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11/07/2025

 

Fernando Guimarães (03.02.1928 — 11.07.2025)

 

Poeta único (mesmo único) e incansável, ensaísta extraordinário, professor de/para várias gerações, deixa vasta obra, de qualidade contínua inegável. Sendo certo que já não se fazem homens assim (da sua disponibilidade e da sua gentileza têm sido deixados inúmeros testemunhos nas redes sociais desde o dia de ontem), não menos certo será afirmar que poetas assim não surgem a toda a hora.

Combinava o conhecimento literário, a estética, um certo pensamento especulativo (que tornava tantos dos seus poemas em filosofemas, algo que partilhava com o seu amigo Fernando Echevarría), o amor pelas artes plásticas e pela música, com uma linguagem poética própria onde parecia caberem mundos vários, e de onde, apesar disso, estava ausente Fernando Guimarães.

Feito extraordinário, numa obra iniciada na década de 50 e cujo último título é deste ano. Entre "A Face Junto ao Vento" e "Sobre a Voz", fica um legado poético povoado por intertextualidades, palimpsestos, écfrases (no sentido grego/estrito e no sentido mais lato/moderno de exercício meditativo a partir de), mas também exemplos sem igual de metapoesia, assim como textos habitados por personagens, normalmente, de outros tempos.

Essa alteridade, não raro, manifestava-se, por convocação de figuras femininas, como mostram os poemas sobre a violação de mulheres em tempos de guerra ou uma longa fala de uma mulher idosa, entre tantos outros. Além de poemas a partir de esculturas, telas, música dita erudita, ou de convocação de mitos ou de figuras mais ou menos anónimas mas universais, a poesia de Fernando Guimarães adquiria, em momentos altos, uma forte e rara carga simbólica, provavelmente inigualável no panorama da poesia portuguesa, a partir de palavras-imagens que logo se tornavam centros nevrálgicos ou rizomas/pontos de partida.

Disso são exemplo os poemas em torno do conceito de árvore ou de casa, que em dois ou três versos passavam da definição diccionarizada para expansões metafóricas produtoras de inusitados sentidos múltiplos. Nos últimos livros (entra, estilo tardio), as meditações acerca da morte intensificaram-se, de mão dada com um tom elegíaco que homenageava a sua esposa, Maria de Lourdes Guimarães (falecida em 2021), também autora e tradutora.

Além da produção poética, FG deixa vasta obra ensaística, da qual se destacam estudos sobre o Simbolismo e o Modernismo, mas também sobre a poesia contemporânea ou a ligação entre literatura e artes plásticas, tema que lhe era muito caro e que lhe inundou a obra tanto na vertente poética quanto na recensão/ensaística. Se a sua obra poética foi vigilantemente editada e reeditada/recompilada, como mostram as sucessivas recolhas por entre novos livros (na Modo de Ler, nas Quasi e na Afrontamento), urge reeditar alguma da sua obra ensaística, há muito esgotada.

Disso são exemplo algumas obras de estética editadas in illo tempore pela Presença ou obras sobre o Romantismo e sobre o Modernismo editadas pela Lello nos anos 90, quando a Lello ainda era a Lello... Como se não fosse tudo isto já extraordinário, colaborou ainda com várias revistas e alguns jornais, que me coíbo aqui de listar, e foi ainda tradutor, entre outros, de Shelley, Keats ou Dylan Thomas. Poderia dizer-se que aquele verso de Camões, tão citado e deslocado por tudo e por nada - "Para tão longo amor tão curta a vida" - serve a Fernando Guimarães como a muito poucos.


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03/01/2023

Discurso proferido por Wisława Szymborska, na cerimónia de entrega do prémio Nobel:

Dizem que a primeira frase de qualquer discurso é sempre a mais difícil. Bom, essa já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as que estão para vir – a terceira, a sexta, a décima, e por aí fora, até à última linha – serão igualmente difíceis, dado que é suposto falar de poesia. Disse muito pouco sobre o assunto – quase nada, na verdade. E quando disse algo, tive sempre a suspeição de que não sou muito boa nisso. E é por isso que a minha prelecção será bastante breve. A imperfeição é mais fácil de tolerar em pequenas doses.

Os poetas contemporâneos são cépticos e desconfiados até, ou talvez principalmente, em relação a eles mesmos. Só relutantemente confessam publicamente que são poetas, como se tivessem um pouco de vergonha de o ser. Mas nestes tempos clamorosos é muito mais fácil reconhecer as nossas falhas, pelo menos se agrupadas por atracção, do que reconhecer os nossos méritos, dado que estes estão escondidos mais fundo e não acreditamos neles inteiramente. Quando preenchem questionários ou conversam com estranhos – i.e., quando não podem evitar revelar a sua profissão – os poetas preferem usar o termo genérico “escritor” ou substituir “poeta” pelo nome de outra actividade que desenvolvam para lá da escrita. Burocratas e passageiros de autocarro reagem com alguma incredulidade quando descobrem que estão a lidar com um poeta. Suponho que filósofos se deparem com uma reacção parecida. Apesar disso, estão em posição melhor, dado que frequentemente podem embelezar a sua vocação com algum título académico. Professor de filosofia: isso soa muito mais respeitável.

Mas não há professores de poesia. Isso significaria, afinal, que a poesia é uma ocupação que exige estudo especializado, avaliações frequentes, ensaios com bibliografia e notas de rodapé apensas e, por fim, um diploma atribuído cerimoniosamente. E isto significaria, por outro lado, que não bastaria encher páginas mesmo com os mais extraordinários poemas para alguém se tornar poeta. O elemento crucial seria um pedaço de papel oficialmente timbrado. Recordemos que o orgulho da poesia russa, o futuro poeta laureado Joseph Brodsky, foi em tempos condenado ao exílio interno precisamente com base nestes princípios. Chamaram-lhe “um parasita” por não ter um certificado oficial que lhe garantisse o direito a ser poeta.

Há vários anos, tive o prazer e a honra de conhecer Brodsky. E reparei que, de todos os poetas que conheci, ele foi o único que gostava de se dizer poeta. Ele pronunciava a palavra sem inibições. Bem pelo contrário: ele dizia-a com uma liberdade desafiante. Isto sucedia, parece-me, porque ele se lembrava das humilhações brutais por que passou na sua juventude.

Em países mais afortunados, nos quais a dignidade humana não é agredida tão prontamente, os poetas anseiam, obviamente, ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco ou nada para se destacarem do rebanho e da rotina quotidiana. E, contudo, não foi há tanto tempo assim, foi nas primeiras décadas deste século, que os poetas se esforçavam por nos chocar com indumentárias extravagantes e comportamento excêntrico. Mas tudo isto era meramente para consumo público. Chegava sempre o momento em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si mesmos, despir o manto, os adornos e outras parafernálias poéticas, e enfrentar – silenciosa e pacientemente aguardando o seu próprio ser – a folha de papel ainda branca. Porque no fim de contas é isso o que realmente interessa.

Não é por acaso que são produzidos tantos filmes biográficos acerca de grandes cientistas e artistas. Os realizadores mais ambiciosos tentam reproduzir convincentemente o processo criativo que levou a importantes descobertas científicas ou ao surgimento de uma obra-prima. E pode-se representar certo tipo de trabalho científico com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos vários, maquinaria elaborada a que é dada vida: cenas desse tipo podem captar a atenção do público durante algum tempo. E esses momentos de incerteza – irá o teste, realizado pela milionésima vez com algumas pequenas modificações, finalmente produzir o resultado desejado? – conseguem ser bastante dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espectaculares, desenvolvem-se em torno das várias fases da evolução de um pintor famoso, da primeira linha feita a lápis até à derradeira pincelada. E a música cresce em filmes sobre compositores: as primeiras notações da melodia que soa no ouvido do músico acabam por emergir como um trabalho maduro na forma de uma sinfonia. Claro que isto é tudo muito inocente e não explica o estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos há algo para ver e ouvir.

Mas os poetas são terríveis. O seu trabalho não é nada fotogénico. Alguém que se senta a uma mesa ou se reclina num sofá enquanto, imóvel, fita a parede ou o tecto. De vez em quando essa pessoa anota sete linhas, apenas para riscar uma delas quinze minutos depois, e depois passa mais uma hora durante a qual nada se passa… Quem suportaria observar semelhante coisa?

Eu mencionei a inspiração. Os poetas contemporâneos respondem esquivamente quando lhes perguntam do que se trata, e se existe realmente. Não é que nunca tenham conhecido a benção desse impulso interior. É que não é fácil explicar a outra pessoa aquilo que não se compreende.

Quando, ocasionalmente, me indagam acerca disso, também eu me escudo. Mas a minha resposta é esta: A inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas ou artistas. Há, houve, haverá sempre um determinado grupo de pessoas a quem a inspiração visita. Esse grupo é constituído por aqueles que escolheram conscientemente a sua vocação e fazem o seu trabalho com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros – podia listar centenas de profissões. O seu trabalho torna-se uma aventura contínua enquanto conseguirem descobrir novos desafios no mesmo. Dificuldades e contratempos não fazem esmorecer a sua curiosidade. Um enxame de novas questões emerge de cada problema resolvido. O que quer que seja a inspiração, nasce de um contínuo “Não sei”.

Não há muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para se desenrascar. Trabalham porque têm de o fazer. Não escolheram este ou aquele trabalho por paixão; as circunstâncias das suas vidas escolheram por eles. Trabalho sem amor, aborrecido, valorizado apenas porque outros nem isso têm – eis uma das mais duras misérias humanas. E não há sinal algum de que os séculos vindouros venham a produzir quaisquer mudanças para melhor no que a isto diz respeito. E assim, ainda que negue aos poetas o monopólio da inspiração, coloco-os, apesar de tudo, num grupo selecto de amados pela Fortuna.

Chegados a este ponto, no entanto, poderão surgir algumas dúvidas na assistência. Toda a espécie de torturadores, ditadores, fanáticos, e demagogos sedentos de poder com uns quantos slogans gritantes, apreciam também os seus trabalhos, e levam a cabo os seus deveres com fervor inventivo. Bem, é verdade. Mas eles “sabem”, e o que quer que saibam basta-lhes para todo o sempre. Não querem saber de mais nada, dado que isso poderia diminuir a força das suas discussões. Mas qualquer conhecimento que não leve a novas questões rapidamente se esgota: não consegue manter a temperatura necessária à manutenção da vida. Em casos mais extremos, bem conhecidos da história antiga e moderna, constitui mesmo uma ameaça mortal à sociedade.

Por isso tenho em tão alta conta aquela pequena frase “Não sei”. É pequena, mas voa em asas poderosas. Expande as nossas vidas para que inclua espaços dentro de nós bem como planuras externas nas quais a nossa pequena Terra está suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo “Não sei”, as maçãs do seu pequeno pomar talvez tivessem caído ao chão como granizo e, na melhor das hipóteses, ele ter-se-ia dobrado para agarrar uma e comê-la com deleite. Se a minha compatriota Maria Sklodowska-Curie nunca tivesse dito a si mesma “Não sei”, teria provavelmente acabado a leccionar química numa escola privada para raparigas de boas famílias e acabado os seus dias a desempenhar este trabalho inteiramente respeitável. Mas ela continuou a dizer “Não sei” e essas palavras levaram-na, não uma, mas duas vezes a Estocolmo, onde espíritos incansáveis e inquisitivos são ocasionalmente premiados com o Nobel.

Os poetas, se forem genuínos, devem também continuar a repetir “Não sei”. Cada poema assinala uma tentativa de responder a esta afirmação, mas assim que o ponto final bate na página, o poeta começa a hesitar, começa a perceber que esta resposta específica é pura panaceia, completamente inadequada. E por isso os poetas continuam a tentar, e mais cedo ou mais tarde, os resultados sucessivos da sua insatisfação são agrupados com um clip por historiadores da literatura e designados “obras”.

Por vezes sonho com situações que nunca se poderão tornar realidade. Por exemplo, imagino audaciosamente que tenho uma oportunidade de falar com Eclesiastes, o autor daquele lamento comovedor sobre a vaidade de todas as empresas humanas. Curvo-me pronunciadamente diante dele, porque ele é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois agarro a sua mão. “Não há nada de novo debaixo do sol”: foi o que escreveste, Eclesiastes. Mas tu mesmo nasceste novo debaixo do sol. E o poema que criaste também ele é novo debaixo do sol, uma vez que ninguém o escreveu antes de ti. E todos os teus leitores são também novos debaixo do sol, uma vez que aqueles que viveram antes de ti não poderiam ter lido o teu poema. E esse cipreste sob o qual estás sentado não cresceu desde o princípio do tempo. Veio a ser através de outro cipreste semelhante ao teu, mas não exactamente igual.

E, Eclesiastes, gostava também de te perguntar em que nova coisa debaixo do sol tencionas trabalhar agora? Um acrescento a pensamentos que já expressaste? Ou talvez estejas tentado a contradizer alguns agora? No teu trabalho inicial mencionaste a alegria – que importa que seja fugaz? Talvez o teu poema novo debaixo do sol seja acerca da alegria? Já tomaste notas, tens esboços? Duvido que digas: “Já escrevi tudo, nada mais tenho a acrescentar”. Nenhum poeta no mundo pode dizê-lo, muito menos um grande poeta como tu.

O mundo – independentemente do que possamos pensar quando ficamos aterrorizados pela sua vastidão e pela nossa impotência ou quando estamos amargurados com a sua indiferença para com o sofrimento individual de pessoas, animais, e talvez até plantas (porque estamos nós tão certos de que as plantas não sentem dor?); o que quer que possamos pensar das suas planuras perscrutadas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos, ainda mortos, simplesmente não sabemos; o que quer que possamos pensar acerca deste teatro imensurável para o qual temos bilhetes reservados, mas cuja duração é risivelmente curta, unida como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos mais sobre este mundo – ele é espantoso.

Mas “espantoso” é um epíteto que esconde uma falácia. Ficámos espantados, apesar de tudo, por coisas que se desviam de algumas normas bem conhecidas e reconhecidas universalmente, de uma evidência a que nos acostumamos. Mas a questão é que não existe tal mundo óbvio. O nosso espanto existe per se, não é baseado numa comparação com outra coisa.

É certo que, no discurso coloquial, no qual não paramos para pensar em cada palavra, todos usamos frases como “o mundo normal”, “a vida normal”, “o normal decorrer dos acontecimentos”. Mas na linguagem da poesia, em que cada palavra é pesada, nada é habitual ou normal. Nem uma só pedra nem uma só nuvem sobre esta. Nem um só dia nem uma só noite depois. E acima de tudo, nem uma única existência, nem a existência de ninguém neste mundo.

Parece que os poetas terão sempre o seu trabalho a correr de feição.

 

WISŁAWA SZYMBORSKA

7 de Dezembro de 1996

Estocolmo

 

versão de amadeu liberto fraga a partir do texto fixado no livro "Poems New and Collected", Harvest Book/Harcourt (edição americana que segue inteiramente a da faber & faber), com tradução de Stanisław Barańczak e Clare Cavanagh.  

 

 

 

20/07/2022

 
            Dignitas Hominis
 
            Hoje devemos falar de um tópico que o pensamento
            do nosso século em recusa tanto
            amplamente revisitou: dignitas
            hominis, indignitas hominis, guerra
            mundial de nossos pais crianças.
            Mas evitar Malraux, e resistir
            a Marcel e Du Noüy. Convém sempre
            tematizar a dignidade humana, sob pena
            de se cair no abismo da poesia impura
            mente pura ou mera arte
            de joalharia verbal. Da indignidade
            humana também é dever falar, por cénica função
            de contraste e pedagogia. Dignificar
            a poesia, narrativa humana. E é de esquecer
            aquele Nietzsche para quem o humano
            pode tornar-se assim demasiado humano.
            Falemos de um tópico que o pensamento etc.
 
            Luís Adriano Carlos, in "Livro de Receitas", pág. 27, 1ª ed., Campo das Letras, Porto, 2000
 

 

15/07/2022

            O nível e o espaço, o firmamento
            desaguando em nós, que somos água,
            tão repentino vício de morrer,
            acesso de cratera e interstício.
            O nível da visão, o cruzamento
            invariável de sossego e dor,
            oh cristalina superfície, rasa
            inspiração de espaço, vício de água
            em místicas passagens. Repentinas
            figuras que um axioma delimita.
 
            Luís (F.) Adriano Carlos, in "Invenção do Problema", pág. 33, 1ª ed., Moraes Editores, Lisboa, 1986
 

 

23/03/2022



O mês de março vem ver como é e toca em tudo, e as montanhas descem pela tarde íngreme, nos espelhos tu serás daqui em diante todo o meu braço esquerdo, porque eu vou levantar voo com o braço direito na camisa demasiado azul, meu amor a espuma é uma pressa das águas que chegam à alvorada, nascidas num centro nocturno onde os animais estremecem e dormem - nunca mais terei sono, vou despir-te tão lentamente quanto se tece uma estação, e arderá nos meus dedos uma doçura negra, só depois eu saberei como é leve toda essa roupa exaltada, na atmosfera que treme dás um passo com os teus cabelos, e a paisagem ergue-se e respira, com a cor toda na voz procuro o nosso silêncio, como tu és uma criança passa a sombra do vento, e passa porque estás nua uma vertigem de sal, e ouve: o teu país é pimenta, e então é a noite pintada ao fundo e a lua senta-se, meu amor como um cardume livremente branco, e olhar é um modo de crescer em silêncio, respiras elevada até ser teu corpo um grande pensamento, e tudo se cala para termos muitas mãos por onde compreender, o mês de março está no meio e não se move, sentimos apenas os seus pulmões ardentes na matéria delicada que ferve atrás dos séculos.
 
Herberto Helder, in "Vocação Animal", pp. 23-24, 1ª ed. e única, publicações D. Quixote, maio de 1971
 

 

16/03/2022





CONFRONTS

Dans le juste milieu de la roche et du sable de l’eau et
du feu des cris et du silence universels
Parfait comme l’or
Le spectacle de ciment de la Beauté clouée
Chantage

Dehors
La terre s’ouvre
L’homme est tué
L’air se referme

Les notions de l’indépendance sucrent au goût des
oppresseurs le sang des opprimés
Les fainéants crépitent avec les flammes du bûcher
C’est la transmutation des richesses harmonieuses
Le langage des porteurs de scapulaire : «Au crépuscule
À l’heure où les poissons viennent en troupeau
Respirer à la surface de la mer
Invariablement
La main à cinq hameçons
La main divine
Cueille le fruit du sel»

Hypothétique lecteur
Mon confident désœuvré
Qui a partagé ma panique
Quand la bêche s’est refusée à mordre le lin
Puisse un mirage d’abreuvoirs sur l’atlas des déserts
Aggraver ton désir de prendre congé
Les vivants parlent aux morts de médecine salvatrice
de tireur de hasard à la roue de la raison
Les armées solides sont liquides après la chimie des oiseaux
Les yeux les moins avides embrassent à la fois le panorama et les ressources de l’île
Plante souple dans un sol rude

Mais voici le progrès

Les mondes en transformation appartiennent aux poètes carnassiers,
Les distractions meurtrières aux rêveurs qui les imaginent
À l’esprit de fonder le pessimisme en dormant
Au temps de la jeunesse du corps
Pour voir grandir
La chair flexible et douce
Au-dessus des couleurs
À travers les cristaux des consciences inflexibles
Au chevet de la violence dilapidée
Dans l’animation de l’amour
Lorsqu’elle passera devant le soleil
Peut-être le dernier simple incarnera la lumière.

René Char, "Le Marteau sains maître / Poèmes Militants", in pág. 38-39, Œ𝘶𝘷𝘳𝘦𝘴 𝐶𝑜𝑚𝑝𝑙è𝑡𝑒𝑠, 1988 (reimpressão), Gallimard, França

 


 

12/03/2022

                de Arseny Tarkovsky, um poema do 'Caderno de Chistopol'

                Outrora, uma casa erguia-se aqui. No seu interior, um velho
                vivia com uma criança. E agora a casa não existe.

                Uma bomba de cem quilogramas – a terra, mais escura que breu.
                Uma casa, agora nada. É isso a guerra; o que pode ser feito?

                Sobre um monte de trapos cinzentos, um samovar cintila.
                Um aparador, perto de um cavalo. Por cima do cavalo, vapor.

                Ao longo da parede desabada, algumas urtigas crescerão.
                Os desgraçados fantasmas da guerra terão, aqui mesmo, casa

                para sempre. Sem eles, quem gemeria à noite,
                quem se contorceria e assobiaria em fornos frios?
 

                1942


versão minha, a partir de "I Burned at the Feast" (trad. Philip Metres & Dimitri Psurtsev), pág. 37, Cleveland State University Poetry Center, 2015


 

18/11/2021



                    Fresco / III

                    Na trémula inteligência da besta adestrada
                    O barulho de uma trombeta como uma vareta
                    O barulho da sala mais ampla do tesouro
                    E o barulho do sol sempre para o dia seguinte
                    O barulho inteiro e só
                    Como uma criança gloriosa atirada aos leões
                    Uma criança nua de barriga pura e purificadora
                    Atirada às mandíbulas das nuvens
                    Ao focinho celeste dos leões
                    Na trémula inteligência da besta adestrada

                    Na trémula inteligênca do seu dono
                    Vacila o vazio
                    E este fio de estrelas nas profundezas dos ramos
                    Algures aos vinte anos o abismo da Primavera
                    No seio da virgem as armas dos vinte anos
                    O fugaz granizo num rosa e branco riso
                    E a noite imperiosa após uma grande noite sábia
                    Juventude o sangue colhe os lilases da tempestade
                    Como um sapo a chama do charco
                    Na trémula inteligência do bom dono

                    Será para ti para mim que penso o amor
                    Meu semelhante teus olhos são fontes de luz
                    Rendilhas-te apanhas sol
                    A tua cabeça tem a forma das copas
                    Vens de longe até mim pois eu sou a terra
                    Onde farás reinar a tua frescura o teu calor
                    A terra onde a besta confiará em nós
                    Pelo amor à vida
                    Para a mais justa visão do mundo
                    Nessa terra livre onde nos compreendemos.

Paul Éluard, A cama a mesa (trad. Luís Lima, desenhos de Inês Viegas Oliveira), pp. 29-30, 1ª ed., Barco Bêbado, 2021, Lisboa

 


 

11/10/2021

                            Lamento negado

                            Emoções e labaredas em desafogo.
                            Uma intensidade que prefere
                            a medida que entoa um fio de sentido
                            a que se funde um delírio.
                            Nodoado no mergulho, o autómato
                            uma perícia belicosa na fisionomia.
                            O pathos a rendição súbita.
 
                            Conciso tweed radia na salina,
                            remate que introduz a grisalha,
                            benefício que um burlão aplaude
                            e pactua no saque e no afundamento.
                            Interrogam nele um cadáver,
                            um simulacro do inverosímil,
                            um abuso de narração iníqua.
 
                            Placidez e sequência blindam-se
                            em tónicas e breves ao atalho de um ritmo.
                            A fadiga da peripécia, uma finalidade em si.
                            Segrega maçada, massaja a sintaxe a contrapelo.
                            Contumaz e hermética, configura a severa
                            dicção que lhe derrete o quebranto.
                            Pilho catálogos e no seu inanimado
                            organizo (jugo e contração) a poesia.
 
                            Joaquim Manuel Magalhães, 𝑖𝑛 "Canoagem", pág. 19, 1ª ed., Relógio d'Água, 2021, Lx
 

 

07/07/2021


Alguns poemas em prosa (c. 1956) do livro "Hermes, Cão, Estrela", de Zbigniew Herbert:

 
Episódio numa biblioteca
 
    Uma jovem loura está debruçada sobre um poema. Com um lápis afiado como uma lança transfere palavras para uma folha branca e traduz linhas, acentuações, cesuras. O lamento do poeta esquecido parece agora uma salamandra carcomida por formigas.
    Quando o carregamos sob fogo, acreditei que o seu corpo ainda quente seria pela palavra ressuscitado. Agora vejo palavras a morrer, sei que não há limite para o declínio. O que permanecerá depois de nós serão fragmentos de palavras dispersos na terra negra. Sinais de acentuação sobre o nada e a cinza.
 
 
Louca

    O seu olhar fulminante rapidamente me agarra como um abraço. Ela pronuncia palavras misturadas com sonhos. Ela chama-me. Serás feliz se acreditares e prenderes o teu camião a uma estrela. Ela é gentil quando amamenta as nuvens; mas quando a calma a abandona, ela corre pela beira-mar e agita os braços no ar.
    Reflectidos nos seus olhos vejo dois anjos expectantes nos meus ombros: o pálido e malévolo anjo da Ironia, e o poderoso, adorado anjo da Esquizofrenia.
 
 
O paraíso dos teólogos

    Vielas, vielas longas ladeadas por árvores que são cuidadosamente podadas como num parque inglês. Ás vezes um anjo passa por lá. O seu cabelo cuidadosamente encaracolado, as suas asas restolham em Latim. Ele segura nas suas mãos um instrumento limpo chamado silogismo. Ele caminha rapidamente sem agitar o ar ou a areia. Passa em silêncio pelos símbolos das virtudes em pedra, as qualidades puras, as ideias dos objectos e muitas outras coisas completamente inimagináveis. Nunca desaparece da vista porque ali não há perspectivas. Orquestras e coros mantêm-se silenciosos contudo a música está presente. O lugar está vazio. Os teólogos falam espaçadamente. Também isto é suposto ser evidência.


Os mortos

   Em consequência de estarem confinados na escuridão e do alojamento não arejado os seus rostos modificaram-se radicalmente. Adorariam falar mas a areia devorou-lhes os lábios. Só ocasionalmente agarram o ar com os seus punhos e tentam desastradamente erguer as cabeças como crianças. Nada os pode animar, nem crisântemos nem tão-pouco velas. Não conseguem reconciliar-se com a sua condição, a condição de coisas.


Inferno
 
    Contando a partir do topo: uma chaminé, antenas, um telhado de estanho deformado. Através de uma janela redonda vê-se uma jovem presa a linhas que a lua se esqueceu de encurtar e abandonada à mercê de coscuvilheiros e aranhas. Mais abaixo uma mulher lê uma carta, arrefece a face com pó de arroz, e continua a ler. No primeiro andar um jovem caminha para trás e para a frente pensando: Como posso ir lá fora com estes lábios mordidos e sapatos a desfazerem-se? O café no piso de baixo está vazio; ainda é de manhã. 
    Apenas um casal a um canto. Estão de mãos dadas. Ele diz: "Ficaremos juntos para sempre. Empregado, um café simples e uma limonada, por favor." O empregado vai para trás da cortina e uma vez lá, desata a rir.


Sete anjos
 
    Todas as manhãs aparecem sete anjos. Entram sem bater à porta. Um deles arranca-me o coração do peito. Leva-o à boca. Os outros fazem o mesmo. Depois as suas asas definham e os seus rostos passam de prateados a purpúreos. Saem batendo pesadamente os seus tamancos. Deixam o meu coração numa cadeira como uma pequena malga vazia. Leva um dia inteiro a enchê-lo de novo para que na manhã seguinte os anjos não me deixem prateado e alado.  
 
 
O lobo e o cordeiro

    — Apanhei-te — disse o lobo e bocejou. O cordeiro voltou os seus olhos lacrimejantes para o lobo. — Tens de comer-me? É mesmo necessário?
    — Lamentavelmente, tenho. É o que acontece em todos os contos de fada: Era uma vez um cordeirinho atrevido que se extraviou da mãe. No bosque encontrou um grande lobo mau que. . .
    — Desculpa, mas isto não é um bosque, apenas o jardim do meu dono. Eu não me extraviei da minha mãe. Sou órfão. A minha mãe também foi comida por um lobo. 
    — Não te preocupes. Depois de morreres os autores de literatura edificante tomarão conta de ti. Disporão o cenário, os motivos, e a moral. Não sejas duro comigo. Não fazes ideia do quão vazio é ser um lobo mau. Se não fosse Esopo estaríamos aqui sentados nas nossas patas traseiras a ver o pôr-do-sol. Isso dá-me imenso gozo. 
    Sim, queridas crianças. O lobo comeu o pequeno cordeiro, depois lambeu os seus lábios. Não ouçam o lobo, queridas crianças. Não vos sacrifiqueis por uma moral.   
 
 
O vento e a rosa
 
    Certa vez cresceu num jardim uma rosa. O vento apaixonou-se por ela. Eram completamente diferentes, ele — leve e justo —; ela — imóvel e pesada como sangue.
    Veio um homem com tamancos de madeira e com as suas mãos grossas arrancou a rosa. O vento saltou atrás dele, mas o homem fechou a porta na sua cara.
    — Oh, pudera eu tornar-me pedra — lamentou o infeliz — fui capaz de dar a volta ao mundo, fui capaz de me afastar por anos a fio, mas sabia que ela estaria sempre à espera.
    O vento percebeu que, para sofrer verdadeiramente, é preciso ter fé.
 
 
Galinha
 
    A galinha é o melhor exemplo do que viver constantemente com humanos acarreta. Ela perdeu completamente a leveza e a graciosidade de uma ave. A sua cauda aponta para cima sobre a sua alcatra protuberante como um chapéu demasiado grande e de mau gosto. Os seus raros momentos de êxtase, quando ela se sustem numa pata e fixa os seus olhos com pestanas membranosas são assombrosamente repugnantes. Acrescente-se a tudo isto aquela paródia de canção, súplicas de cana rachada sobre uma coisa indescritivelmente cómica: um ovo — branco, arredondado, maculado. 
    A galinha faz lembrar certos poetas.
 
 
Zbigniew Herbert, versões livres minhas (amadeu liberto fraga), a partir de "The Collected Poems: 1956-1998" (trad. Alisse Valles), Ecco/Harper Collins, 2008
 

 

 

23/03/2021

 


                                            Fonte
 

                                            I
 

                                            Ela é a fonte. Eu posso saber que é
                                            a grande fonte
                                            em que todos pensaram. Quando no campo
                                            se procurava o trevo, ou em silêncio
                                            se esperava a noite,
                                            ou se ouvia algures na paz da terra
                                            o urdir do tempo
—


                                            cada um pensava na fonte. Era um manar
                                            secreto e pacífico.
                                            Uma coisa milagrosa que acontecia
                                            ocultamente.


                                            Ninguém falava dela, porque
                                            era imensa. Mas todos a sabiam
                                            como a teta. Como o odre.
                                            Algo sorria dentro de nós.

                                            ( . . . )

 

in Revista/antologia/caderno "Búzio", organização de António Aragão, pág. 15, 1ª ed. (e única), 1956, Funchal