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17/11/2019

     A ideia de que o que está mais próximo de nós no tempo é necessariamente mais interessante, e de que, por próximo, o compreendemos muito melhor é, em princípio, inteiramente falsa. Ninguém compreende do passado ou do presente senão aquilo que está preparado para compreender. E, a menos que tomemos por conhecimento uma massa de informações não-digeridas e que, em grande parte, podem ser irrelevantes, não sabemos necessariamente do presente mais e melhor do que de muito passado. O homem que se confinar apaixonadamente ao «presente», voltando as costas a um passado que lhe parece morto e sem relação com o seu próprio tempo, é aquele que mais apto está a sucumbir a todas as falácias que o passado legou ao seu presente. Em contrapartida, o interesse pelo passado não pode ser a tentativa absurda de nos transpormos para ele, nem a utilização demagógica dele.

Jorge de Sena, excerto inicial de Sobre o Perspectivismo Histórico-Literário, in "Dialécticas da Literatura", edições 70, pág. 179, Lisboa, 1973

04/06/2019


Ouvindo Canções de Dowland

Desta música não ouço mais do que a
nítida estrutura que se oculta sob
a melodia que ondulante toca
falsamente a emoção tão pronta,
ou sob esta harmonia que progride arguta
suscitando pretensas marginais ideias,
ou sob o ritmo que é permanência
enganadora do que flui, dissolve.
Não ouço mais do que a estrutura oculta
desta música, e outras eras e lugares
acorrem pressurosos: mas não ouço
nada de antigo ou novo, dissipado ou
presente ainda no que resta em mim.
Apenas ouço uma estrutura: um
gesto silencioso, um movimento,
e sobretudo uma melancolia.
Uma estrutura: como um deus que a face
encosta pensativo à mão e o cotovelo
ao joelho soerguido, e assim, medita. Em quê?
Como é difícil ser-se humano! El' sabe.

Jorge de Sena, in "Arte de Música"

05/02/2019

Eu penso continuamente nos que foram em verdade grandes,
Nos que, desde a matriz, se lembraram de uma história de alma
Em corredores de luz onde as horas são sóis.
Sem fim, cantando. Cuja doce ambição 
Fora que seus lábios, do fogo sem cessar tocados,
Anunciassem o Espírito coberto de cânticos, da cabeça aos pés.
E que dos ramos primaveris colheram
Os desejos tombando por seus corpos como flores.

O que é precioso é não esquecer nunca
A alegria essencial do sangue que flui de fontes sem idade
Brotando de uma rocha em mundos anteriores à terra.
Nunca negar o prazer dele à claridade simples da manhã
Nem a sua grave e nocturna exigência de amor.
Nunca permitir que gradualmente o tráfego amacie
Com ruído e névoas o florescer do espírito.

Perto da neve, perto do sol, nos mais altos campos
Vêde como a esses nomes festejam ondulantes ervas
E flâmulas de nuvem branca
E sussurros do vento no céu que escuta.
Os nomes daqueles que em suas vidas pela vida lutaram,
Que usaram nos seus corações o centro do fogo.
Nascidos do sol viajaram um momento breve ao encontro do sol,
E deixaram o ar vívido assinado a honra.


Stephen Spender, trad. Jorge de Sena, in "rev. Árvore nº1", outono de 1951