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05/03/2026

 

António Lobo Antunes ( 01.09.1942 - 05.03.2026 )

o que pode dizer-se acerca de um autor da envergadura de ALA, para mais nos momentos que seguem o seu desaparecimento do plano físico? talvez esta pergunta básica explique, por um lado, o silêncio de algum do nosso meio literário, por outro os posts que se limitam a uma fotografia a preto e branco. independentíssimo, a esquerda nunca lhe perdoou que não fosse mais de esquerda, e a direita nunca engraçou com a atenção que dava às "coisas aqui em baixo". e isto dirá mais da pequenez do país do que da grandeza do escritor...
 
correndo o risco de não alinhavar mais do que um par de vulgaridades, ainda assim direi que o caso de ALA demonstra, indiscutivelmente, aquilo que há muito é sabido, mas que parece esquecido pelas gerações que se lhe seguiram: andar em "Letras" na faculdade e ler os amigos não basta para se ser escritor. vou mais longe: ALA jamais teria sido o escritor que foi, se não tivesse tido a experiência que teve com a guerra colonial, e se não tivesse o acesso que teve à alma humana através da sua actividade profissional enquanto psiquiatra.
 
"escreve sobre o que sabes" é o melhor conselho alguma vez dado por um escritor experiente a um novato, e a obra de ALA a prova da adequação desse conselho. desengane-se quem pensar o oposto: nos primeiros livros, ALA usou-se a si mesmo como barro para moldar a sua criação. quem pensam que é aquele médico que observa as filhas à distância nas páginas iniciais de "Memória de Elefante"? e se Barthes proclamara já a morte do autor, ALA começou uma luta escrita para se apagar do seu discurso, dando ao país um dos seus escritores mais inventivos.
 
quando chegamos a "Explicação dos Pássaros", aquele personagem suicidário é de certo modo o autor a matar o cidadão, para que a obra possa começar a ser outra coisa. e sim, o que isto tem de psicanálise e de Bloom... e, contudo, concedendo que ALA terá obras melhores em "As Naus", "Exortação aos Crocodilos" ou mesmo "O Arquipélago da Insónia", entre tantos outros admiráveis romances (e será que eram mesmo romances?), é nesses primeiros livros, creio, que está o melhor laboratório de criação de uma nova linguagem literária em Portugal.
 
naqueles primeiros livros, ALA exorciza-se a si mesmo, faz a sua catábase e a sua catarse, e chega a "Fado Alexandrino", ou "Auto dos Danados", como um novíssimo Orpheu que, tendo tido um segunda oportunidade, decidiu não olhar para trás. evidentemente, ALA continuou a olhar para trás e a carregar os fantasmas da guerra e da sua profissão para as páginas de livros futuros, mas depois dessas primeiras obras, ALA já era só escritor, e os biografemas tinham ficado para trás, o tratamento literário dos seus temas predilectos já não precisava de ecos da sua própria vida, pois bebia da vida dos outros, fossem esses outros reais, por interposta pessoa (companheiros de armas, amigos, vizinhos, pacientes) ou imaginados (títeres mais ou menos moldados, arquétipo ou biótipo idealizado para embalar a palavra a cada novo livro).
 
se nos primeiros livros temos o autor de braço dado com o cidadão privado, no poscénio, a ver a peça desenrolar-se, peça em que o cidadão entra e sai, hesitando entre actor e autor, nos livros seguintes resta o autor no poscénio, certo de que o palco será sempre o seu país, e de que nenhum personagem é demasiado pequeno para merecer uma menção, ou atenção plena, e.g., entre tantos outros citáveis, a governanta Tininha de "Manual dos Inquisidores".
 
no centro da sua obra está aquilo que tantos tentaram imitar sem sequer chegarem perto, e que fazia de ALA autor por uns adorado, por outros odiado: uma torrente discursiva com gramática própria, uma modernidade de inspiração quer francesa, quer anglo-saxónica, mas não só, do nouveau roman a Faulkner, de Kafka a Joyce, ou, porque não, de Woolf a Céline ou Proust.
 
uma torrente atravessada por episódios mais ou menos longos, em que a narrativa nem sempre parece ser o objecto último, com recurso a uma "stream of consciousness" à portuguesa, conceito literário importado da psicologia (há quem diga que não, mas eu continuarei a insistir que sim), entrecortado por acção e/ou diálogo e logo retomado, pejado de imagens inusitadas que a uns irritou (lembro a embirração de Liberto Cruz com essa técnica, que só elogiou quando, aparentemente, ALA não a exagerava) e a outros provocou admiração e desejo de a continuar.
 
por estes dias, em que o "attention span" da juventude parece reduzir-se drasticamente aos 30 segundos de vídeos tiktokianos e os interesses nos momentos de descanso se resumem a danças ao som de baile-funk-brasileiro, com letras de fazer corar o zezé camarinha ou até o tetraneto do marquês Donatien Alphonse, ou então a jogos no telemóvel, o fluxo discursivo, porventura excessivo, que caracteriza a escrita de ALA, entre a prosa e uma certa poesia, parece condenada a ser pouco lida por uma elite que saiba educar os seus filhos, ou por uns raros que, mais ou menos auto-didacticamente, descubram este e outros autores (qual será a fortuna crítica de um Rui Nunes, daqui a 50 anos?).
 
do futuro nada sei, ainda que saiba bem que o autor ALA só existiu porque a vida assim lho permitiu. não é qualquer pessoa que decide parar a sua vida profissional e dedicar-se à escrita, é necessário que isso seja possível para essa pessoa, com tudo o que isso implica. e sim, percebo que isso possa causar urticária a alguns, ainda que ALA não fosse propriamente um aristocrata, mas também sei que a literatura nunca foi para todos. nem a confecção, nem o consumo.
 
portanto, ainda bem que houve um António Lobo Antunes, esse homem que verteu para literatura a psicanálise mítica do destino português, por Eduardo Lourenço ensaiada, esse homem que disse que ter os seus livros na Bibliothèque de la Pléiade era o seu Nobel, e que nos explicou que a crónica é a piscina dos pequeninos, em que a água ao escritor fica pelos joelhos, neste país pequenino em que é raro aparecer gente rara (não acredito que abunde, ao contrário daquilo de que me tentam convencer) e em que as pessoas lhe conhecem mais as crónicas (que ALA só escrevia porque lhe pagavam) do que os romances, num lastimável pretenso gesto de admiração que é inteiramente o seu inverso.
 
por aqui me fico, que já não sei para onde ia.
 
alf 

11/07/2025

 

Fernando Guimarães (03.02.1928 — 11.07.2025)

 

Poeta único (mesmo único) e incansável, ensaísta extraordinário, professor de/para várias gerações, deixa vasta obra, de qualidade contínua inegável. Sendo certo que já não se fazem homens assim (da sua disponibilidade e da sua gentileza têm sido deixados inúmeros testemunhos nas redes sociais desde o dia de ontem), não menos certo será afirmar que poetas assim não surgem a toda a hora.

Combinava o conhecimento literário, a estética, um certo pensamento especulativo (que tornava tantos dos seus poemas em filosofemas, algo que partilhava com o seu amigo Fernando Echevarría), o amor pelas artes plásticas e pela música, com uma linguagem poética própria onde parecia caberem mundos vários, e de onde, apesar disso, estava ausente Fernando Guimarães.

Feito extraordinário, numa obra iniciada na década de 50 e cujo último título é deste ano. Entre "A Face Junto ao Vento" e "Sobre a Voz", fica um legado poético povoado por intertextualidades, palimpsestos, écfrases (no sentido grego/estrito e no sentido mais lato/moderno de exercício meditativo a partir de), mas também exemplos sem igual de metapoesia, assim como textos habitados por personagens, normalmente, de outros tempos.

Essa alteridade, não raro, manifestava-se, por convocação de figuras femininas, como mostram os poemas sobre a violação de mulheres em tempos de guerra ou uma longa fala de uma mulher idosa, entre tantos outros. Além de poemas a partir de esculturas, telas, música dita erudita, ou de convocação de mitos ou de figuras mais ou menos anónimas mas universais, a poesia de Fernando Guimarães adquiria, em momentos altos, uma forte e rara carga simbólica, provavelmente inigualável no panorama da poesia portuguesa, a partir de palavras-imagens que logo se tornavam centros nevrálgicos ou rizomas/pontos de partida.

Disso são exemplo os poemas em torno do conceito de árvore ou de casa, que em dois ou três versos passavam da definição diccionarizada para expansões metafóricas produtoras de inusitados sentidos múltiplos. Nos últimos livros (entra, estilo tardio), as meditações acerca da morte intensificaram-se, de mão dada com um tom elegíaco que homenageava a sua esposa, Maria de Lourdes Guimarães (falecida em 2021), também autora e tradutora.

Além da produção poética, FG deixa vasta obra ensaística, da qual se destacam estudos sobre o Simbolismo e o Modernismo, mas também sobre a poesia contemporânea ou a ligação entre literatura e artes plásticas, tema que lhe era muito caro e que lhe inundou a obra tanto na vertente poética quanto na recensão/ensaística. Se a sua obra poética foi vigilantemente editada e reeditada/recompilada, como mostram as sucessivas recolhas por entre novos livros (na Modo de Ler, nas Quasi e na Afrontamento), urge reeditar alguma da sua obra ensaística, há muito esgotada.

Disso são exemplo algumas obras de estética editadas in illo tempore pela Presença ou obras sobre o Romantismo e sobre o Modernismo editadas pela Lello nos anos 90, quando a Lello ainda era a Lello... Como se não fosse tudo isto já extraordinário, colaborou ainda com várias revistas e alguns jornais, que me coíbo aqui de listar, e foi ainda tradutor, entre outros, de Shelley, Keats ou Dylan Thomas. Poderia dizer-se que aquele verso de Camões, tão citado e deslocado por tudo e por nada - "Para tão longo amor tão curta a vida" - serve a Fernando Guimarães como a muito poucos.


alf

 

 
 


 

11/09/2019

      In memoriam

     Soube há pouco da partida da prof.ª Matilde Pimenta. Depois de uma série de professoras de português que pouco me ensinaram para além do que estava nos manuais, a prof.ª Matilde Pimenta pôs-me, em definitivo, a ler. Não porque era o que me competia, mas porque queria compreender. Numa altura em que a obra obrigatória para leitura ainda não era "Memorial do Convento", de Saramago, mas "Aparição", de Vergílio Ferreira, a prof.ª Matilde conseguiu despertar o meu interesse, fez-me ir à procura - linha a linha. Quem já leu VF sabe que não é um autor fácil, talvez menos fácil quando se tem quinze ou dezasseis anos. Quando publiquei o meu primeiro livro, embora fosse - hoje sei - um livro fracote, quis levar-lho e fui bater à sua porta. Quis que ela soubesse que fizera parte, que fazia parte daquele meu caminho. Que faz e fará parte. Não sei se chegou a ler o mais recente, mas o que importa um livro na máquina do mundo? 

      O que importam as palavras quando uma professora doente oncológica é dada como apta para leccionar por uma junta médica e, por extensão, pelo estado português? Mas agora calo-me. Os anos, os anos... Não sei nada, volto a ser aquele adolescente numa mesa de escola, a tentar perceber o Bexiguinha dentro de mim, hoje domado, e em mais ou menos amena conversa com outros personagens de VF e de outros autores. Nesta hora em que a prof.ª Matilde vai para a sua última colocação, endereço à família os meus mais sinceros sentimentos. E a vocês que não a conheceram, mas que, espero, tenham também tido uma prof.ª Matilde no vosso percurso, um excerto de "Aparição", que, está decidido, vou reler:

      "Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. [...] Que me é todo o passado senão o que posso ver nele do que me sinto, me sonho, me alegro ou me sucumbo? Que me é todo o futuro senão o que agora me projecto? O meu futuro é este instante desértico e apaziguado. Lembro-me da infância, do que me ofendeu ou sorriu: alguma coisa veio daí e sou eu ainda agora, ofendido ou risonho: a vida do homem é cada instante - eternidade onde tudo se reabsorve, que não cresce nem envelhece -, centro de irradiação para o sem-fim de outrora e de amanhã. O tempo não passa por mim: é de mim que ele parte, sou eu sendo, vibrando."


alf

29/01/2019

Rui Caeiro (1943-2019)



Diante da morte, diante de um suicida perante a morte, é de muito mau gosto lançar mão de qualquer tipo de literatura. Em tal situação, e perante um tal conviva, não tem qualquer préstimo o arsenal dos subterfúgios. Só talvez o silêncio. O silêncio que a morte faz à sua volta, quando acontece. Quando, por acaso maior ou menor e com mais ou menos solenidade, acontece.
Diante da morte, como em quase tudo, também é preciso distinguir. Há o que é importante e o que não não é.
O que não é, pôr de lado. Não deitar fora mas, resoluto, pôr de lado. Diante da morte não há tempo a perder. Frieza e paixão devem ser habitualmente doseadas.
Diante da morte o importante é sentir. Sabe-se lá como. E o quê.
A morte, provavelmente. O tempo que falta até lá. O que ainda resta.
Sentir, degustar o tempo esse como um percurso: de aprendizagem. de exaltação, de sabedoria.
Diante da morte o importante é estar.

*

Pois morre-se de muita coisa, de muita coisa
se morre, morre-se por tudo e por nada
morre-se sempre muito
Por exemplo, de frio e desalento
um pouco todos os dias
mas de calor também se morre
e de esperança outro tanto
e é assim: como a esperança nunca morre
morre a gente de ter que esperar
Morre-se enfim de tudo um pouco
De olhar as nuvens no céu a passar
ou os pássaros a voar, não há mais remédio
ó amigos, tem que se morrer
Até de respirar se morre e tanto
tão mais ainda que de cancro
De amar bem e amar mal
de amar e não amar, morre-se
De abrir e fechar, a janela ou os olhos
tão simples afinal, morre-se
Também de concluir o poema
este ou qualquer outro, tanto faz
ou de o deixar em meio, o resultado
é o mesmo: morre-se
Data-se e assina-se – ou nem isso
Sobrevive-se – ou nem tanto
Morre-se – sempre
Muito

in "Sobre a Nossa Morte Bem Muito Obrigado", &etc, Lisboa, 1989





Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem

in "Livro de Afectos", ed. autor, Lisboa, 1992




A dois passos

Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso — esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno — estava-se bem.

'Do inferno – cinco aproximações', in "Telhados de vidro nº 12", Averno, maio de 2009





O nosso amor não é coisa que se apresente
a uma sociedade como esta cujas exigências
stop que é do nosso amor que se trata
o nosso amor cheira às folhas podres de Outono
e quanto a reverdecer vou ali e já venho
o nosso amor está de rastos e como há-de ir
o nosso amor coelho esfolado o nosso amor
disco partido o nosso amor rato morto o nosso
amor ovo cozido ovo estrelado porque isso tanto faz
o nosso amor osso esburgado o nosso amor
brinquedo que um menino esventrou e não sabe
agora como é que vai poder consertar
o nosso amor chá de tília choque
anafilático paragem cardíaca
mas nosso amor apesar de ou nosso amor
tudo e mais alguma coisa o nosso amor
cinco sentidos viste-o ouviste-o tocaste-o
cheiraste-o degustaste-o o nosso amor
seja ou não seja e esteja ou não esteja
ele é para já e largamente quanto basta

*


Um poema de amor que ninguém
tivesse feito e só um merecesse
e só o outro entendesse

E aí estaria ele o amor
em estado de pura nudez
litográfica à século das luzes


*

Um sinaleiro invisível manda parar o trânsito
há uma pausa brutal no bulício da cidade
Soa a campainha da porta, entras furtiva-
mente, sorris acanhada e logo começas
a abandonar sapatos e a despir a roupa em gestos
sacudidos. Grande é a importância que me dás
Por momentos tudo vais trocar pelas minhas mãos

in "O Quarto Azul e outros poemas", Livraria Letra Livre, 2011






Refastelado no veludo negro
do inferno, um gato
espera por mim

Espera por mim, negro
e macio, confortável-
mente sentado à porta do inferno

Desde sempre à minha espera
aconchegado no veludo negro
do inferno

Resignadamente sentado
à porta do inferno
à espera de quê ou de quem
— ou de mim? — o gato

in "Um Gato no Inferno", ed. autor, Lisboa, Julho de 2013

27/11/2018

            o primeiro contacto que tive com a obra de Bertolucci (1941-2018) foi o seu 1900, filme que de certo modo fecha o período neo-realista da sua filmografia. nunca mais consegui apagar da memória a cena em que Atilla, o fascista interpretado por Donald Sutherland, mata uma criança aterrorizada, numa espécie de acidente procurado, sem remorso, partindo-lhe a cabeça de encontro a uma coluna. até hoje esta cena persegue-me bem mais do que salós e sucedâneos. 
            seguiu-se Último Tango..., que não me impressionou absolutamente nada, e La Luna, já de 1979, que inaugura o Bertolucci que mais me interessa. sempre vi este filme como uma tentativa de trazer a tragédia grega para os nossos dias, projecto que me parece conseguido e continuado nos dois últimos filmes: The Dreamers e Me and You (embora neste último se sentisse alguma bonomia porventura escolhida por ser a despedida), ao mesmo tempo mostrando os sonhos falhados de uma certa geração, quer pela big picture do maio de '68, por ex., quer pela falência da instituição família. 
            posso também falar de filmes em que o espaço – natural ou aquele erguido pela mão humana – tem um papel preponderante: é por esta lente que escolho apreciar filmes tantas vezes criticados pejorativamente, como The Sheltering Sky (muito distante do livro que o originou, é certo), Little Buddha, ou Besieged, em que a vida interior das personagens e a paisagem exterior se relacionam - por analogia ou por contraste. 
            mas se tivesse de escolher um filme para apresentar o realizador a quem nada dele conheça, decidir-me-ia por The Conformist, de 1970. neste filme, bem como em The Spider's Stratagem (este baseado num conto de Borges), temos a big e a small picture – o fascismo e a disfuncionalidade familiar – tudo a partir da ideia de conformismo, de um quotidiano falsamente asséptico, num cocktail que junta espionagem, drama, intervenção, fazendo-nos questionar o que é afinal a normalidade, ou se tal conceito é sequer válido. 
            também se pode já ver ali o cuidado com o espaço, com o modo como este pode ser filmado para transmitir uma determinada mensagem – seja a luz, seja a aproximação da câmara, por vezes a lembrar Godard – quer nos interiores, quer nos exteriores. escolho-o porque é urgente revê-lo, perceber porque nos interpela, porque nos faz pensar no passado, no presente e no futuro, como se as coisas não tivessem mudado assim tanto (será que mudaram?). escolho-o porque é um filme que nos pede agitação, revolta, revolução.


amadeu liberto fraga

06/06/2018

     Albano Martins deixou-nos hoje. 

    recordo a sua presença discretíssima sempre que ia à livraria em que trabalhei longos anos, em gaia, para encomendar a colóquio-letras ou outras revistas entretanto extintas. lembro-me de tantas e tantas vezes ter dito para mim mesmo que havia de lhe pedir que me assinasse o "As Escarpas do Dia", mas ficava sempre para a próxima porque não queria importuná-lo. 

    recordo também uma aula de 'estética e filosofia da linguagem', no meu último ano de licenciatura, cadeira opcional ministrada pela professora dra. Maria Luísa Malato, dada quase na íntegra a partir de um poema de Albano Martins. lembro-me do estremecimento e da vergonha que senti, misturados com sentido de responsabilidade, quando, em 2016, e a convite de Victor Oliveira Mateus, publiquei um poema na revista 'Cintilações', onde constava, entre outros, um poema de Albano Martins. 

    este homem deixa-nos uma obra lírica rigorosíssima, pulso implacavelmente seguro desde o primeiro verso, capaz de ombrear sem pedantismo com os gregos antigos ou com alguns nomes da geração de '27. foi, e digo-o sem quaisquer termos comparativos, o único poeta português capaz de se inserir na mesma linhagem de poetas a que pertencia Eugénio, sem ser epígono de ninguém. deixa-nos ainda uma "Antologia de Poesia Grega Clássica", devedora de duas traduções francesas de referência, uma pessoalíssima antologia designada "Três Momentos da Poesia Europeia", a premiada tradução de "Canto Geral", de Pablo Neruda e "Poemas do Desterro", de Ovídio, além de alguns livros infantis. 

    nestes tempos que fingimos viver é cada vez mais raro ter acesso a vozes como a de Albano Martins, quando a narrativa poética vigente, e à laia de oficial, é cada vez mais a de uma poesia pop tipo pastilha elástica disparada por grandes grupos com autores consagrados no facebook e nas colunas de jornais amigas do amigo. aos leitores de poesia aviso: é importante lê-lo, relê-lo, tirar lições, ou pelo menos notas. se o não fizeram...


Um dos Capítulos
Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.



04/05/2015

(a pedido de alguns amigos leitores, reponho aqui um texto então escrito a quente, agora retocado aqui e ali. permanece apenas um registo, mantém-se o essencial.)

            soube da morte de Herberto Helder por mensagem. o meu telemóvel é agora um instrumento de morte. menti à amiga que ma comunicou e disse que me tinham vindo as lágrimas aos olhos: a verdade é que chorei como um menino, encolhido no assento do autocarro que me levava para uma aula na faculdade. uma falta de respeito pelo poeta, eu sei. talvez uma falta de respeito para com a sua família, também. ainda assim, não soube conter as palavras que desaguavam nos meus olhos. de cada vez que repetia mentalmente “gregos”, “necrológios”, “paixão”, ria e chorava ao mesmo tempo. nessa bendita aula, uma professora-autora falou acerca do poeta a uma turma mais ou menos interessada, mais ou menos conhecedora. fiquei em silêncio a tentar enganar a amiga da mensagem, que também lá estava. a cada comentário ou paragem cerebral de não-leitores, repetia para mim que “a morte é passar, como rompendo uma palavra, / através da porta, / para uma nova palavra”.
            foi uma homenagem conseguida, para quem lá esteve. não desejaria estar noutro sítio. eu estive a meio gás, pensando que, na sua hora, Herberto terá levado “(...) uma flecha / pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado / loucamente / por um caçador de que nada se sabia.” no dia em que o poeta do corpo deixou o seu corpo – ironia terrível – multiplicaram-se as partilhas de poemas e manifestações públicas de amizade. eu não conhecia o poeta cujas mãos eram cítara, por isso me doeu que, como num relâmpago intelectual, tantos iluminassem tão grande obra num só dia; por isso “não posso ouvir cantar tão friamente”. eu não conheci “o” Herberto porque ele quis assim e eu também. a minha relação com o seu corpo poético estará sempre armadilhada: fuga e captura, em loop. de um ponto de vista geracional cheguei atrasado. enquanto leitor, até a morte procurarei aprender. os seus livros foram para mim uma “casinfância” na qual me formei leitor e homem, apalpando, cego, as “líricas rodas da vida”.
            cresci com aquele “leite cantante” que me ensinou que um poema se começa com o objecto mais vulgar – uma bic de tinta preta – e que assim se atinge o sublime, que “subindo pela caneta”, o poema regressa e “Tudo se levanta como um cravo, / uma faca levantada.” Herberto fez de leitores e obra um continuum, uma “devastação inteligente”. hoje, apetece-me dizer-te, Herberto, coisas que poucos entenderão. apetece-me lembrar quando cheguei à “assombrada roseira” que espalhaste no ventre de todas as mulheres e que, ora quente, ora fria, presidiu às relações, às mulheres que a mim se entregaram. ciciar-te que anseio pela roseira derradeira. apetece-me dizer-te que tenho muita vontade de cerrar “(…) os olhos para ouvir durante toda a noite, / e todo o mês, e recomeçando no interior / da minha vida – o sangue.” dizer-te que hoje sou como “Alguém que se deitasse / com um grito / dentro” não basta.
            apontado como ininteligível, respondeste: “Meu deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.” tudo o que se proferir para lá disso, será excrescência. a ti, como a ninguém, pertenciam o underground e o sagrado, o cósmico e o concreto. budista e hedonista, homem-língua do inominável, corpo-vaso do sopro sagrado, correndo “pelo orvalho dentro”. tu, que tantas vezes calçaste luvas de sangue para nos devolveres o terreno e o eterno, de quem não ficará registo “em nenhum écran do Deus descontínuo”, estás agora livre de todas as servidões. és uno e verbo. és, como quiseste, gramatical. não há despedida, sei onde te encontrar. que “funda manhã” aquela, fiquei-me dobra a pedir ar ao corpo. entrei na sala “de dentro para fora”, sorrindo educadamente “até cada objecto se encher de luz”. fraquejei, foi uma fracção. ou foi uma hora? ou foi... não. a professora-autora pressionou o play e eu encolhi-me de novo na cadeira, desta feita com inveja. a tua voz era só para mim. ou não era? lembrei que o dardo se atira “com o corpo todo”, fiz-me alvo. estóico. escutei.
            com o livro Servidões tornou-se evidente estarmos já de fora do poema contínuo: “ele que tinha ouvido absoluto para as músicas sumptuosas do verso livre / ouvia a cada nó de sílaba / um silêncio de morte”. da aflição que isto causou à crítica não falarei. aduzo apenas uma hipótese de leitor: o seu último livro – Poemas Completos – abandona a ideia de continuidade, pelo que leio a obra de Herberto como composta por três poemas. o primeiro aquele contínuo que termina com os inéditos de A Faca Não Corta o Fogo; o segundo Servidões, no qual “matou o poeta contínuo”; o terceiro A Morte Sem Mestre, no qual resolveu a sua biografia enquanto escrevia, a seu modo, um ars moriendi para ajudar, não a si mesmo, mas os seus leitores. não sei se esta dos três agradaria a Herberto; é que todo o tronco precisa de dois braços para viver e morrer. depois da desarrumação levada a cabo por Cesariny, Herberto Helder é o mælstrøm da literatura portuguesa. mesmo aos que não o lêem ainda, a esses “rebenta-lhes a flor na nervura”. doravante, muitos (se não todos) escreverão contra, porque a sua obra é “a frase de que” somos “filho”. daqui a uns dias talvez releia o Húmus, do Raul Brandão. agora vou mergulhar os polegares numa laranja.