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11/07/2025

 

Fernando Guimarães (03.02.1928 — 11.07.2025)

 

Poeta único (mesmo único) e incansável, ensaísta extraordinário, professor de/para várias gerações, deixa vasta obra, de qualidade contínua inegável. Sendo certo que já não se fazem homens assim (da sua disponibilidade e da sua gentileza têm sido deixados inúmeros testemunhos nas redes sociais desde o dia de ontem), não menos certo será afirmar que poetas assim não surgem a toda a hora.

Combinava o conhecimento literário, a estética, um certo pensamento especulativo (que tornava tantos dos seus poemas em filosofemas, algo que partilhava com o seu amigo Fernando Echevarría), o amor pelas artes plásticas e pela música, com uma linguagem poética própria onde parecia caberem mundos vários, e de onde, apesar disso, estava ausente Fernando Guimarães.

Feito extraordinário, numa obra iniciada na década de 50 e cujo último título é deste ano. Entre "A Face Junto ao Vento" e "Sobre a Voz", fica um legado poético povoado por intertextualidades, palimpsestos, écfrases (no sentido grego/estrito e no sentido mais lato/moderno de exercício meditativo a partir de), mas também exemplos sem igual de metapoesia, assim como textos habitados por personagens, normalmente, de outros tempos.

Essa alteridade, não raro, manifestava-se, por convocação de figuras femininas, como mostram os poemas sobre a violação de mulheres em tempos de guerra ou uma longa fala de uma mulher idosa, entre tantos outros. Além de poemas a partir de esculturas, telas, música dita erudita, ou de convocação de mitos ou de figuras mais ou menos anónimas mas universais, a poesia de Fernando Guimarães adquiria, em momentos altos, uma forte e rara carga simbólica, provavelmente inigualável no panorama da poesia portuguesa, a partir de palavras-imagens que logo se tornavam centros nevrálgicos ou rizomas/pontos de partida.

Disso são exemplo os poemas em torno do conceito de árvore ou de casa, que em dois ou três versos passavam da definição diccionarizada para expansões metafóricas produtoras de inusitados sentidos múltiplos. Nos últimos livros (entra, estilo tardio), as meditações acerca da morte intensificaram-se, de mão dada com um tom elegíaco que homenageava a sua esposa, Maria de Lourdes Guimarães (falecida em 2021), também autora e tradutora.

Além da produção poética, FG deixa vasta obra ensaística, da qual se destacam estudos sobre o Simbolismo e o Modernismo, mas também sobre a poesia contemporânea ou a ligação entre literatura e artes plásticas, tema que lhe era muito caro e que lhe inundou a obra tanto na vertente poética quanto na recensão/ensaística. Se a sua obra poética foi vigilantemente editada e reeditada/recompilada, como mostram as sucessivas recolhas por entre novos livros (na Modo de Ler, nas Quasi e na Afrontamento), urge reeditar alguma da sua obra ensaística, há muito esgotada.

Disso são exemplo algumas obras de estética editadas in illo tempore pela Presença ou obras sobre o Romantismo e sobre o Modernismo editadas pela Lello nos anos 90, quando a Lello ainda era a Lello... Como se não fosse tudo isto já extraordinário, colaborou ainda com várias revistas e alguns jornais, que me coíbo aqui de listar, e foi ainda tradutor, entre outros, de Shelley, Keats ou Dylan Thomas. Poderia dizer-se que aquele verso de Camões, tão citado e deslocado por tudo e por nada - "Para tão longo amor tão curta a vida" - serve a Fernando Guimarães como a muito poucos.


alf

 

 
 


 

22/05/2022


A situação pós-comunista

Uma observação conclusiva sobre a "situação espiritual do tempo" deve evidenciar a perspectiva estratégica característica das exposições seguintes - antigamente, teríamos falado do seu engajamento. Elas colocam-se num debate que movimenta a esfera pública intelectual do Ocidente desde os anos 1990. Para dizer resumidamente, o que está em questão aqui é a interpretação moral e psicopolítica da situação pós-comunista.

A entrada em cena dessa situação apanhou de maneira completamente desprevenida a grande maioria dos contemporâneos de 1990 no seu pensamento político. Por quase toda a parte, os intérpretes políticos do tempo do pós-guerra satisfizeram-se em comentar a situação do mundo, criada pela vitória dos aliados sobre a ditadura nacional-socialista, com os conceitos tradicionais da sua disciplina. Em ampla frente, as pessoas declararam-se partidárias da democracia e da economia de mercado, deixando aos antigos camaradas a parca satisfação de tirar do armário, de tempos a tempos, as suas condecorações antifascistas. Durante essa longa belle époque (assombrada por ameaças nucleares) predominou a opinião de que, com a "eliminação" dos excessos totalitários da Europa, teria sido preenchido o programa do diagnóstico do tempo - de resto, precisaríamos de considerar como é que a civilização liberal, sob o efeito concomitante de correctivos social-democratas, se ateve com os seus meios às requisições históricas por um mundo melhor. Quase ninguém possuía os meios teóricos e os impulsos morais que tornassem possível pensar para além das relações da era bipolar. A implosão do hemisfério ligado ao socialismo real não promoveu apenas o encolhimento e a redução das suas próprias ideologias e aparatos à insignificância. Pelo contrário, também colocou mais ainda o capitalismo "plenamente vitorioso" diante do impasse de precisar de assumir praticamente sozinho a responsabilidade pelo mundo. Não se pode afirmar que os pensadores ocidentais tenham sido provocados por essa situação a encontrar respostas extraordinariamente criativas.

Peter Sloterdijk, in "Ira e Tempo", pág. 52-53, Estação Liberdade, 2012, São Paulo

[sidenote: existe edição em português europeu, com a chancela da Relógio d'Água, mas a escolha da palavra 'cólera' em vez de 'ira' parece-me tão incompreensível que me impede de usufruir dessa tradução. o livro parte da primeira palavra da Ilíada: ira e não cólera, e que é repetidamente revisitada ao longo do livro associada a vários conceitos...]
 

 

26/03/2022

 

La terreur n’est pas une caractéristique facultative des États totalitaires, elle fait partie de leur fondement même. C’est pourquoi il est vain de vouloir étudier ces États, comme l’ont fait diverses écoles «révisionnistes», sans en tenir compte, comme s’il s’agissait de sociétés animées par les conflits et les tensions classiques. On l’a bien vu en 1989: dès que la terreur a été suspendue (la police et l’armée n’avaient pas reçu l’ordre de tirer sur les manifestants), les États totalitaires communistes se sont écroulés comme un château de cartes.

 

Au-delà des frontières, la terreur retrouve le visage plus familier de la guerre (ou, en position de repli, de la guerre froide); les pactes sont forcément provisoires. Le but est toujours la domination; les moyens sont adaptés aux circonstances du moment. En fin de compte, la violence reçoit, dans le cadre totalitaire, une légitimation multiple. Elle est d’abord la loi de vie et de survie; mais elle convient, en outre, à celui qui possède la vérité scientifique: à quoi bon s’embarrasser de discussions quand on sait où il faut aller et ce qu’il faut faire?


La division de l’humanité en deux parties mutuellement exclusives est essentielle pour les doctrines totalitaires. Il n’y a pas de place ici pour les positions neutres; toute personne tiède est un adversaire, tout adversaire un ennemi. Réduisant la différence à l’opposition et cherchant ensuite à éliminer ceux qui l’incarnent, le totalitarisme nie radicalement l’altérité, c’est-à-dire l’existence d’un tu à la fois comparable au je, voire interchangeable avec lui, et qui pourtant reste irréductiblement distinct de lui. On tient là une définition de la pensée totalitaire, laquelle est beaucoup plus répandue que les États totalitaires: c’est celle qui ne laisse aucune place légitime à l’altérité et à la pluralité.

 

Son emblème pourrait être cette perle de Simone de Beauvoir, qu’on ne se lassera pas de citer : «La vérité est une, l’erreur est multiple. Ce n’est pas un hasard si la droite professe le pluralisme.» On ne dira pas pour autant, imitant son esprit, que la gauche est nécessairement totalitaire; c’est plutôt que, dans la pensée qu’illustre cette phrase, les principes de la guerre se trouvent étendus à la vie civile; l’ennemi de l’intérieur ne mérite pas moins la mort que celui du dehors. En ce sens, le totalitarisme est hostile à l’universalisme qui cultive, au contraire, l’idéal de paix.


Tzvetan Todorov, in "Mémoire du Mal, Tentation du Bien", pp. 35-36, Robert Laffont, 2000

 


 

23/02/2022


We have the “technocratic” vision of Europe as another efficient actor in global capitalism, we have the liberal vision of Europe as the pre-eminent space of human rights and freedoms, and we have the conservative vision of Europe as a union of strong national identities. How to orient ourselves in this mess? It is all too easy to distinguish between the different aspects of Europe, the good and the bad, adopting a stance wherein we reject the Europe which gave birth to modern colonialism, racism, and slavery, but we support the Europe of human rights and multicultural openness. Such a solution recalls an American politician from the era of prohibition who, when asked where he stands on drinking wine, replies: “If you mean by wine the drink which makes an evening with friends so wonderful, I am all for it, but if you mean by wine the horror which induces family violence and makes people jobless and degenerate, I am totally opposed to it!” Yes, Europe is a complex notion full of inner tensions, but we have to make a clear and simple decision: can “Europe” still serve as what Jacques Lacan called a Master-Signifier, as one of the names that symbolizes what the struggle for emancipation stands for?


My thesis is that it is precisely now, when Europe is in decline and the attacks on its legacy are at their strongest, that one should decide for Europe. The predominant target of these attacks is not Europe’s racist or conservative legacies, but the emancipatory potential that is unique to Europe: secular modernity, Enlightenment, human rights and freedoms, social solidarity and justice, feminism. . . The reason we should stick with the name “Europe” is not only because good features prevail over bad; the main reason is that the European legacy itself provides the best critical instruments with which to analyze what went wrong in Europe. Are those who oppose “Eurocentrism” aware that the very terms they use in their critique are part of European legacy?

 

Obviously, the most visible threat to this emancipatory potential comes from within, from the new Right populism which aims at destroying the European emancipatory legacy. The Right’s Europe is a Europe of nation-states bent on preserving their particular identity. When Steve Bannon visited France a couple of years ago, he made a speech which finished with the words: “God bless America and Vive la France!, Vive la France, viva Italia, long live Germany. . . but not Europe. We should be attentive to how this vision of Europe implies a totally different mapping of our political space.


In his Notes Towards the Definition of Culture, the great conservative T. S. Eliot remarked that there are moments when the only choice is the one between sectarianism and non-belief, when the only way to keep religion alive is to perform a sectarian split from its main corpse. This is our only choice today: only by means of a “sectarian split” from the standard liberal-democratic version of the European legacy, only by cutting ourselves off from the decaying corpse of the old Europe, can we keep the European legacy alive. To act on a global scale that is not focused on Europe—for instance in helping India and others with vaccines, mobilizing internationally against global warming, and organizing global health care—is the only way to be a true European today.


Slavoj Žižek, "A European Manifesto", in Heaven in Disorder, pág. 173-75, OR Books, Dez. 2021

 


 

06/02/2022

Lecture Two: “A Social and Psychic Revolution of Almost Inconceivable Magnitude”: Countercultural Bohemia as Prefiguration
 
Bentham famously proclaimed that mankind is at the mercy of two sovereign masters: pleasure and pain. Human beings will pursue pleasure and avoid pain. It seems obvious! But Freud discovers that this apparent truism just doesn’t hold up, actually. Much of the time, we will pursue things which seem, on the face of it, painful. There is, in a way, a second-order level of enjoyment, which is the enjoyment of things which, on the first-order level, seem to be painful. And yet, part of the problem that Freud had with his patients was this attachment to a second-order level of enjoyment. Because if it’s simply a matter of people being in pain, and that pain was straightforwardly undesirable, then you could fairly easily wean them off the pain, but if there’s some second kind of satisfaction to be derived from things which were superficially painful, then it’s much more problematic, and other attachments are formed. This is what stood in his way and one of the key things that he finds.  
 
So, then there is this problem of “repetition compulsion”, which is central to Beyond the Pleasure Principle of 1921. It’s commonly known that Beyond the Pleasure Principle, like Civilisation and its Discontents, was substantially informed by the experience of World War One. Because one of the things that Freud was puzzled by was shellshock, from the First World War. Shellshock, which is a phenomenon whereby people would repeat the trauma of a shell going off near them. So, if a book fell from a shelf, they would immediately be thrown back into the situation of a shell having exploded close to them.
 
We kind of take this for granted now. Freud asked the naive question:Why? Why do people do this? Because if an organism was simply motivated by staving off panic and moving towards pleasure, then what compels it to repeat these extremely unpleasurable things? Part of the answer for Freud is some kind of mastery over the trauma. The repetition enables the organism to claim the trauma for itself, in a way. And he discusses this with the so-called “fort–da” game… He plays this game [with his grandson], to do with the absence of his mother, who is spending more and more time apart from him, he plays this game which involved, I think, some sort of small object that you throw away and it’s here, it’s gone, it’s there, it’s gone, it’s here, it’s gone… And so, instead of simply avoiding the pain of the absence of his mother, he turned it into a game of which he could have some sort of mastery, and which tells him some sort of narrative in the process. 
 

This compulsion to repeat, then, becomes crucial. But beneath that there is then this more metaphysical problem that emerges for Freud from the very basic drives of human beings. And this is where he starts to posit the so-called “death drive”, which is highly complicated… We’ll broach it though.
 
Partly, it’s complicated because Freud himself is not fully sure what he thinks it is. You can see it in almost diametrically opposed ways, in some respects. The first way to see it, then, would be simply as a destructive or aggressive drive, which is simultaneously also the drive towards self destruction. And Freud starts to posit this as an independent drive from erotic drives, the drives for pleasure. But, hold on a minute … You see, what he also starts to think is, well, is this really opposed to the pleasure principle or another form of the pleasure principle? Because what the death drive ultimately seems to be aiming towards, at least in one of its versions, is acquiescence, peace, ultimate calm — the release from desire itself. This is the so-called “nirvana principle”… We can see it as if the organism is like an elastic band that is being pulled. It’s in a state of tension. And there is this innate impulse towards the release of that tension, just in the tension itself. If I keep pulling the elastic band, something doesn’t pull it back — it pulls itself.
 
This is one way that Freud starts to think of the death drive. The death drive has to be pivoted in its aim, and this is how Marcuse essentially discusses it — the erotic drives are there to impede the goal of the death drive towards acquiescence. The organism finds its own way to death — that’s the line that he takes. 
 
There’s another way of thinking about the death drive. A lot of Lacanians take this view of the death drive. People like Žižek. The deathdrive doesn’t aim at death; it doesn’t aim towards a final state of acquiescence. It aims at, rather… I don’t want to say an indifference to death.
 
One of Žižek’s examples is The Red Shoes. (. . . )
It’s where a ballerina puts on a pair of enchanted dancing shoes and they basically dance her to death. She’s initially in a state of ecstasy but, eventually, she can’t keep dancing at that sort of frenzied pitch, and so she dies.
 
The point is not that she was taken over by something which aimed at killing her. It’s that she happened to die because the drive made her indifferent to death; indifferent to organic death. This is a drive that was stronger than the desire to avoid death.
 
So, there are these two almost diametrically opposed senses of the death drive here, but what they have in common is this antipathy towards the idea of a utilitarian-style disposition of our desires. So, there’s all this to contend with. And this leads Freud, then, into his most pessimistic theses, which are expressed most powerfully in Civilisation and its Discontents, which haunts this chapter of Marcuse’s Eros and Civilisation.
 
Mark Fisher, in "Post Capitalist Desire. The Final Lectures, edited by Matt Colquhoun
 

 

14/01/2021

já está online a nova Revista Oresteia (http://revistaoresteia.com/) -, dedicada à divulgação de literatura, filosofia, ciências sociais e artes. lá encontrarão muitos e bons textos inéditos de autores vários. também lá está um texto meu, uma espécie de ensaio sobre 2020 e as muitas dúvidas que me trouxe, que escrevi a convite dos organizadores. fica a sugestão, ao vosso critério. 

 👇

https://revistaoresteia.com/2021/01/12/um-ensaio-fil-social-politica/

 

 


01/12/2020

𝑼𝒎𝒂 𝒏𝒐𝒗𝒂 𝒆 𝒓𝒂𝒅𝒊𝒄𝒂𝒍 𝒍𝒆𝒊𝒕𝒖𝒓𝒂
 
      Claro que no mais fundo de nós desejaríamos que esta versão idílica da colonização e a não menos utópica da descolonização fraterna correspondessem à realidade. Que, sobretudo, não fossem uma demão (a última?) na imagem açucarada e sinistramente opressiva que os portugueses construíam de si mesmos e da sua História ao longo dos séculos. Acontece apenas que a mentira sobre nós mesmos nos corrompe a substância e nos rouba a verdadeira vida. Não temos depois do 25 de abril desculpa alguma para nos mentirmos por conta de uma imagem idólatra, beata, de nós mesmos e menos a temos para continuar a alimentá-la à custa de mitos imperiais historicamente defuntos. E tanto menos a temos quanto a simples e crua verdade do nosso destino de nação — compreendendo nele a colonização — não exige de nós ocultações urgentes nem penitência eternas. Como também não as exige a descolonização e as suas mais que surpreendentes (embora previsíveis) consequências. O que tudo está pedindo é, com urgentíssima necessidade, uma nova e radical leitura, precisamente a que se tornou imperativa para que a Revolução de Abril não seja apenas uma perturbação acidental do nosso viver sonâmbulo, mas a irrupção daquele espaço de liberdade mental e moral que nos permite olhar-nos sem complacência nem pânico, espelho da nossa vera realidade.
 
      Alguma coisa se modificou depois do 25 de Abril, mas, atentando bem, a essência da nossa antiga mitologia cultural continua intacta. A nova liberdade superficial do mero discurso político e ideológico vela-nos o mais importante, a vigência imperturbável do silêncio, da não-fala cultural sobre aquelas realidades-tabus que estruturavam a opacidade do Antigo Regime. Há uma nova arrumação dessas opacidades, uma aparente liberdade ou disponibilidade em relação a elas, mas sem eficácia nem poder de repensamento como o exigiria a dinâmica da ruptura se ela fosse o que poderia ter sido e não foi. Nem a opacidade-Igreja, nem a opacidade-PC, nem a opacidade-Forças Armadas, nem, a bem dizer, a pseudotransparência democrática oficial criada pelo 25 de Abril, foram deslocadas dos seus espaços míticos para a luz de uma consideração frontal não necessariamente iconoclasta, do seu estatuto, da sua função, do seu projecto no seio de uma sociedade que se diz democrática e livre. Terminou sem dúvida o silêncio maiúsculo da nossa antiga cultura, mas para dar lugar a um pluralismo de silêncios de algum modo tão perniciosos como o anterior. Escusado será dizer que o silêncio relativo às últimas peripécias da nossa aventura imperial e do seu fim resume e coroa todos os outros. Nesse campo é o vazio integral, a sufocação íntima por ausência.
 
Eduardo Lourenço, in "Do Colonialismo Como Nosso Impensado", pp. 264-66, 1ª ed., Gradiva Publicações, Lisboa, 2014

28/11/2020


     De um modo geral, pode-se dizer que a história contemporânea está cada vez mais dominada pelo aumento de reivindicações de singularidade subjectiva - querelas linguísticas, reivindicações autonomistas, questões nacionalísticas, nacionais que, numa ambiguidade total, exprimem por um lado uma reivindicação de tipo libertação nacional, mas que, por outro lado, se encarnam no que eu denominaria reterritorializações conservadoras da subjectividade. Deve-se admitir que uma certa representação universalista da subjectividade, tal como pode ser encarnada pelo colonialismo capitalístico do Oeste e do Leste, faliu, sem que ainda se possa plenamente medir a amplitude das consequências de um tal fracasso. Actualmente vê-se que a escalada do integrismo nos países árabes e muçulmanos pode ter consequências incalculáveis não apenas sobre as relações internacionais, mas sobre a economia subjectiva de centenas de milhões de indivíduos. E toda a problemática do desamparo, mas também da escalada de reivindicações do Terceiro Mundo, dos países do Sul, que se acha assim marcada por um ponto de interrogação angustiante.
 
Félix Guattari, in "Caosmose. Um novo paradigma estético" (trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão) pág. 13, Editora 34, SP, 2006 [1992]

26/11/2020

     We should follow Immanuel Kant here who wrote with regard to the laws of the state: “Obey, but think, maintain the freedom of thought!” Today we need more than ever what Kant called the “public use of reason.” It is clear that epidemics will return, combined with other ecological threats, from droughts to locusts, so hard decisions are to be made now. This is the point that those who claim this is just another epidemic with a relatively small number of dead don’t get: yes, it is just an epidemic, but now we see that warnings about such epidemics in the past were fully justified, and that there is no end to them. We can of course adopt a resigned “wise” attitude of “worse things happened, think about the medieval plagues...” But the very need for this comparison tells a lot. The panic we are experiencing bears witness to the fact that there is some kind of ethical progress occurring, even if it is sometimes hypocritical: we are no longer ready to accept plagues as our fate.
      This is where my notion of “Communism” comes in, not as an obscure dream but simply as a name for what is already going on (or at least perceived by many as a necessity), measures which are already being considered and even partially enforced. It’s not a vision of a bright future but more one of ”disaster Communism” as an antidote to disaster capitalism. Not only should the state assume a much more active role, organizing the production of urgently needed things like masks, test kits and respirators, sequestering hotels and other resorts, guaranteeing the minimum of survival of all new unemployed, and so on, doing all of this by abandoning market mechanisms. Just think about the millions, like those in the tourist industry, whose jobs will, for some time at least, be lost and meaningless. Their fate cannot be left to mere market mechanisms or oneoff stimuluses. And let’s not forget that refugees are still trying to enter Europe. It’s hard to grasp their level of despair if a territory under lockdown in an epidemics is still an attractive destination for them?
      Two further things are clear. The institutional health system will have to rely on the help of local communities for taking care of the weak and old. And, at the opposite end of the scale, some kind of effective international cooperation will have to be organized to produce and share resources. If states simply isolate, wars will explode. These sorts of developments are what I’m referring to when I talk about “communism,” and I see no alternative to it except new barbarism. How far will it develop? I can’t say, I just know that the need for it is urgently felt all around, and, as we have seen, it is being enacted by politicians like Boris Johnson, certainly no Communist.
      The lines that separate us from barbarism are drawn more and more clearly. One of the signs of civilization today is the growing perception that continuing the various wars that circle the globe as totally crazy and meaningless. So too the understanding that intolerance of other races and cultures, or of sexual minorities, pales into insignificance compared with the scale of the crisis we face. This is also why, although wartime measures are needed, I find problematic the use of the term “war” for our struggle against the virus: the virus is not an enemy with plans and strategies to destroy us, it is just a stupid self-replicating mechanism.
      This is what those who deplore our obsession with survival miss. Alenka Zupančič recently reread Maurice Blanchot’s text from the Cold War era about the scare of nuclear self-destruction of humanity. Blanchot shows how our desperate wish to survive does not imply the stance of “forget about changes, let’s just keep safe the existing state of things, let’s save our bare lives.” In fact the opposite is true: it is through our effort to save humanity from self-destruction that we are creating a new humanity. It is only through this mortal threat that we can envision a unified humanity.

 
Slavoj Žižek, in "Pandemic, Covid shakes the world", pág.102-05, NY, OR Books, 2020

18/11/2020

 ( . . .)

      Porque o poema é a expressão física, na língua, do impulso poético. A língua, com a qual e, simultaneamente, contra a qual, o "material psíquico" originário do poema procura e encontra uma forma, e onde essa forma finalmente se consuma transformando-o e identificando-o, constituiria, pois, o laço entre a solidão do poeta e a solidão do leitor. Mesmo quando a função da escrita literária fosse, não a de exprimir mas a de dispor, ela seria também, por força justamente da sua presença na língua e na história, uma leitura da história (maxime da história da própria literatura). E talvez até nos extremos casos em que, buscando a salvação pelo silêncio, a escrita assuma face a essa história, como em Mallarmé, uma rarefacção formal e uma natureza assassina (o termo é de Blanchot) da fala social onde a leitura se funda, ela esteja condenada, porque é de uma condenação que se trata, a fazê-lo dentro da língua e da literatura e a tornar-se, assim, inevitavelmente, num problema de linguagem.
      A língua, como diz Barthes, está aquém da literatura, é um "habitat" familiar, um horizonte que o escritor partilha com o leitor. Nela, enquanto corpo comum, a leitura assume-se então, naturalmente, como uma espécie particular de manifestação da obra literária. 
 
Manuel António Pina, "Ler e Escrever", in "Águas Furtadas, nº3", pág. 10, Ano III, Abril de 2001, Organização Literária de Rui Lage, Edições JUP

17/11/2019

     A ideia de que o que está mais próximo de nós no tempo é necessariamente mais interessante, e de que, por próximo, o compreendemos muito melhor é, em princípio, inteiramente falsa. Ninguém compreende do passado ou do presente senão aquilo que está preparado para compreender. E, a menos que tomemos por conhecimento uma massa de informações não-digeridas e que, em grande parte, podem ser irrelevantes, não sabemos necessariamente do presente mais e melhor do que de muito passado. O homem que se confinar apaixonadamente ao «presente», voltando as costas a um passado que lhe parece morto e sem relação com o seu próprio tempo, é aquele que mais apto está a sucumbir a todas as falácias que o passado legou ao seu presente. Em contrapartida, o interesse pelo passado não pode ser a tentativa absurda de nos transpormos para ele, nem a utilização demagógica dele.

Jorge de Sena, excerto inicial de Sobre o Perspectivismo Histórico-Literário, in "Dialécticas da Literatura", edições 70, pág. 179, Lisboa, 1973

14/10/2019

Harold Bloom ( 11.07.1930 – 14.10.2019 )

Quando dizemos que o significado de um poema pode apenas ser outro poema, podemos com isso querer dizer uma classe de poemas:

O poema ou poemas do precursor.
O poema que escrevemos como leitura nossa.
Um poema rival, filho ou neto do mesmo precursor.
Um poema nunca escrito – isto é –
o poema que deveria ter sido escrito pelo poeta em questão.
Um poema compósito feito de uma combinação
dos anteriores.

Um poema é a melancolia de um poema em relação à sua ausência de prioridade. O fracasso em se ter gerado a si próprio não é a causa do poema, visto que os poemas emergem da ilusão da liberdade, da possibilidade de um sentimento de prioridade. Mas o poema – ao contrário do espírito em criação – é uma coisa feita, e enquanto tal é uma angústia conseguida.

in "A Angústia da Influência" (trad. Miguel Tamen), 3ª ed. revista e aumentada, pp. 159-60, Lisboa, Cotovia, 2017

26/01/2019

La fascination de l’absence de temps

      Ecrire, c’est se livrer à la fascination de l’absence de temps. Nous approchons sans doute ici de l’essence de la solitude. L’absence de temps n’est pas un mode purement négatif. C’est le temps où rien ne commence, où l’initiative n’est pas possible, où, avant l’affirmation, il y a déjà le retour de l’affirmation. Plutôt qu’un mode purement négatif, c’est au contraire un temps sans négation, sans décision, quand ici est aussi bien nulle part, que chaque chose se retire en son image et que le «Je» que nous sommes se reconnaît en s’abîmant dans la neutralité d’un «Il» sans figure. Le temps de l’absence de temps est sans présent, sans présence. Ce «sans présent» ne renvoie cependant pas à un passé. Autrefois a eu la dignité, la force agissante de maintenant; de cette force agissante, le souvenir témoigne encore, lui qui me libère de ce qui autrement me rappellerait, m’en libère en me donnant le moyen de l’appeler librement, d’en disposer selon mon intention présente, le souvenir est la liberté du passé. Mais ce qui est sans présent n’accepte pas non plus le présent d’un souvenir. Le souvenir dit de l’événement: cela a été une fois, et maintenant jamais plus. De ce qui est sans présent, de ce qui n’est même pas là comme ayant été, le caractère irrémédiable dit: cela n’a jamais eu lieu, jamais une première fois, et pourtant cela recommence, à nouveau, à nouveau, infiniment. C’est sans fin, sans commencement. C’est sans avenir.

Maurice Blanchot, in "L'Espace Littéraire"

© Mme. C. Blanchot

21/04/2018

QUARTZO, FELDSPATO, I MICA

699
Miríades de pequeníssimos espelhos
espalham e espelham
milímetro a milímetro
as
mil e mil
luzes
da
manhã fria

#
A fonte fria
na manhã clara
é de qualquer modo
o foco de luz
que te chega aos olhos.

Manuel Gusmão, in "A Foz em Delta"



12/02/2018

"Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio", Nº 2 fevereiro 2018





COORDENAÇÃO

Victor Oliveira Mateus

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CONSELHO EDITORIAL


Ana Cecilia Blum (Equador), António Carlos Cortez (Portugal), Daniel Gonçalves (Portugal), Hugo Pinto Santos (Portugal), José Ángel Garcia Caballero (Espanha), Leonor Castro (Portugal), Maria João Cabrita (Portugal), Maria João Cantinho (Portugal), Marta López Vilar (Espanha), Mbate Pedro (Moçambique), Mirna Queiroz (Brasil), Ricardo Gil Soeiro (Portugal), Risoleta Pinto Pedro (Portugal), Ronaldo Cagiano (Brasil), Stefania Di Leo (Itália), Victor Oliveira Mateus (Portugal).
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COLABORADORES DO PRESENTE NÚMERO
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poesia:
Adalberto Alves, Albano Martins, Alberto Bresciani, Alberto Pereira, Alfredo Pérez Alencart, Álvaro Mata Guillé, Amadeu Liberto Fraga, Ana Cecilia Blum, Ana Luísa Amaral, Ana Maria Puga, Anderson Braga Horta, André Domingues, António José Borges, António José Queirós, António Salvado, Artur Ferreira Coimbra, Cláudia Lucas Chéu, Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Everardo Norões, Gisela Ramos Rosa, Gonçalo Salvado, Henrique Levy, Inês Lourenço, Isabel Mendes Ferreira, Isabel Miguel, João Ricardo Lopes, João Rui de Sousa, José Ángel Garcia Caballero, José do Carmo Francisco, José Eduardo Degrazia, Josep M. Rodríguez, Leonor Castro, Licínia Quitério, Manuel Neto dos Santos, Maria Augusta Silva, Maria do Cebreiro, Maria José Quintela, Maria Toscano, Maurício Vieira, Myriam Jubilot de Carvalho, Pedro Lyra, Pedro Sánchez Sanz, Pompeu Martins, Ricardo Gil Soeiro, Rita Taborda Duarte, Rui Almeida, Sandra Lopes, Stefania Di Leo, Victor Oliveira Mateus.
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ensaio:
André Barata, César Freitas, Hugo Pinto Santos, Jaime García Mafla, José Cândido de Oliveira Martins, Maria João Cabrita, Nuno Brito, Pedro Marques Pinto, Rosa Alice Branco, Victor Oliveira Mateus.
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caderno:
Maria João Cantinho.
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crítica literária:
Hugo Pinto Santos.
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prosa:
António Ladeira, Luísa Venturini, Paulo Pego, Pedro Martins.


04/09/2017

O Texto da filosofia e a experiência literária

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A palavra texto tem vindo a ser a metáfora (espacial e têxtil) e o conceito que designa um artefacto verbal (e transverbal), um objecto transaccional ou comunicacional; um espaço, uma rede, ou uma tessitura onde o sentido se pluraliza; a partitura de uma polifonia; um acontecimento ou o «lugar» e os «tempos» de um encontro de horizontes.


Manuel Gusmão, in "Uma Razão Dialógica"

fotografia retirada do blog da extinta Angelus Novus

10/08/2017




- LEMBRANDO RUI KNOPFLI - 

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Na raiz do que hoje pode considerar-se uma poesia moçambicana, está uma geração de que se podem destacar nomes como Noémia de Sousa, José Craveirinha, Fonseca Amaral e Rui Knopfli, entre tantos outros que nos anos ’40 e ’50 do século XX deram corpo às sementes que haviam sido lançadas à terra por Rui de Noronha, Caetano de Campos ou Augusto Conrado.

No ano de 1951, Orlando Albuquerque e Vítor Evaristo foram os responsáveis pela antologia Poesia em Moçambique, uma separata da revista Mensagem, da Casa dos Estudantes do Império. Ao pioneirismo deste trabalho seguiu-se, em 1960, a antologia Poetas de Moçambique, prefaciada por Alfredo Margarido e organizada por Luís Polanah também para a Casa dos Estudantes do Império. Corridos dois anos, Alfredo Margarido organizava e prefaciava – uma vez mais com a chancela da incansável CEI – uma terceira recolha, intitulada novamente Poetas de Moçambique.

Em 1994 foram reunidas num só livro as três antologias prévias, pela Associação da Casa dos Estudantes do Império. Esta espécie de cancioneiro acabou por balizar o modo como se perspectivava a denominada poesia moçambicana. As iniciativas editoriais da CEI marcaram uma época, reivindicando a nacionalidade daquela literatura que mal acabava de ser parida. Simultaneamente, as páginas literárias dos jornais e os suplementos culturais foram emprestando espessura àquela poesia, numa tradição que se manteve mesmo no pós-Independência.


Na última década do século XX, contudo, período de retoma económica do país, a literatura desapareceria das páginas dos jornais e seus suplementos. Curiosíssima lição esta, se a memória histórica nos diz que 

Foi no tempo em que dominava o monolitismo político que Moçambique conheceu uma fecunda expressão na sua cultura. A cultura de resistência – este é o lastro mais importante da cultura moçambicana – parece-nos ser aquela que mais inventiva colhe porque indaga, põe questões, desassossega (1).

O debate que a literatura moçambicana gerou no seu curso, com a polémica da moçambicanidade sempre a pairar, obriga a destacar, de entre separatas, suplementos e outros, a Itinerário (anos ’40), a folha de poesia Msaho (1952), o suplemento de O Brado Africano (1955-57), a revista de cultura e arte Paralelo 20 (1957-61), o suplemento do jornal Notícias (1958-59) – Moçambique 58, o suplemento Artes e Letras, do jornal A Voz de Moçambique, o Despertar, suplemento do Notícias e a revista de poesia Caliban (1970-72). Todas estas publicações contribuíram para erigir o edifício da literatura moçambicana. No que à narrativa diz respeito, esta teve um incremento considerável no período após a Independência. Já no campo da poesia, antes mesmo de ’75, o panorama moçambicano comportava um pluralismo de que se viria a destacar dois nomes de maior expressão: José Craveirinha e Rui Knopfli.

As gerações posteriores puderam, assim, usufruir da tradição de que ambos foram traves-mestras. O primeiro, 


pela sua força telúrica, sobretudo por traduzir na sua poesia o devir moçambicano, haurindo, de forma excepcionalmente esplendorosa, o ser e o modo moçambicanos. Knopfli emprestou-nos a modernidade, o ecletismo e o complexo entendimento de que os dogmas identitários não podem nem devem explicar facilmente a moçambicanidade (2).

Com efeito, apenas pesando a tradição de toda uma poesia se podem citar, a contrapelo, nomes tão díspares como Rui de Noronha, Orlando Mendes, Reinaldo Ferreira, Noémia de Sousa, Alberto de Lacerda, Rui Nogar, Glória de Sant’Anna, Sebastião Alba, Grabato Dias, Eduardo White ou Luís Carlos Patraquim. Estes como tantos outros, que me abstenho de aduzir, no entretecimento de uma poesia assente nas experiências geracionais, foram deixando o seu particular.


Os primeiros anos da Independência ficaram marcados pela denominada poesia de combate. Esta literatura, de profundo valor histórico, constitui testemunho da construção de uma nação e abriu, certamente, as portas para o que teria lugar na década de ’80: apoiadas pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco, surgirão aquelas vozes que, na colecção Autores Moçambicanos, se começarão a distanciar da antecessora geração literária (sem, por isso, se despirem de algum espírito interventivo). Luís Carlos Patraquim, Sebastião Alba ou mesmo Jorge Viegas são alguns dos nomes que começaram a afastar-se do combativo Nós, em direcção a uma poesia vincada pelo lirismo intimista, na qual o Eu subjectivista toma meandros despidos de qualquer aproximação colectivista.

Some-se a este facto, o nascimento, em 1982, da AEMO – Associação dos Escritores Moçambicanos, que irá divulgar novos autores. As revistas literárias Charrua e Forja albergaram muitos dos autores da AEMO, além da Gazeta de Artes e Letras, da Revista Tempo, que divulgou poetas e ficcionistas da nova vaga. A não desprezar, o papel relevante de suplementos como o Diálogo, do Diário de Moçambique, ou Literatura e Artes, do Notícias.

No ano de 1985, Manuel Ferreira edita o terceiro volume das suas antologias dedicadas a África, No Reino de Caliban, sobre Moçambique. Em 1988, na cidade da Beira, comemorando os dez anos da página Diálogo, os mentores desta (Heliodoro Baptista, Julio Bicá, Simeão Cachamba, entre outros) editaram uma antologia do percurso do suplemento, à qual chamaram As Palavras Amadurecem. Em 1993, em Moçambique, surgiria a Antologia da Nova Poesia Moçambicana, organizada por Fátima Mendonça e Nelson Saúte. Esboçado que fica, em traços rápidos, o caminho nem sempre fácil desta literatura “jovem”, forjada 


Entre a necessidade de reivindicação da moçambicanidade e do espaço para a gestação de uma Nação – Noémia e Craveirinha são os nomes mais emblemáticos – e a afirmação de uma pluralidade que se distancia dos propósitos imediatamente ideológicos ou contestatórios da ordem então estabelecida – Knopfli – a poesia moçambicana intenta hoje uma singular viagem de descoberta (3). 

O intimismo parece dominar a actual poesia moçambicana, talvez na tentativa de sarar uma ferida que teima em abrir ainda nas páginas do complexo quotidiano de Moçambique. Mais do que interpretar, esta poesia reinterpreta e exorciza, elevando-se do mundano para um registo que transfigura metalinguisticamente o real colhido, “porque é na palavra que muitas vezes está, / perdido ou escondido, / o outro homem que no poeta reside” (4).


Ingrata tarefa a da crítica, que, ao longo de décadas, tentou aproximar a obra de Rui Knopfli daquilo que consideravam ser uma nova poesia. Ancorada em axiomas que predominaram na década de ’50, como lidaria a crítica com aquela poesia híbrida, a um tempo lírica e eclética, barroca e depurada, sincera e cáustica, moçambicana e europeia? Nascido a 10 de Agosto de 1932, em Inhambane, e educado na então Lourenço Marques, este homem singularizou-se na poesia moçambicana, bem antes de Eduardo White nos mostrar a sua voz (a meu ver, nem sempre tão bem conseguida). Ainda hoje parecem existir largos equívocos quanto à obra knopfliana, “subsistindo uma vaga e subliminal resistência na adesão cabal a uma obra que se não sabe como situar dentro dos discursos poéticos vigentes na língua portuguesa” (5).



Desde a primeira hora, Knopfli apresentou-se rigoroso à escala clássica, sem nunca deixar o temperamento lírico resvalar em excessos discursivos. Prova disso será o poema “Despedida” (6), incluído em O País dos Outros (1959). A estilização de uma Renuntiatio Amoris, que remonta a Ovídio e nos chegou pela pena de Camões, é aqui exercício de uma depuração extrema, que nos faz recordar “Adeus” (1950), de Eugénio de Andrade (7). Perante a antecipação da despedida, Eugénio diz-nos: “Já gastamos as palavras pela rua, meu amor, / e o que nos ficou não chega / para afastar o frio de quatro paredes”, enquanto Knopfli nos anuncia: “Tudo entre nós foi dito”, como se nem espaço houvesse já para nomear, no outro, a palavra “amor”. E o frio que nada consegue afastar, aparecerá em Knopfli exteriorizado num Outono 



                                                  decisivo de folhas secas
                                                  e bancos abandonados de cimento frio
                                                  onde não cantam aves
                                                  e o vento desce em brandos rodopios.


que se adivinha fora de época, como o presente impossível de cumprir. E a saudade, instalada precocemente no presente vivido, permite a Eugénio lembrar que “Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro”, enquanto em Knopfli o abandono é previsto na sua irreversibilidade desde o primeiro verso, restando


                                                 Apenas uma vaga angústia presente,
                                                 uma saudade sem recomeços,
                                                 a lembrança tépida a gelar como
                                                 veios de mármore.


Ora, é esse mesmo mármore que parece aproximar Luís de Sousa Rebelo (8) à filosofia de matriz grega que aflora nos versos de Ricardo Reis, em “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”. O silêncio que os amantes de Reis preenchem ao dar as mãos, advém, em Knopfli, das próprias palavras que “entre nós (…) colocam um mundo / de silêncio e vazio estéril” e que, de modo um tanto ataráxico, deixam os amantes “cansados e tristes”, olhando o “apodrecer do parque, / o vento, o crepitar leve das folhas”, até lhes restar apenas dizer adeus, porque, e bem o sabia Eugénio, em momentos de ruptura, “o passado é inútil como um trapo”.



O retomar de certos temas foi, para Knopfli, um meio de pôr em prática a descontrução de discursos instituídos, por vezes munido de uma ironia insuspeita, o que sucede, entre outros, no caso do poema “Terra de Manuel Bandeira”, também do seu primeiro livro. Misturando o quotidiano com uma elevação às vezes cosmosófica, somos confrontados com reflexões que não estariam na competência de outros poetas. Veja-se, por exemplo, como nos propõe um roteiro pela Ilha de Próspero (1972), e, depois de nos surpreender com lendas da ilha e a ausência celebrada de monumentos, somos confrontados com a “Mesquita Grande” (9). A ilha é, afinal, um “raso Olimpo argamassado em febre / e coral” em que 

                                                 o Deus maior sou eu. Por mais
                                                 que as pedras, os muros e as palavras afirmem
                                                 outra coisa, por mais que me abram o corpo
                                                 em forma de cruz.


marcando, sem margem para alternativas, uma concepção de civilidade muito prévia à de Próspero. Ficamos perante um daqueles raros momentos em que a voz de Knopfli se despe da sua individualidade, para univocamente proclamar na voz de um Caliban – a voz, afinal, de todos os nativos daquela ilha – que a conquista foi uma falácia:


                                                  Pórticos, frontarias, o metal
                                                  das armas e o Poder exibem na tua sigla
                                                  a arrogância do conquistador. Porém o mel
                                                  de tâmaras que modula o gesto destas gentes,
                                                  o cinzel que lhes aguça a madeira dos perfis,

                                                  a lenta chama que lhes devora os magros rostos,
                                                  meus são. Dolorido e exangue o próprio
                                                  Cristo é mouro da Cabaceira e tem a esgalgada
                                                  magreza de um velho cojá asceta.


Embora escreva num português enxuto, pouco dado a corruptelas ou ao léxico de origem dialectal africana, nem o latim escapa a Knopfli, e “às doces inflexões do cantochão latino” responderá aquela outra raça, a quem Caliban roga: “raça de escribas, mandai, julgai, prendei: / Só Alá é grande e Maomé o seu profeta”. 

Se a este texto juntarmos o que fora já prenunciado, tão-só duas páginas antes, naquele “Terraço da Misericórdia” (10) em que “As sombras salmodiam tristemente / versículos do Corão” ficamos perante o chamamento a uma África poli-dialectal, com muito pouco de monoteísta (apesar do foco aqui nos ensinamentos do Corão), e que não esquece as acções de Próspero mesmo quando dentro da “Capela” (11): 


                                                  A cor é fria, o branco quase cinza
                                                  e as púrpuras do retábulo simulam
                                                  fogos morrentes onde crepita
                                                  o fulgor mais vivo de uma ou outra
                                                  rara chama. África ficou
                                                  ao umbral das portas, no calor
                                                  da praça.


Contudo, ironicamente,

                                                  sob um baldaquino hindu
                                                  e num desvario de cores e santos hieráticos,
                                                  salta o púlpito oitavado e é o Oriente
                                                  que chega com seus monstros.


e o grande cisma do Ocidente é invocado, pois

                                                   Do silêncio fita-nos um rosto trifonte
                                                   e nós estamos na encruzilhada
                                                   cismática desse olhar que se prolonga,
                                                   nos examina e considera.


Este, como outros poemas de Knopfli, comporta implicações às quais seguramente não acedo na plenitude, e mostra bem, creio, o porquê da estranheza da crítica perante uma obra tão prenhe de sentidos. Mas não se pense que a inépcia da crítica levaria o poeta a uma lamentação metafísica pseudo-pessoana. Não. Ao invés, a sua resposta surge, desde logo, no seu poema “Contrição” (12), do volume Mangas Verdes com Sal (1969). Com um sarcasmo contundente, Knopfli satiriza os seus detractores, que insistem em ler-lhe influências que podiam muito bem ter vindo de obras que não coincidem com as que a crítica refere.



Seja uma palavra, uma imagem, nada parece escapar ao escopo desfocado de uma crítica a que o poeta responde remetendo, entre outros, para o universo anglo-saxónico que lhe era tão caro:


                                                  Felizmente, é pouco lido o detractor de meus versos,
                                                  senão saberia que também furto em Vinícius,
                                                  Eliot, Robert Lowell, Wilfred Owen
                                                  e Dylan Thomas. No grego Kavafi,
                                                  no chinês Po-Chu-I, no turco
                                                  Pir Sultan Abdal, no alemão
                                                  Gunter Eich, no russo André Vozenesensky
                                                  e numa boa mancheia de franceses. Que desde
                                                  a Pedra Filosofal arrecado em Jorge de Sena.
                                                  Que subtraio de Alberto de Lacerda
                                                  e pilho em Herberto Helder e que
                                                  – quando lá chego e sempre que posso –
                                                  furto ao velho Camões.


China, Turquia, Rússia, Grécia, Alemanha, França e até os portugueses Camões, Alberto de Lacerda e Herberto Helder, que haveria de publicar na revista Caliban, são convocados numa erupção de influências, de entre as quais Fernando J. B. Martinho viria a destacar a anglo-saxónica (13). Em ensaio coligido para publicação na Gulbenkian, este crítico recorda que, tanto por via da literatura, como por via do cinema e do jazz, a referência cultural anglo-saxónica vai ser acolhida, em parte pela proximidade com a África do Sul, pelos intelectuais “euromoçambicanos do período antes da Independência”. Já Noémia de Sousa, por exemplo, acolhera as “vozes de lamentação” que não vinham senão dos spirituals. E Knopfli, em Sketch Book, conjunto de quatro poemas que havia incluído em Reino Submarino (1962), aproxima-se do universo do jazz. Posteriormente, todavia, removeu esse conjunto do tomo supracitado (pelo que não pude aceder aos mesmos, dado que apenas encontrei edições recentes, distribuídas em Portugal pela Imprensa Nacional).



Porém, o jazz e os jazzmen voltarão a aparecer em Mangas Verdes com Sal, o mesmo livro em que se conta “Contrição”. A primeira parte, Nunca mais é Sábado, é precedida por uma citação do Book of Jazz, de Leonard Feather, que o poeta toma para si: “…threw conventional beauty out the window to concentrate more fully on matter rather than manner”. O jazz surgirá depois em textos da secção O Dente do Siso, em que o poeta se vai debruçar sobre Miles Davis e o seu estilo despido de efeitos e sobre Thelonius Monk, com a sua imprevisibilidade. A intertextualidade cresceu dentro da poesia de Knopfli, alicerçada numa sinceridade sem par, sem pruridos, e o jazz, o rock, o cinema, enfim, o exílio, adensificariam a obra deste cidadão da poesia. Os seus alargados interesses, no entanto, não obstaram a que mantivesse bem presente o seu horizonte poético, nunca abdicando da lúcida vigilância a que sempre obrigou o seu labor.

Alude mesmo a um rigor clássico, em “Não Obstante…”, também do livro Reino Submarino, quando nos explica o seu método: “eu trabalho, dura e dificilmente / a madeira rija dos meus versos, / sílaba a sílaba, palavra a palavra, num registo próximo do que se encontra na Arte Poética (Carta aos Pisões), de Quinto Horácio Flaco: “Nec uirtute foret clarisue potentius armis /quam lingua Latium, si non offenderet unum /quemque poetarum limae labor et mora”. 

Se a esta consideração juntarmos o cerco da crítica, percebemos melhor porque reescreveu tantas vezes, ao longo da sua obra, a sua Ars Poética. Percorrendo um caminho de memória que o leva por um itinerário espiritual – algo semelhante ao de T. S. Eliot, desde Terra Devastada até desaguar nos seus Quatro Quartetos (14) –, Knopfli meditará também acerca da temporalidade. É talvez em Máquina de Areia (1964) que o autor melhor o fará: a transitoriedade que desagrega o quotidiano trará um tom confessional q.b., despido de qualquer ironia, em que as cinzas do passado se diluirão na tinta para recuperar seres e objectos da usura do tempo. É um tomo do qual saímos salvos, reconciliados com a nossa própria existência. 

Knopfli apresenta-nos, em “Pirâmide” (15), a uma música que cura, uma “Doce música de areia leve, / contínuo sibilar de horas” por onde se pode, tal como o poeta, seguir, “quase alegre, quase sem remorso, / vertical, amargo e tímido / ó implacável máquina de areia”. Mesmo que os retratos de família tragam amargura e saudade, já que “Breve chega o instante de se olhar /o cadáver do amigo”, a verdade maior assomará à flor dos versos, para relembrar: 

                                                  Ali estendido ele não tem idade,
                                                  parou de envelhecer,

                                                  (…)

                                                  eu sou agora umas horas mais velho,
                                                  um pouco antigo e dolorido na penumbra.


Sempre presentes estarão “os que atravessaram o grande rio”, na arquitectura de gestos que agora encontram o vazio da ausência, enquanto


                                                  A parábola das horas
                                                  traça no espaço os trilhos da memória:
                                                  Um resíduo de tempo persiste,
                                                  imprime uma lembrança ténue,
                                                  imperceptível nervura no rosto
                                                  acumulado dos dias.


Estamos, pois, não perante um registo poético do quotidiano fugaz, mas em face de uma transmutação em que o espírito intui o destino do Homem na inexorável corrente do tempo: o esquecimento é, afinal, o que nos salva da loucura. Na segunda parte do livro, em “Visitação” (16), apõe-se uma linguagem do desejo, em que mesmo a despedida detém um cariz erotizante. A tónica, contudo, permanece no discurso da memória, que agrega todo o livro. Mas o erotismo é sublimado num fluir de vicissitudes biográficas, que o poema – “biofágico” – expurga da comezinha pena para se elevar, ex machina, como o grande triturador do desejo. Homem e mulher refundem-se na infância, “Crianças sem memória / somos o riso mortífero / que sabendo tudo ignora”, assentindo que, da sua inocência, ardem “Na escuridão e na distância. / Quase longamente”, sabendo, de antemão, que


                                                  Os músculos e o sangue e os nervos
                                                  reaprendem cautelosamente o caminho
                                                  que os olhos desvendam no dia claro.
                                                  A liberdade é a ressurreição.


Chegado a O Corpo de Atena (1984), Knopfli pondera o problema da criação, escavando sentidos a partir de signos e sons: 

Atena, deusa do saber na mitologia grega, será objecto do culto ritual do poeta, que emprega toda a alquimia do verbo para entrar no âmago dos seus mistérios. A imagem que surge com frequência é a “lâmina e o sangue”, numa associação ritualista que tem a haver com o culto de Apolo e só por extensão metonímica se pode vincular ao corpo de Atena (17). 

A contemplação do corpo de Atena esconde o aprofundar de um mistério que a escrita não penetra. O poeta vê-se confrontado, no poema que dá nome ao livro (18), com o seu mester, que é afinal, o de um cego bicho humano:



                                                  Proscrito da luz, o irmão
                                                  de Orfeu desconhece o óbvio

                                                  (…)

                                                  A cegueira é sua condição.
                                                  Os filhos de Mársias são cegos,
                                                  ou perturba-os uma visão enferma.


e adiante, com “O Escriba Acocorado” (19), no “neutro olhar sem órbitas”, permanece fitando “mais além”, “Nesse olhar / de não ver tudo” em que se inscreve, “repensa e adivinha: teus limites /e, ainda, o que excederia tua humana // estatura”. Na Primavera de 1996, Rui Knopfli cedia entrevista a Francisco José Viegas (20), a partir de Londres. Nela assumia a saudade de Portugal. Questionado sobre o distanciamento que prejudicava a divulgação da sua obra poética, respondeu, depois de uma vida dedicada ao ofício poético: “Em Portugal, além do mais, não sabem onde me situar. Sou uma daquelas criaturas que ninguém sabe onde situar.” O poeta dizia que 

não é muito cómodo, mas é aquela em que a gente acontece, com as coordenadas que há para seguir (…). Quer dizer, eu sei, lá no fundo… Eu sei que sou da Língua Portuguesa, sei que a minha cultura é portuguesa, e os meus mestres são o Camões, o Pessoa, (…), são as leituras do Herberto, do Alexandre O’ Neill, do Sena e, depois, aquilo que a gente vai roubando de outras culturas.

Passando a conversa por Ilha de Próspero ou por O País dos Outros, Knopfli recorda que, a dada altura, estava triste com a sua memória de Moçambique até Noémia de Sousa lhe ter dito: “Estás totalmente enganado; se há gente que te admira é a nova geração.” Esta apresentou-o a Nelson Saúte, que o saudou com um abraço afectuoso, e Rui Knopfli redescobriu como a sua poesia ainda dizia algo a Moçambique. 



A entrevista prossegue, retomando o livro Ilha de Próspero, que o autor lamenta ter sido, a dada altura, lido como um guia, ou um coffee-table book. A colonização e o que a precedeu é chamado, a propósito, pelo poeta, que acaba por deixar bem claro que o título O País dos Outros não era para os brancos… Seguem-se memórias do 25 de Abril, da sua saída do Tribuna, relembra como Luís Bernardo Honwana disse a vários amigos mútuos que a Frelimo se tinha portado mal com ele e a sua saída de Moçambique em ’75, ao contrário do que certas vozes quiseram fazer crer.

Sempre crítico, aponta o dedo àqueles que vestem a farda de escritor e são mais pose do que obra, para adiante se definir: “Eu sou das poucas pessoas que não andei a fazer a estratégia da glória, nunca pertenci a nenhum lobby no poder, fui sempre uma espécie de voz discordante.” Em 1997 sairia Monhé das Cobras, com aqueles poemas que Knopfli referira a José Viegas, numa edição da Caminho. Quando o também poeta e ensaísta David Mourão-Ferreira indagava 


Moçambique arriscar-se-á, a breve trecho, a compartilhar a sorte da Tanzânia – a qual, em duas gerações, deixou de ser país de expressão oficial alemã para se tornar mais um, dos que na região abundam, de expressão oficial inglesa. Mas quem ouviu o grito de José Craveirinha? (21).

talvez não aguardasse uma resposta de Rui Knopfli. Porém, aquele que seria o último livro deste, parece responder-lhe, ao mesmo tempo que continua a sua ruptura com a crítica. Quando se esperava que esta aceitasse melhor a sua poesia, no que ela bebia do mundo anglo-saxónico, o poeta direcciona, como nunca, o seu discurso para África. 



A memória (consentida) de África levará Knopfli pelas emoções de um tempo dourado, em que a figura encantatória de um mago manipulador espalhava prodígios pelos dias. As cidades de África do Sul já não trazem o bafo de uma Europa distante, o que será explicável, quiçá, pela mundividência do exílio londrino que gastara o fascínio europeu de outra idade. As reminiscências darão vívida cor à sua africanidade e o processo de rememoração – tão fotográfico quão poeticamente metaforizante – tirará ao pó do tempo pormenores de uma cronologia pessoal que darão a mão a uma palavra de rigor sempre clássico, com travo amargo e com apontamentos, aqui e ali, de um embargo da voz que se lia premonitório. 

Abrindo com o tomo Os Nomes, Os Lugares, o livro pinta o retrato d’ “O Monhé das Cobras” (22), 

                                                  envolto em alvos panos e silêncio,
                                                  está. O pudvém cobre-lhe o escroto

                                                  e sobraça-lhe as pernas magras e finas
                                                  de esquálido aracnídeo. No topo o turbante

                                                  e a barba anciã oscilam na brisa matinal.


preparando o leitor para o sortilégio: “Principia, então, a enfeitiçar o dia, / com exactos gestos rituais”. No poema seguinte percebemos que aquele menino, o que ficava paralisado de medo a olhar o ancião, traz para o presente a geografia íntima que o poeta ritualiza: lugares da infância e descrições da sua mãe. Daí, avançaremos para uma “moringa” e para o sabor daquela água “matando a primeira de todas as sedes”, seguida por mais memórias que nos trarão à presença d’ “O Curandeiro” (23), que “lança os ossos e antevê futuro e curas.” A adolescência brota já dos ensinamentos de “Madala” (24), e vem acompanhada de “espadas nuas”, “o estrondo dos disparos, o cheiro da pólvora.” 

Ao “Passanoute” (25) opor-se-á Hugh Lemay e os comics, seguido de memórias d’ “A Casa da Areia” (26), as Oficinas Gerais dos CFM, até à visão adulta de “Artemisa e Não” (27): 

Artemisa, não a deusa da mitologia,


                                                  Artemisa de seu nome, deusa por mérito próprio,
                                                   
                                                  (…)

                                                   Solta a negra cabeleira, o tafetá,
                                                   a cingir-lhe a curva da anca, a apertar

                                                   o seio apetitoso.


Talvez ciente de que um certo tom confessional poderia tornar o seu itinerário pessoal demasiado sentimental, Knopfli insere nesta memória o universo clássico, ainda que para satirizá-lo, enobrecendo, no processo, a mulher africana. Em “Dana” (28), temos já o “trajecto sangrento das acácias”, Mafalala e o prédio Pott. Na segunda parte, As Estátuas, é-nos apresentado um falso mundo grego pela voz do aedo, e torna-se claro que, por metonímia, Grécia é a Europa e, o pior, aquela parte da Europa que insistia em invadir os espaço de África com escritórios e “a rede ferroviária”. 

Chegados, enfim, à terceira e última parte, n’ “O Desterro” (29), “corre já um arrepio pela crista / de Novembro (…) // (…) Toma-se de frio / o ombro esquerdo”, um frio que nem “Vila Viçosa, Alentejo profundo” conseguirão apaziguar. Com o último poema, espera-se o “Cair do Pano” (30), quando “As acácias já se incendiaram de vermelho / e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante / a manhã de Dezembro”. E ao longe, imagine-se,


                                                  Ao longe, no extremo distante da caixa
                                                  de areia, o monhé das cobras enrola
                                                  a esteira e leva o cesto à cabeça,
                                                  cumprido o papel exacto que lhe coube.

Teremos então de assumir que nós, os leitores, “comparsas convocados / para esta comédia” não podemos consignar esta obra tão ímpar “ao olvido / e à erva daninha que, persistente, a cobrirá”, porque “O encenador faz / a vénia da praxe e, porque aplausos” lhe são, e bem, mais do que devidos – à esquerda e à direita. Não deixemos “encurtar o tempo, o pouco que nos sobra” e leia-se Rui Knopfli. 


amadeu liberto fraga


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N.A.: à data do término deste texto, a antologia de Rui Knopfli editada pela do lado esquerdo, não se encontrava ainda disponível, pelo que não pude consultar o prefácio de António Cabrita. Ausente está também a entrevista que Rui Knopfli cedeu a Michel Laban, para o livro Moçambique. Encontro com escritores, editado pela fundação Eugénio de Almeida, e a que conto ainda poder aceder, altura em que este texto poderá ser aumentado. 




(1) SAÚTE, Nelson, in Prefácio a Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana, pág. 26, D. Quixote, 1ª edição, Lisboa, 2004

(2) idem, pág. 28

(3) idem, pág. 32

(4) do poema A Palavra, de Eduardo White, in País de Mim e coligido em Nunca mais é Sábado…, pág. 559-561

(5) REBELO, Luís de Sousa, in Prefácio a Obra Poética, por Rui Knopfli, pág. 8, INCM, ed. única de 1000 ex., Lisboa, 2003

(6) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 41

(7) in ANDRADE, Eugénio de, Primeiros Poemas/ As Mãos e os Frutos/ Os Amantes sem Dinheiro, pp. 88-9, Edições Quasi, 2ª edição, Vila Nova de Famalicão, 2008

(8) REBELO, Luís de Sousa, in Prefácio a Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pp. 9-10, INCM, ed. única de 1000 ex., Lisboa, 2003

(9) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 355

(10) opus cit., pág. 353

(11) idem, pág. 359

(12) idem, pág. 210

(13) MARTINHO, Fernando J. B., no ensaio A América na poesia de Rui Knopfli, in Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, pp. 119-137, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª edição, Lisboa, 1987

(14) Ambas as obras estão editadas em Portugal pela Relógio d’Água

(15) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 171-74

(16) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 175-77

(17) REBELO, Luís de Sousa, in Prefácio a Obra Poética, por Rui Knopfli, pp. 21-2

(18) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 439

(19) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 448

(20) in Revista Ler Nº 34, pp. 52-67, 1996

(21) MOURÃO-FERREIRA, David, Magia Palavra Corpo: Perspectivas da Cultura de Língua Portuguesa, pág. 24, Cotovia, ed. única de 1500 ex., Lisboa, 1993

(22) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 487

(23) in Obra Poética, por Rui KNOPFLI, pág. 492

(24) idem, pág. 493

(25) idem, pág. 494

(26) idem, pág. 496

(27) idem, pág. 504

(28) idem, pág. 509

(29) idem, pág. 492

(30) idem, pág. 528