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19/11/2020

        Os Prazeres Inferiores
 
             Não desdenhes as paixões vulgares.
        Tens os anos necessários para saber
        que elas se correspondem exactamente com a vida.
        Não reduzas sua acção,
        pois se do breve tempo em que consistes
        as retiras,
        é ainda o existir mais imperfeito.
        Descobre sua verdade por trás da aparência,
        e assim não haverá falsidade,
        não poderás fingir que foi razão de vida o que foi só passagem.
        Mas elas evitaram-te o fiel tédio das horas.
 
             Exigem lucidez, não em sua experiência,
        mas em seu escasso ser;
        dá-lhes seu exacto valor,
        para o que tens de saber o que a vida vale
        e essa sabedoria há muito que é tua.
        Se cometes um erro quando as medes,
        hás-de fazê-lo atendendo à degradação.
        Nunca melhores o que vale pouco.
        E que não tenham nome, nem tempo demorado,
        e fiquem confundidas em sua promiscuidade.
        Sabes que tua memória é débil e te ajuda.
        São todas uma só,
        como é única a vida.
        E as outras paixões que merecem um nome
        e o abrigo de um tempo,
        salva-as longe delas,
        e sempre te recordem o que a vida não é.
        E agradece tais erros à vida.
 
Francisco Brines, in "Ensaio de Uma Despedida. Antologia 1960-1986", pág. 133-34, selecção e tradução de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, nov. 1987

27/10/2019

José Bento ( 17 de Novembro de 1932 — 26 de Outubro de 2019 )


 

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                                                     Ao oferecer uma antologia
                                                        de Rainer Maria Rilke

      O escrito aqui nada te será se o repetires:
canto ou silêncio de uma vida alheia,
aprendizagem de uma consumação
já colhida por quem a sazonou,
– sono abissal entre pétalas perenes.

     Mas destas palavras sorverás
o sopro que vibre quanto escrevas,

     uma presença tenebrosa
que desde o teu sangue te ilumine,

     um caminhar vacilante pela mão,
cálida, translúcida

     que te acompanhe para além da morte.

in "Silabário", pág. 19, 1ª ed. (e única), Relógio d'Água, Lisboa, 1992

28/02/2019

Cidade

                                                                                                            ao Alfredo de Azevedo

A cidade é negra e cresce para dentro 
com ruas cada vez menos de cada homem
onde nunca amanhece e é sempre anoitecer
- um anoitecer derradeiro pelo sangue que escorre dos anúncios luminosos.

As casas que se levantam sufocam as avenidas,
quebram os ventos, apagam o sol entre os seus braços,
não multiplicam as estrelas nos seus telhados de cimento,
ensombram os arvoredos, sazonando apenas frutos amargos de carvão.

O horizonte é mais perto pelo fumo envenenado 
que faz tombar as aves se elas tentam fugir.
As estradas para o mar fecham-se nas bocas dos esgotos
e nos guindastes pasmados por tanto infinito inútil.

Manchas de gasolina e sangue avermelham o rio
onde os peixes perdem a cor e a direcção da foz,
e os barcos que se arrojam a uma última aventura
encalham em cadáveres, em pontes abatidas, em destroços de naufrágios.

Sebes de espingardas ladeiam os jardins
onde crianças brincam aos soldados morrendo a cada instante,
e nos jornais em que os mendigos embrulham a comida
há margens, sulcos sangrentos denunciando assassínios e suicídios.

Nenhum homem cabe já dentro dos muros da cidade:
quer libertar-se da sua névoa, do seu fumo, do seu ruído:
adormecer no caminho mais luminoso das estrelas cadentes
para não dormir nas margens dum corpo algemado pela fome.

A Morte dorme no peito dos habitantes da Cidade 
como o sol dentro do pão, dos olhos e da água;
e nos bancos, nos casinos, nas vielas, nos hospitais
todos se lhe entregam com o jeito natural de quem se deita numa cama.


José Bento, in "rev. Árvore nº4, vol. II - 1º fascículo"