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19/11/2020

        Os Prazeres Inferiores
 
             Não desdenhes as paixões vulgares.
        Tens os anos necessários para saber
        que elas se correspondem exactamente com a vida.
        Não reduzas sua acção,
        pois se do breve tempo em que consistes
        as retiras,
        é ainda o existir mais imperfeito.
        Descobre sua verdade por trás da aparência,
        e assim não haverá falsidade,
        não poderás fingir que foi razão de vida o que foi só passagem.
        Mas elas evitaram-te o fiel tédio das horas.
 
             Exigem lucidez, não em sua experiência,
        mas em seu escasso ser;
        dá-lhes seu exacto valor,
        para o que tens de saber o que a vida vale
        e essa sabedoria há muito que é tua.
        Se cometes um erro quando as medes,
        hás-de fazê-lo atendendo à degradação.
        Nunca melhores o que vale pouco.
        E que não tenham nome, nem tempo demorado,
        e fiquem confundidas em sua promiscuidade.
        Sabes que tua memória é débil e te ajuda.
        São todas uma só,
        como é única a vida.
        E as outras paixões que merecem um nome
        e o abrigo de um tempo,
        salva-as longe delas,
        e sempre te recordem o que a vida não é.
        E agradece tais erros à vida.
 
Francisco Brines, in "Ensaio de Uma Despedida. Antologia 1960-1986", pág. 133-34, selecção e tradução de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, nov. 1987

05/02/2019

Eu penso continuamente nos que foram em verdade grandes,
Nos que, desde a matriz, se lembraram de uma história de alma
Em corredores de luz onde as horas são sóis.
Sem fim, cantando. Cuja doce ambição 
Fora que seus lábios, do fogo sem cessar tocados,
Anunciassem o Espírito coberto de cânticos, da cabeça aos pés.
E que dos ramos primaveris colheram
Os desejos tombando por seus corpos como flores.

O que é precioso é não esquecer nunca
A alegria essencial do sangue que flui de fontes sem idade
Brotando de uma rocha em mundos anteriores à terra.
Nunca negar o prazer dele à claridade simples da manhã
Nem a sua grave e nocturna exigência de amor.
Nunca permitir que gradualmente o tráfego amacie
Com ruído e névoas o florescer do espírito.

Perto da neve, perto do sol, nos mais altos campos
Vêde como a esses nomes festejam ondulantes ervas
E flâmulas de nuvem branca
E sussurros do vento no céu que escuta.
Os nomes daqueles que em suas vidas pela vida lutaram,
Que usaram nos seus corações o centro do fogo.
Nascidos do sol viajaram um momento breve ao encontro do sol,
E deixaram o ar vívido assinado a honra.


Stephen Spender, trad. Jorge de Sena, in "rev. Árvore nº1", outono de 1951

19/07/2018

67. Olhem para o vosso quarto, à noite, quando já dificilmente se distinguem as cores – e agora acendam a luz e pintem o que viram antes, na semiobscuridade. – Como comparam as cores tal como estão na pintura com as do quarto semiobscurecido?
Ludwig Wittgenstein, in "Anotações Sobre as Cores"