalmente “gregos”, “necrológios”, “paixão”, ria e chorava ao mesmo tempo. nessa bendita aula, uma professora-autora falou acerca do poeta a uma turma mais ou menos interessada, mais ou menos conhecedora. fiquei em silêncio a tentar enganar a amiga da mensagem, que também lá estava. a cada comentário ou paragem cerebral de não-leitores, repetia para mim que “a morte é passar, como rompendo uma palavra, / através da porta, / para uma nova palavra”.
            foi uma homenagem conseguida, para quem lá esteve. não desejaria estar noutro sítio. eu estive a meio gás, pensando que, na sua hora, Herberto terá levado “(...) uma flecha / pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado / loucamente / por um caçador de que nada se sabia.” no dia em que o poeta do corpo deixou o seu corpo – ironia terrível – multiplicaram-se as partilhas de poemas e manifestações públicas de amizade. eu não conhecia o poeta cujas mãos eram cítara, por isso me doeu que, como num relâmpago intelectual, tantos iluminassem tão grande obra num só dia; por isso “não posso ouvir cantar tão friamente”. eu não conheci “o” Herberto porque ele quis assim e eu também. a minha relação com o seu corpo poético estará sempre armadilhada: fuga e captura, em loop. de um ponto de vista geracional cheguei atrasado. enquanto leitor, até a morte procurarei aprender. os seus livros foram para mim uma “casinfância” na qual me formei leitor e homem, apalpando, cego, as “líricas rodas da vida”.
            cresci com aquele “leite cantante” que me ensinou que um poema se começa com o objecto mais vulgar – uma bic de tinta preta – e que assim se atinge o sublime, que “subindo pela caneta”, o poema regressa e “Tudo se levanta como um cravo, / uma faca levantada.” Herberto fez de leitores e obra um continuum, uma “devastação inteligente”. hoje, apetece-me dizer-te, Herberto, coisas que poucos entenderão. apetece-me lembrar quando cheguei à “assombrada roseira” que espalhaste no ventre de todas as mulheres e que, ora quente, ora fria, presidiu às relações, às mulheres que a mim se entregaram. ciciar-te que anseio pela roseira derradeira. apetece-me dizer-te que tenho muita vontade de cerrar “(…) os olhos para ouvir durante toda a noite, / e todo o mês, e recomeçando no interior / da minha vida – o sangue.” dizer-te que hoje sou como “Alguém que se deitasse / com um grito / dentro” não basta.
            apontado como ininteligível, respondeste: “Meu deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.” tudo o que se proferir para lá disso, será excrescência. a ti, como a ninguém, pertenciam o underground e o sagrado, o cósmico e o concreto. budista e hedonista, homem-língua do inominável, corpo-vaso do sopro sagrado, correndo “pelo orvalho dentro”. tu, que tantas vezes calçaste luvas de sangue para nos devolveres o terreno e o eterno, de quem não ficará registo “em nenhum écran do Deus descontínuo”, estás agora livre de todas as servidões. és uno e verbo. és, como quiseste, gramatical. não há despedida, sei onde te encontrar. que “funda manhã” aquela, fiquei-me dobra a pedir ar ao corpo. entrei na sala “de dentro para fora”, sorrindo educadamente “até cada objecto se encher de luz”. fraquejei, foi uma fracção. ou foi uma hora? ou foi... não. a professora-autora pressionou o play e eu encolhi-me de novo na cadeira, desta feita com inveja. a tua voz era só para mim. ou não era? lembrei que o dardo se atira “com o corpo todo”, fiz-me alvo. estóico. escutei.
            com o livro Servidões tornou-se evidente estarmos já de fora do poema contínuo: “ele que tinha ouvido absoluto para as músicas sumptuosas do verso livre / ouvia a cada nó de sílaba / um silêncio de morte”. da aflição que isto causou à crítica não falarei. aduzo apenas uma hipótese de leitor: o seu último livro – Poemas Completos – abandona a ideia de continuidade, pelo que leio a obra de Herberto como composta por três poemas. o primeiro aquele contínuo que termina com os inéditos de A Faca Não Corta o Fogo; o segundo Servidões, no qual “matou o poeta contínuo”; o terceiro A Morte Sem Mestre, no qual resolveu a sua biografia enquanto escrevia, a seu modo, um ars moriendi para ajudar, não a si mesmo, mas os seus leitores. não sei se esta dos três agradaria a Herberto; é que todo o tronco precisa de dois braços para viver e morrer. depois da desarrumação levada a cabo por Cesariny, Herberto Helder é o mælstrøm da literatura portuguesa. mesmo aos que não o lêem ainda, a esses “rebenta-lhes a flor na nervura”. doravante, muitos (se não todos) escreverão contra, porque a sua obra é “a frase de que” somos “filho”. daqui a uns dias talvez releia o Húmus, do Raul Brandão. agora vou mergulhar os polegares numa laranja.