Cidade
ao Alfredo de Azevedo
A cidade é negra e cresce para dentro
com ruas cada vez menos de cada homem
onde nunca amanhece e é sempre anoitecer
- um anoitecer derradeiro pelo sangue que escorre dos anúncios luminosos.
As casas que se levantam sufocam as avenidas,
quebram os ventos, apagam o sol entre os seus braços,
não multiplicam as estrelas nos seus telhados de cimento,
ensombram os arvoredos, sazonando apenas frutos amargos de carvão.
O horizonte é mais perto pelo fumo envenenado
que faz tombar as aves se elas tentam fugir.
As estradas para o mar fecham-se nas bocas dos esgotos
e nos guindastes pasmados por tanto infinito inútil.
Manchas de gasolina e sangue avermelham o rio
onde os peixes perdem a cor e a direcção da foz,
e os barcos que se arrojam a uma última aventura
encalham em cadáveres, em pontes abatidas, em destroços de naufrágios.
Sebes de espingardas ladeiam os jardins
onde crianças brincam aos soldados morrendo a cada instante,
e nos jornais em que os mendigos embrulham a comida
há margens, sulcos sangrentos denunciando assassínios e suicídios.
Nenhum homem cabe já dentro dos muros da cidade:
quer libertar-se da sua névoa, do seu fumo, do seu ruído:
adormecer no caminho mais luminoso das estrelas cadentes
para não dormir nas margens dum corpo algemado pela fome.
A Morte dorme no peito dos habitantes da Cidade
como o sol dentro do pão, dos olhos e da água;
e nos bancos, nos casinos, nas vielas, nos hospitais
todos se lhe entregam com o jeito natural de quem se deita numa cama.
José Bento, in "rev. Árvore nº4, vol. II - 1º fascículo"
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28/02/2019
18/02/2019
Veante mis ojos
Laranjeiras ou nardos? Sol-posto.
Luz da tarde ou da noite? Mudez.
Rasgo, em campos de cardos, o rosto.
Rasgo os dedos na azul pequenez.
Luz sem armas, sem corpo, distância
entre o raio e o princípio do Céu.
Cantarzinhos na rua da infância?
Cantarcillo que a santa aprendeu:
Veante mis ojos
dulce Jesus bueno.
Veante mis ojos
muera me yo luego.
Tarde em casa na sala do Mundo?
Tarde velha no claustro espanhol.
Grandes fontes do Tempo sem fundo,
jorram alto, dos cimos do sol.
Estou morrendo na grande tormenta.
Teresa foge, não posso aprendê-la.
Teresa veste de névoa cinzenta,
pés de aroma e sandálias de estrela.
Os relógios sumiram os anos
por tranquilas escadas de sol.
Sobrehumanos, meus olhos humanos
espreitam Cristo no claustro espanhol...
Natércia Freire, in "rev. Árvore nº3", primavera e verão de 1952
Laranjeiras ou nardos? Sol-posto.
Luz da tarde ou da noite? Mudez.
Rasgo, em campos de cardos, o rosto.
Rasgo os dedos na azul pequenez.
Luz sem armas, sem corpo, distância
entre o raio e o princípio do Céu.
Cantarzinhos na rua da infância?
Cantarcillo que a santa aprendeu:
Veante mis ojos
dulce Jesus bueno.
Veante mis ojos
muera me yo luego.
Tarde em casa na sala do Mundo?
Tarde velha no claustro espanhol.
Grandes fontes do Tempo sem fundo,
jorram alto, dos cimos do sol.
Estou morrendo na grande tormenta.
Teresa foge, não posso aprendê-la.
Teresa veste de névoa cinzenta,
pés de aroma e sandálias de estrela.
Os relógios sumiram os anos
por tranquilas escadas de sol.
Sobrehumanos, meus olhos humanos
espreitam Cristo no claustro espanhol...
Natércia Freire, in "rev. Árvore nº3", primavera e verão de 1952
12/02/2019
Fonte
Se me perguntardes: Onde bebeste?
Responderei:
Bebi em rios que arrastam lodo,
Arame farpado e sangue.
Em rios que reflectem céus negros,
Lágrimas de tortura, destruição,
Ruínas, companheiros mortos,
Meninos e velhos a mendigar ternura...
Nestes rios bebi.
Mas depois vos direi:
Nos meus rios há também a Primavera,
Orvalho, música e laranjais,
Há violetas, andorinhas, céu azul,
Braços que erguem colunas e pontes,
Sorrisos de crianças e a palavra mãe.
E há um horizonte iluminado
Com a vitória duma manhã que irrompe.
Ilse Losa, in "rev. Árvore nº2", inverno de 1951-52
Se me perguntardes: Onde bebeste?
Responderei:
Bebi em rios que arrastam lodo,
Arame farpado e sangue.
Em rios que reflectem céus negros,
Lágrimas de tortura, destruição,
Ruínas, companheiros mortos,
Meninos e velhos a mendigar ternura...
Nestes rios bebi.
Mas depois vos direi:
Nos meus rios há também a Primavera,
Orvalho, música e laranjais,
Há violetas, andorinhas, céu azul,
Braços que erguem colunas e pontes,
Sorrisos de crianças e a palavra mãe.
E há um horizonte iluminado
Com a vitória duma manhã que irrompe.
Ilse Losa, in "rev. Árvore nº2", inverno de 1951-52
05/02/2019
Eu penso continuamente nos que foram em verdade grandes,
Nos que, desde a matriz, se lembraram de uma história de alma
Em corredores de luz onde as horas são sóis.
Sem fim, cantando. Cuja doce ambição
Fora que seus lábios, do fogo sem cessar tocados,
Anunciassem o Espírito coberto de cânticos, da cabeça aos pés.
E que dos ramos primaveris colheram
Os desejos tombando por seus corpos como flores.
O que é precioso é não esquecer nunca
A alegria essencial do sangue que flui de fontes sem idade
Brotando de uma rocha em mundos anteriores à terra.
Nunca negar o prazer dele à claridade simples da manhã
Nem a sua grave e nocturna exigência de amor.
Nunca permitir que gradualmente o tráfego amacie
Com ruído e névoas o florescer do espírito.
Perto da neve, perto do sol, nos mais altos campos
Vêde como a esses nomes festejam ondulantes ervas
E flâmulas de nuvem branca
E sussurros do vento no céu que escuta.
Os nomes daqueles que em suas vidas pela vida lutaram,
Que usaram nos seus corações o centro do fogo.
Nascidos do sol viajaram um momento breve ao encontro do sol,
E deixaram o ar vívido assinado a honra.
Stephen Spender, trad. Jorge de Sena, in "rev. Árvore nº1", outono de 1951
Nos que, desde a matriz, se lembraram de uma história de alma
Em corredores de luz onde as horas são sóis.
Sem fim, cantando. Cuja doce ambição
Fora que seus lábios, do fogo sem cessar tocados,
Anunciassem o Espírito coberto de cânticos, da cabeça aos pés.
E que dos ramos primaveris colheram
Os desejos tombando por seus corpos como flores.
O que é precioso é não esquecer nunca
A alegria essencial do sangue que flui de fontes sem idade
Brotando de uma rocha em mundos anteriores à terra.
Nunca negar o prazer dele à claridade simples da manhã
Nem a sua grave e nocturna exigência de amor.
Nunca permitir que gradualmente o tráfego amacie
Com ruído e névoas o florescer do espírito.
Perto da neve, perto do sol, nos mais altos campos
Vêde como a esses nomes festejam ondulantes ervas
E flâmulas de nuvem branca
E sussurros do vento no céu que escuta.
Os nomes daqueles que em suas vidas pela vida lutaram,
Que usaram nos seus corações o centro do fogo.
Nascidos do sol viajaram um momento breve ao encontro do sol,
E deixaram o ar vívido assinado a honra.
Stephen Spender, trad. Jorge de Sena, in "rev. Árvore nº1", outono de 1951
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