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29/07/2018

Fingem, as palavras: uma casa é uma casa, um medronheiro é um medronheiro, uma montanha é uma montanha, uma rosa é uma rosa. Esta neutralidade apazigua: é um quarto de hotel: entra-se nele como se se acabasse de nascer. Tudo é estável. Não há sequer a ameaça de uma recordação nem a imprevisibilidade do futuro: estamos num presente sólido: a janela dá para o parque, os pombos voam pela primeira vez, as crianças chamam pela primeira vez, o homem de fato de treino corre pela primeira vez. Como num filme, tudo se põe em movimento à voz do realizador: acção.
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A escrita destrói a inocência do medo. Fica a suspeita, essa transversal que modela uma faca
Rui Nunes, in "A Margem de Um Livro"





18/06/2017

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O simultâneo é a única ordem que consegues dar ao mundo. A ordem do mundo. Nunca a ordenação. Tens lá atrás deus a olhar pelos teus olhos, a fingir que os teus olhos são os dele. E tu, iludido, julgas que percebes: porque o cedro está perto da casa, a fechadura está perto da chave, a cadeira está perto da mesa, o verdilhão que pousou no parapeito está perto do vidro que o separa da morte, mas por essa coesão entram as fábricas que expulsam o fumo ininterrupto, os cartógrafos que reduzem as geometrias das cidades, o homem que se deita na erva de olhos esbugalhados, a progressão dos exércitos: o simultâneo é a ilusão de que os olhos de deus vêem pelos teus olhos.
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Eis a manha da eternidade.
Depois, só a manhã do que é sujo.

Rui Nunes, in "A Crisálida"