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05/03/2026

 

António Lobo Antunes ( 01.09.1942 - 05.03.2026 )

o que pode dizer-se acerca de um autor da envergadura de ALA, para mais nos momentos que seguem o seu desaparecimento do plano físico? talvez esta pergunta básica explique, por um lado, o silêncio de algum do nosso meio literário, por outro os posts que se limitam a uma fotografia a preto e branco. independentíssimo, a esquerda nunca lhe perdoou que não fosse mais de esquerda, e a direita nunca engraçou com a atenção que dava às "coisas aqui em baixo". e isto dirá mais da pequenez do país do que da grandeza do escritor...
 
correndo o risco de não alinhavar mais do que um par de vulgaridades, ainda assim direi que o caso de ALA demonstra, indiscutivelmente, aquilo que há muito é sabido, mas que parece esquecido pelas gerações que se lhe seguiram: andar em "Letras" na faculdade e ler os amigos não basta para se ser escritor. vou mais longe: ALA jamais teria sido o escritor que foi, se não tivesse tido a experiência que teve com a guerra colonial, e se não tivesse o acesso que teve à alma humana através da sua actividade profissional enquanto psiquiatra.
 
"escreve sobre o que sabes" é o melhor conselho alguma vez dado por um escritor experiente a um novato, e a obra de ALA a prova da adequação desse conselho. desengane-se quem pensar o oposto: nos primeiros livros, ALA usou-se a si mesmo como barro para moldar a sua criação. quem pensam que é aquele médico que observa as filhas à distância nas páginas iniciais de "Memória de Elefante"? e se Barthes proclamara já a morte do autor, ALA começou uma luta escrita para se apagar do seu discurso, dando ao país um dos seus escritores mais inventivos.
 
quando chegamos a "Explicação dos Pássaros", aquele personagem suicidário é de certo modo o autor a matar o cidadão, para que a obra possa começar a ser outra coisa. e sim, o que isto tem de psicanálise e de Bloom... e, contudo, concedendo que ALA terá obras melhores em "As Naus", "Exortação aos Crocodilos" ou mesmo "O Arquipélago da Insónia", entre tantos outros admiráveis romances (e será que eram mesmo romances?), é nesses primeiros livros, creio, que está o melhor laboratório de criação de uma nova linguagem literária em Portugal.
 
naqueles primeiros livros, ALA exorciza-se a si mesmo, faz a sua catábase e a sua catarse, e chega a "Fado Alexandrino", ou "Auto dos Danados", como um novíssimo Orpheu que, tendo tido um segunda oportunidade, decidiu não olhar para trás. evidentemente, ALA continuou a olhar para trás e a carregar os fantasmas da guerra e da sua profissão para as páginas de livros futuros, mas depois dessas primeiras obras, ALA já era só escritor, e os biografemas tinham ficado para trás, o tratamento literário dos seus temas predilectos já não precisava de ecos da sua própria vida, pois bebia da vida dos outros, fossem esses outros reais, por interposta pessoa (companheiros de armas, amigos, vizinhos, pacientes) ou imaginados (títeres mais ou menos moldados, arquétipo ou biótipo idealizado para embalar a palavra a cada novo livro).
 
se nos primeiros livros temos o autor de braço dado com o cidadão privado, no poscénio, a ver a peça desenrolar-se, peça em que o cidadão entra e sai, hesitando entre actor e autor, nos livros seguintes resta o autor no poscénio, certo de que o palco será sempre o seu país, e de que nenhum personagem é demasiado pequeno para merecer uma menção, ou atenção plena, e.g., entre tantos outros citáveis, a governanta Tininha de "Manual dos Inquisidores".
 
no centro da sua obra está aquilo que tantos tentaram imitar sem sequer chegarem perto, e que fazia de ALA autor por uns adorado, por outros odiado: uma torrente discursiva com gramática própria, uma modernidade de inspiração quer francesa, quer anglo-saxónica, mas não só, do nouveau roman a Faulkner, de Kafka a Joyce, ou, porque não, de Woolf a Céline ou Proust.
 
uma torrente atravessada por episódios mais ou menos longos, em que a narrativa nem sempre parece ser o objecto último, com recurso a uma "stream of consciousness" à portuguesa, conceito literário importado da psicologia (há quem diga que não, mas eu continuarei a insistir que sim), entrecortado por acção e/ou diálogo e logo retomado, pejado de imagens inusitadas que a uns irritou (lembro a embirração de Liberto Cruz com essa técnica, que só elogiou quando, aparentemente, ALA não a exagerava) e a outros provocou admiração e desejo de a continuar.
 
por estes dias, em que o "attention span" da juventude parece reduzir-se drasticamente aos 30 segundos de vídeos tiktokianos e os interesses nos momentos de descanso se resumem a danças ao som de baile-funk-brasileiro, com letras de fazer corar o zezé camarinha ou até o tetraneto do marquês Donatien Alphonse, ou então a jogos no telemóvel, o fluxo discursivo, porventura excessivo, que caracteriza a escrita de ALA, entre a prosa e uma certa poesia, parece condenada a ser pouco lida por uma elite que saiba educar os seus filhos, ou por uns raros que, mais ou menos auto-didacticamente, descubram este e outros autores (qual será a fortuna crítica de um Rui Nunes, daqui a 50 anos?).
 
do futuro nada sei, ainda que saiba bem que o autor ALA só existiu porque a vida assim lho permitiu. não é qualquer pessoa que decide parar a sua vida profissional e dedicar-se à escrita, é necessário que isso seja possível para essa pessoa, com tudo o que isso implica. e sim, percebo que isso possa causar urticária a alguns, ainda que ALA não fosse propriamente um aristocrata, mas também sei que a literatura nunca foi para todos. nem a confecção, nem o consumo.
 
portanto, ainda bem que houve um António Lobo Antunes, esse homem que verteu para literatura a psicanálise mítica do destino português, por Eduardo Lourenço ensaiada, esse homem que disse que ter os seus livros na Bibliothèque de la Pléiade era o seu Nobel, e que nos explicou que a crónica é a piscina dos pequeninos, em que a água ao escritor fica pelos joelhos, neste país pequenino em que é raro aparecer gente rara (não acredito que abunde, ao contrário daquilo de que me tentam convencer) e em que as pessoas lhe conhecem mais as crónicas (que ALA só escrevia porque lhe pagavam) do que os romances, num lastimável pretenso gesto de admiração que é inteiramente o seu inverso.
 
por aqui me fico, que já não sei para onde ia.
 
alf 

11/07/2025

 

Fernando Guimarães (03.02.1928 — 11.07.2025)

 

Poeta único (mesmo único) e incansável, ensaísta extraordinário, professor de/para várias gerações, deixa vasta obra, de qualidade contínua inegável. Sendo certo que já não se fazem homens assim (da sua disponibilidade e da sua gentileza têm sido deixados inúmeros testemunhos nas redes sociais desde o dia de ontem), não menos certo será afirmar que poetas assim não surgem a toda a hora.

Combinava o conhecimento literário, a estética, um certo pensamento especulativo (que tornava tantos dos seus poemas em filosofemas, algo que partilhava com o seu amigo Fernando Echevarría), o amor pelas artes plásticas e pela música, com uma linguagem poética própria onde parecia caberem mundos vários, e de onde, apesar disso, estava ausente Fernando Guimarães.

Feito extraordinário, numa obra iniciada na década de 50 e cujo último título é deste ano. Entre "A Face Junto ao Vento" e "Sobre a Voz", fica um legado poético povoado por intertextualidades, palimpsestos, écfrases (no sentido grego/estrito e no sentido mais lato/moderno de exercício meditativo a partir de), mas também exemplos sem igual de metapoesia, assim como textos habitados por personagens, normalmente, de outros tempos.

Essa alteridade, não raro, manifestava-se, por convocação de figuras femininas, como mostram os poemas sobre a violação de mulheres em tempos de guerra ou uma longa fala de uma mulher idosa, entre tantos outros. Além de poemas a partir de esculturas, telas, música dita erudita, ou de convocação de mitos ou de figuras mais ou menos anónimas mas universais, a poesia de Fernando Guimarães adquiria, em momentos altos, uma forte e rara carga simbólica, provavelmente inigualável no panorama da poesia portuguesa, a partir de palavras-imagens que logo se tornavam centros nevrálgicos ou rizomas/pontos de partida.

Disso são exemplo os poemas em torno do conceito de árvore ou de casa, que em dois ou três versos passavam da definição diccionarizada para expansões metafóricas produtoras de inusitados sentidos múltiplos. Nos últimos livros (entra, estilo tardio), as meditações acerca da morte intensificaram-se, de mão dada com um tom elegíaco que homenageava a sua esposa, Maria de Lourdes Guimarães (falecida em 2021), também autora e tradutora.

Além da produção poética, FG deixa vasta obra ensaística, da qual se destacam estudos sobre o Simbolismo e o Modernismo, mas também sobre a poesia contemporânea ou a ligação entre literatura e artes plásticas, tema que lhe era muito caro e que lhe inundou a obra tanto na vertente poética quanto na recensão/ensaística. Se a sua obra poética foi vigilantemente editada e reeditada/recompilada, como mostram as sucessivas recolhas por entre novos livros (na Modo de Ler, nas Quasi e na Afrontamento), urge reeditar alguma da sua obra ensaística, há muito esgotada.

Disso são exemplo algumas obras de estética editadas in illo tempore pela Presença ou obras sobre o Romantismo e sobre o Modernismo editadas pela Lello nos anos 90, quando a Lello ainda era a Lello... Como se não fosse tudo isto já extraordinário, colaborou ainda com várias revistas e alguns jornais, que me coíbo aqui de listar, e foi ainda tradutor, entre outros, de Shelley, Keats ou Dylan Thomas. Poderia dizer-se que aquele verso de Camões, tão citado e deslocado por tudo e por nada - "Para tão longo amor tão curta a vida" - serve a Fernando Guimarães como a muito poucos.


alf

 

 
 


 

17/01/2021


    ( . . . )
 

    Convenhamos que o mundo ficaria bem mais pobre e mais vazio sem o Artista. Nenhuma classe, porém, está entre nós tão desprotegida. É certo que, geralmente depois de morto, o Artista beneficia de certas compensações... é falado, é lido e relido, comentado, antologiado, imitado, entra no património nacional. Donde se poderá então concluir que o costumado confronto com a cigarra é odioso e injusto, que da cigarra pouco fica para o seu semelhante e os vindouros, mas do Artista fica muito em relação do que deixa a maioria dos seus contemporâneos, que é caca. 

    Denunciemos com toda a energia a fórmula, hipócrita e falsamente optimista que 𝑎𝑚𝑎𝑛ℎ𝑎̃ 𝑒́ 𝑑𝑜𝑠 𝑙𝑜𝑢𝑐𝑜𝑠 𝑑𝑒 ℎ𝑜𝑗𝑒 (e, Pessoa, que pôs a correr em verso esse lugar-comum, o exibe melhor que ninguém: o "louco" era ele e os "de juízo", os sensatos espertalhões, é que descobriram 𝑢𝑚𝑎 𝑚𝑖𝑛𝑎 na sua obra). Quando se vê que as videirinhas formigas tomam conta, cedo ou tarde, do canto da cigarra para se alambazarem à sua custa, em boa-fé somos levados a admitir que o canto sempre vale alguma coisa e sendo assim, a própria cigarra, como vivente, vale alguma coisa e justo será que seja ela, antes de ninguém, a lucrar com isso, ao menos para não morrer de fome e frio, tiritando a dançar no Inverno, como quer a fábula. E a formiga, claro!, para seu gozo e proveito.

    Meus Senhores, estimados Amigos, preclaros Confrades: esta situação é ignóbil e ridícula, e para quem a sofre é pior, porque é atroz, inibitória para o Artista, vexatória para a sociedade. Não deve continuar, e tem-se mantido um pouco também por distracção, passividade dos principais interessados. A minha tese é esta: pelo respeito que nos merecem 𝑜𝑠 𝑙𝑜𝑢𝑐𝑜𝑠 𝑑𝑒 𝑜𝑛𝑡𝑒𝑚 temos de ser hoje 𝑡𝑎̃𝑜 𝑙𝑜𝑢𝑐𝑜𝑠 𝑐𝑜𝑚𝑜 𝑒𝑙𝑒𝑠, ou mais, sabido que cada época tem seu tipo e grau de 𝑙𝑜𝑢𝑐𝑢𝑟𝑎 𝑐𝑟𝑖𝑎𝑑𝑜𝑟𝑎, e marcar, desde já, a nossa reserva e o nosso desdém pelos sensatos espertalhões que nos querem comer as papas na cabeça, como parasitas do Artista que são e agem. Que não contem com a nossa cumplicidade! que não apostem na nossa doce aquiescência!... Que não trocem muito e para sempre! do artista, que lhes pode puxar as orelhas em justiceira prosa jocosa. Quando meterem a foice na seara que é nossa, por amor nosso e nosso direito comprado com sangue, serão mordidos, 𝑐𝑎𝑣𝑒 𝑐𝑎𝑛𝑒𝑚! E a tese tem um corolário: melhor é ajudar um artista 𝑛𝑎 𝑑𝑢́𝑣𝑖𝑑𝑎 (de que venha a realizar-se em grandeza, de que prossiga a obra que se propõe) que não apoiar um Artista que fracassará, poderá fracassar, sem esse apoio. No primeiro caso, não se perde grande coisa, fez-se caridade (até porque, como é natural, geralmente apenas lhe demos do nosso supérfluo); no segundo caso... sim, aí a perda foi incalculável. Para o Artista, para nós, para a sociedade. Não acham? E com equívocos destes, alguns fatais, está a História da Arte bem documentada. Entre nós, o mais conhecido e motivo de maior escândalo é Camões, 𝑡𝑎̃𝑜 𝑝𝑜𝑏𝑟𝑒, 𝑡𝑎̃𝑜 𝑝𝑜𝑏𝑟𝑒 𝑞𝑢𝑒 𝑣𝑖𝑣𝑖𝑎 𝑑𝑒 𝑎𝑚𝑖𝑔𝑜𝑠... Uma vergonha nacional.

    Atendo-me à criação literária, onde o meu depoimento pode rechear-se de testemunhos vividos e exemplos significativos, afirmo que esta é, em Portugal, salvo as honrosíssimas excepções da praxe, e são mui poucas, uma farsa e uma fraude pegada. Que sendo entre nós o escritor profissional uma ave rara, ele se encontra sem nenhuma protecção legal ou as que há são tão mesquinhas do ponto de vista prático, que é quase o mesmo. Que se pagam hoje em Portugal quantias irrisórias - por um artigo, um romance, uma tradução, etc., e comparadas com outros salários nos revelam que a profissão do escritor é das que menos garantias oferece, das que menos dinheiro aufere (e o escritor é um bípede que come, que diabo!). A um Amigo meu, muito íntimo, que trabalha há anos (reparem: ℎ𝑎́ 𝑎𝑛𝑜𝑠) e exclusivamente (leram bem? eu disse: 𝑒𝑥𝑐𝑙𝑢𝑠𝑖𝑣𝑎𝑚𝑒𝑛𝑡𝑒) como escritor, perguntava-lhe outro dia o que aconteceria se, longe o agoiro!..., se lhe faltasse de repente a vista, ou o ouvido (ele é crítico musical, e dos mais excelentes, dos mais combativos): qual era o enquadramento de Previdência que lhe daria amparo, o socorria no doença, ou na invalidez, ou na velhice, até numa simples dor de dentes, em suma aquilo de que dispõe, e com todo o direito corporativo e legislação social adequada, um servente de tipografia.

𝑁𝑎̃𝑜 𝑠𝑜𝑢𝑏𝑒 𝑞𝑢𝑒 𝑚𝑒 𝑟𝑒𝑠𝑝𝑜𝑛𝑑𝑒𝑟. 𝐸 𝑒𝑢 𝑎𝑔𝑜𝑟𝑎 𝑔𝑜𝑠𝑡𝑎𝑟𝑖𝑎 𝑞𝑢𝑒 𝐴𝐿𝐺𝑈𝐸́𝑀 𝑚𝑒 𝑓𝑜𝑠𝑠𝑒 𝑐𝑎𝑝𝑎𝑧 𝑑𝑒 𝑟𝑒𝑠𝑝𝑜𝑛𝑑𝑒𝑟 (𝑜𝑢 𝑒𝑥𝑝𝑙𝑖𝑐𝑎𝑟, 𝑠𝑒 𝑎 𝑚𝑖𝑛ℎ𝑎 𝑝𝑒𝑟𝑔𝑢𝑛𝑡𝑎 𝑛𝑎̃𝑜 𝑒𝑟𝑎 𝑎𝑝𝑜𝑑𝑖́𝑐𝑡𝑖𝑐𝑎) 𝑝𝑜𝑟 𝑒𝑥𝑒𝑚𝑝𝑙𝑜, 𝑆. 𝐸𝑥.ª 𝑜 𝑀𝐼𝑁𝐼𝑆𝑇𝑅𝑂 𝐷𝐴𝑆 𝐶𝑂𝑅𝑃𝑂𝑅𝐴𝐶̧𝑂̃𝐸𝑆, 𝑜𝑢 𝑜 𝑚𝑒𝑢 𝑝𝑟𝑒𝑧𝑎𝑑𝑜 𝑑𝑟. 𝑀𝑎𝑛𝑢𝑒𝑙 𝑑𝑎 𝑆𝑖𝑙𝑣𝑎 𝐿𝑒𝑎𝑙, 𝑑𝑎 𝐽𝑢𝑛𝑡𝑎 𝑑𝑒 𝐴𝑐𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑆𝑜𝑐𝑖𝑎𝑙.

    E porquê é uma excepção o escritor profissional neste nosso belo país? por que espírito de resignação, gáudio alvar de analfabetos, se costuma repetir alegremente que aqueles que vivem da pena entre nós se contam pelos dedos duma mão? Mas há algum povo dito civilizado onde isto seja assim?! onde isto pareça coisa fatal e natural, e dizê-lo em voz alta constitua um diagnóstico decente para repetir muitas vezes em público?! Então, não teremos precisão, ou não merecemos, técnicos abalizados da escrita?!... Contentamo-nos toda a vida com curiosos, amadores, jornalistas sabujos, e semi-fradescos retóricos da pluma?! Lembremo-nos, para vergonha nossa, que ainda há meia-dúzia de anos não se podia averbar no Bilhete de Identidade a profissão de 𝑒𝑠𝑐𝑟𝑖𝑡𝑜𝑟, no Arquivo de Identificação de Lisboa 𝑛𝑎̃𝑜 𝑎 𝑐𝑜𝑛ℎ𝑒𝑐𝑖𝑎𝑚!... (Ignoro como ali se processa agora legalmente tal qualificação, mas creio ter ouvido dizer que era por meio de uma declaração da Sociedade Portuguesa de Escritores. Ora valha-nos isso!... que já temos uma instituição que toma medidas importantes e vela pelos interesses do escritor... Mas esta é matéria em que me não quero adiantar, porque poderei estar enganado ou iludido. Se já me disseram que a S.P.E. se tratava de um clube de foliões das letras, divididos por mesquinhas querelas e politiquices internas, e passando o tempo em zaragatas e em beberetes de recepção a estrangeiros!... Mas há gente muito má-língua e não podemos dar ouvidos a tudo: o certo ao certo é que não sei o que lá se passa, moro na Província).

( . . . )


Luiz Pacheco, in "O Cachecol do Artista", 1ª ed., Contraponto, 1965, Santarém


 

02/01/2021

 «A atracção exerce-se na ausência de quem se ama», deixou ele pelas paredes.
O que me comoveu, como silêncio.
 

Maria Gabriela Llansol, in "O Texto-Catarina", pág.35, 1ª ed., Sr. Teste Edições, 2020, Lisboa

 

https://www.instagram.com/p/CJbcCSiMFx7/?hl=pt

 

06/09/2019

Herberto Helder, registos da PIDE

(1) 1960 - por declarações quando ao serviço das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian;
(2) 1963 - primeira página de um poema destinado à revista "O Tempo e o Modo", cortado pela censura em Março daquele ano;
(3) 1968 - a propósito de "Apresentação do Rosto".


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(2)
(3)

fonte: https://ephemerajpp.com/


05/09/2019

     Surpreendeu-se a descer de novo a escada. Estava realmente muito fatigado. Descia degrau a degrau, à maneira dos velhos ou das crianças muito pequenas. Sentia as mãos húmidas e enclavinhava-as sobre o corrimão, como se aos seus pés se abrisse um precipício. A chuva batia na clarabóia e esse ruído das gotas sobre o vidro sempre o enervara. Durante todo o Outono, não cessara de chover - dias cinzentos sucediam-se a dias cinzentos. Parecia que a própria Natureza se encarniçava contra ele. 

Graça Pina de Morais, in <Os Incomunicáveis>, conto do livro "Na Luz do Fim", Delfos, Lisboa, 1951

à esquerda: capa do livro Na Luz do Fim ; à direita: a autora à janela do escritório das Quintans onde costumava escrever

 Seguindo o link, testemunho da sobrinha da autora: http://escritoresanorte.pt/temas.aspx?id=76

29/07/2018

Fingem, as palavras: uma casa é uma casa, um medronheiro é um medronheiro, uma montanha é uma montanha, uma rosa é uma rosa. Esta neutralidade apazigua: é um quarto de hotel: entra-se nele como se se acabasse de nascer. Tudo é estável. Não há sequer a ameaça de uma recordação nem a imprevisibilidade do futuro: estamos num presente sólido: a janela dá para o parque, os pombos voam pela primeira vez, as crianças chamam pela primeira vez, o homem de fato de treino corre pela primeira vez. Como num filme, tudo se põe em movimento à voz do realizador: acção.
:
A escrita destrói a inocência do medo. Fica a suspeita, essa transversal que modela uma faca
Rui Nunes, in "A Margem de Um Livro"





11/05/2016

I

noutros tempos sim a gaivota como inúmera serenidade
antes dos sacos de lixo onde se abastecem e resistem
procuro gaivotas reais descubro voos que comem destroços
procuro num livro calha ser o apocalipse
uma águia lamenta-nos dos céus (8:13)
procuro águias ainda pior envenenaram até as pombas
restam as gaivotas sim as gaivotas resistem
nem reais nem régias perfurando o látex
que preparava a milenar eternidade
gaivotas reciclando naufrágios e o nome da nossa inutilidade
fantasma da nossa excelência no exangue céu de Patmos
toleradas vidas de trapos soluçando sobre as toxinas
no nosso mar de cinzas e balanças sem afinação
suspensas e condensadas na réstia de um vento em declive
e a ninguém lembra já a engenharia pura dos ninhos


II

que assim se cubra quanto tanto se celebra
que a si própria seja estranha a poeira a que se chama glória
e exista sempre inquieta no seu manso espectáculo
que se dissimule como pouca coisa
o que sustenta o mundo e diz as profecias
que se reduza à cinza da modéstia
o fogo maior do orgulho e sua fusão a frio
e que a honra repetidamente apregoada
seja só súplica de silêncio e ervas salgadas
que o todo seja quase nada e sempre preferido Barrabás
e todos morram de sede comendo panem et circenses
e que também afinal o quase nada do que resta de tudo
precise de se mostrar brilhando sob o sol
que o santo se pavoneie (e só mergulhando
de asas abertas no diabo se possa vencê-lo)
tudo isso
tudo isso e o mais que não fique dito
na têmpera deste poema orgulhoso e descoberto
tudo isso
a ninguém lembra


Pedro Eiras, in Revista Inimigo Rumor nº 15, 2003