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18/11/2020

 ( . . .)

      Porque o poema é a expressão física, na língua, do impulso poético. A língua, com a qual e, simultaneamente, contra a qual, o "material psíquico" originário do poema procura e encontra uma forma, e onde essa forma finalmente se consuma transformando-o e identificando-o, constituiria, pois, o laço entre a solidão do poeta e a solidão do leitor. Mesmo quando a função da escrita literária fosse, não a de exprimir mas a de dispor, ela seria também, por força justamente da sua presença na língua e na história, uma leitura da história (maxime da história da própria literatura). E talvez até nos extremos casos em que, buscando a salvação pelo silêncio, a escrita assuma face a essa história, como em Mallarmé, uma rarefacção formal e uma natureza assassina (o termo é de Blanchot) da fala social onde a leitura se funda, ela esteja condenada, porque é de uma condenação que se trata, a fazê-lo dentro da língua e da literatura e a tornar-se, assim, inevitavelmente, num problema de linguagem.
      A língua, como diz Barthes, está aquém da literatura, é um "habitat" familiar, um horizonte que o escritor partilha com o leitor. Nela, enquanto corpo comum, a leitura assume-se então, naturalmente, como uma espécie particular de manifestação da obra literária. 
 
Manuel António Pina, "Ler e Escrever", in "Águas Furtadas, nº3", pág. 10, Ano III, Abril de 2001, Organização Literária de Rui Lage, Edições JUP

19/10/2019

Resposta

Algo mais elementar que o espaço e o tempo,
e a escuridão luminosa do Areopagita,
uma hipótese ilegível, antes do pensamento,
uma sílaba só de uma palavra não dita,

sem sentido e sem finalidade, apenas uma ocasião,
como um olho único e cego que vê
do fundo da sepultura da razão,

vaste comme la nuit et comme la clarté.

Um sonho
de uma sombra de quê?

Manuel António Pina, in Todas as Palavras (poesia reunida), pág. 303, 1ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2012