05/03/2026
11/07/2025
Fernando Guimarães (03.02.1928 — 11.07.2025)
Poeta único (mesmo único) e incansável, ensaísta extraordinário, professor de/para várias gerações, deixa vasta obra, de qualidade contínua inegável. Sendo certo que já não se fazem homens assim (da sua disponibilidade e da sua gentileza têm sido deixados inúmeros testemunhos nas redes sociais desde o dia de ontem), não menos certo será afirmar que poetas assim não surgem a toda a hora.
Combinava o conhecimento literário, a estética, um certo pensamento especulativo (que tornava tantos dos seus poemas em filosofemas, algo que partilhava com o seu amigo Fernando Echevarría), o amor pelas artes plásticas e pela música, com uma linguagem poética própria onde parecia caberem mundos vários, e de onde, apesar disso, estava ausente Fernando Guimarães.
Feito extraordinário, numa obra iniciada na década de 50 e cujo último título é deste ano. Entre "A Face Junto ao Vento" e "Sobre a Voz", fica um legado poético povoado por intertextualidades, palimpsestos, écfrases (no sentido grego/estrito e no sentido mais lato/moderno de exercício meditativo a partir de), mas também exemplos sem igual de metapoesia, assim como textos habitados por personagens, normalmente, de outros tempos.
Essa alteridade, não raro, manifestava-se, por convocação de figuras femininas, como mostram os poemas sobre a violação de mulheres em tempos de guerra ou uma longa fala de uma mulher idosa, entre tantos outros. Além de poemas a partir de esculturas, telas, música dita erudita, ou de convocação de mitos ou de figuras mais ou menos anónimas mas universais, a poesia de Fernando Guimarães adquiria, em momentos altos, uma forte e rara carga simbólica, provavelmente inigualável no panorama da poesia portuguesa, a partir de palavras-imagens que logo se tornavam centros nevrálgicos ou rizomas/pontos de partida.
Disso são exemplo os poemas em torno do conceito de árvore ou de casa, que em dois ou três versos passavam da definição diccionarizada para expansões metafóricas produtoras de inusitados sentidos múltiplos. Nos últimos livros (entra, estilo tardio), as meditações acerca da morte intensificaram-se, de mão dada com um tom elegíaco que homenageava a sua esposa, Maria de Lourdes Guimarães (falecida em 2021), também autora e tradutora.
Além da produção poética, FG deixa vasta obra ensaística, da qual se destacam estudos sobre o Simbolismo e o Modernismo, mas também sobre a poesia contemporânea ou a ligação entre literatura e artes plásticas, tema que lhe era muito caro e que lhe inundou a obra tanto na vertente poética quanto na recensão/ensaística. Se a sua obra poética foi vigilantemente editada e reeditada/recompilada, como mostram as sucessivas recolhas por entre novos livros (na Modo de Ler, nas Quasi e na Afrontamento), urge reeditar alguma da sua obra ensaística, há muito esgotada.
Disso são exemplo algumas obras de estética editadas in illo tempore pela Presença ou obras sobre o Romantismo e sobre o Modernismo editadas pela Lello nos anos 90, quando a Lello ainda era a Lello... Como se não fosse tudo isto já extraordinário, colaborou ainda com várias revistas e alguns jornais, que me coíbo aqui de listar, e foi ainda tradutor, entre outros, de Shelley, Keats ou Dylan Thomas. Poderia dizer-se que aquele verso de Camões, tão citado e deslocado por tudo e por nada - "Para tão longo amor tão curta a vida" - serve a Fernando Guimarães como a muito poucos.
alf
11/09/2019
O que importam as palavras quando uma professora doente oncológica é dada como apta para leccionar por uma junta médica e, por extensão, pelo estado português? Mas agora calo-me. Os anos, os anos... Não sei nada, volto a ser aquele adolescente numa mesa de escola, a tentar perceber o Bexiguinha dentro de mim, hoje domado, e em mais ou menos amena conversa com outros personagens de VF e de outros autores. Nesta hora em que a prof.ª Matilde vai para a sua última colocação, endereço à família os meus mais sinceros sentimentos. E a vocês que não a conheceram, mas que, espero, tenham também tido uma prof.ª Matilde no vosso percurso, um excerto de "Aparição", que, está decidido, vou reler:
"Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. [...] Que me é todo o passado senão o que posso ver nele do que me sinto, me sonho, me alegro ou me sucumbo? Que me é todo o futuro senão o que agora me projecto? O meu futuro é este instante desértico e apaziguado. Lembro-me da infância, do que me ofendeu ou sorriu: alguma coisa veio daí e sou eu ainda agora, ofendido ou risonho: a vida do homem é cada instante - eternidade onde tudo se reabsorve, que não cresce nem envelhece -, centro de irradiação para o sem-fim de outrora e de amanhã. O tempo não passa por mim: é de mim que ele parte, sou eu sendo, vibrando."
alf
29/01/2019
Diante da morte, diante de um suicida perante a morte, é de muito mau gosto lançar mão de qualquer tipo de literatura. Em tal situação, e perante um tal conviva, não tem qualquer préstimo o arsenal dos subterfúgios. Só talvez o silêncio. O silêncio que a morte faz à sua volta, quando acontece. Quando, por acaso maior ou menor e com mais ou menos solenidade, acontece.
Diante da morte, como em quase tudo, também é preciso distinguir. Há o que é importante e o que não não é.
O que não é, pôr de lado. Não deitar fora mas, resoluto, pôr de lado. Diante da morte não há tempo a perder. Frieza e paixão devem ser habitualmente doseadas.
Diante da morte o importante é sentir. Sabe-se lá como. E o quê.
A morte, provavelmente. O tempo que falta até lá. O que ainda resta.
Sentir, degustar o tempo esse como um percurso: de aprendizagem. de exaltação, de sabedoria.
Diante da morte o importante é estar.
*
Pois morre-se de muita coisa, de muita coisa
se morre, morre-se por tudo e por nada
morre-se sempre muito
Por exemplo, de frio e desalento
um pouco todos os dias
mas de calor também se morre
e de esperança outro tanto
e é assim: como a esperança nunca morre
morre a gente de ter que esperar
Morre-se enfim de tudo um pouco
De olhar as nuvens no céu a passar
ou os pássaros a voar, não há mais remédio
ó amigos, tem que se morrer
Até de respirar se morre e tanto
tão mais ainda que de cancro
De amar bem e amar mal
de amar e não amar, morre-se
De abrir e fechar, a janela ou os olhos
tão simples afinal, morre-se
Também de concluir o poema
este ou qualquer outro, tanto faz
ou de o deixar em meio, o resultado
é o mesmo: morre-se
Data-se e assina-se – ou nem isso
Sobrevive-se – ou nem tanto
Morre-se – sempre
Muito
in "Sobre a Nossa Morte Bem Muito Obrigado", &etc, Lisboa, 1989
Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem
in "Livro de Afectos", ed. autor, Lisboa, 1992
A dois passos
Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso — esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno — estava-se bem.
'Do inferno – cinco aproximações', in "Telhados de vidro nº 12", Averno, maio de 2009
O nosso amor não é coisa que se apresente
a uma sociedade como esta cujas exigências
stop que é do nosso amor que se trata
o nosso amor cheira às folhas podres de Outono
e quanto a reverdecer vou ali e já venho
o nosso amor está de rastos e como há-de ir
o nosso amor coelho esfolado o nosso amor
disco partido o nosso amor rato morto o nosso
amor ovo cozido ovo estrelado porque isso tanto faz
o nosso amor osso esburgado o nosso amor
brinquedo que um menino esventrou e não sabe
agora como é que vai poder consertar
o nosso amor chá de tília choque
anafilático paragem cardíaca
mas nosso amor apesar de ou nosso amor
tudo e mais alguma coisa o nosso amor
cinco sentidos viste-o ouviste-o tocaste-o
cheiraste-o degustaste-o o nosso amor
seja ou não seja e esteja ou não esteja
ele é para já e largamente quanto basta
*
Um poema de amor que ninguém
tivesse feito e só um merecesse
e só o outro entendesse
E aí estaria ele o amor
em estado de pura nudez
litográfica à século das luzes
*
Um sinaleiro invisível manda parar o trânsito
há uma pausa brutal no bulício da cidade
Soa a campainha da porta, entras furtiva-
mente, sorris acanhada e logo começas
a abandonar sapatos e a despir a roupa em gestos
sacudidos. Grande é a importância que me dás
Por momentos tudo vais trocar pelas minhas mãos
in "O Quarto Azul e outros poemas", Livraria Letra Livre, 2011
Refastelado no veludo negro
do inferno, um gato
espera por mim
Espera por mim, negro
e macio, confortável-
mente sentado à porta do inferno
Desde sempre à minha espera
aconchegado no veludo negro
do inferno
Resignadamente sentado
à porta do inferno
à espera de quê ou de quem
— ou de mim? — o gato
in "Um Gato no Inferno", ed. autor, Lisboa, Julho de 2013
27/11/2018
amadeu liberto fraga
06/06/2018
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.

