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22/01/2021

                        Traz-me Um Tempo

 
                        Traz-me um tempo sem mistério.
                        Um tempo sem mácula e límpido,
                        comigo sentado na soleira
                        por entre o zunido dos insecto 
                        e a cantilena dos homens no lagar.
 
                        Devolve-me os gestos que julgava perdidos.
                        Não me fales de viagens!
                        De cidades onde não vivi,
                        dos corpos que consumiste
                        em aventuras mais ou menos frustradas,
                        quando eu nem miragem era.
 
                        Cala o que me desarma,
                        o que me avoluma o tédio:
                        a imagem desses bares onde bebias,
                        nessas noites em que tropeçavas noutros
                        e eu não passava de uma impossibilidade
                        a fermentar numa paisagem
                        antecipadamente derrotada.
 
                        Concede-me de novo esse tempo sem mistério,
                        um tempo cristalino,
                        um tempo de loucura e inocência,
                        um tempo de desejos transparentes,
                        de corpos ardentes e simples
                        como só as coisas puras conseguem ter.
 
                        Victor Oliveira Mateus, in "Aquilo que não tem nome", Coisas de Ler, 2018, Lisboa
 

 

20/12/2018

Inventário Incompleto

Há uma janela aberta sobre as fráguas.
Há um olhar descendo em cascata até ao vale.
Um barco largando o ancoradouro
e, ignorando meu poente,
lá vai subindo o Douro
como este nada querer rumo à nascente.

Há o inquebrantável poder da memória,
uma liturgia com travos de recomeço
a serpentear a evidência do fim.
E há uma ara entre a janela
e a melancolia da casa,
uma ara onde os sacrifícios atenuam
esta evidência que não se consegue dizer.

Há, no final da página, um ponto,
um ponto infinito como ditame
de qualquer deus que se oculta e diz.
E há também o grasnar dos gansos,
o sol a dar de chapa no vinhedo,
o rodar dos carros no asfalto...
Mas o que não há (nem nunca
poderá haver!) é a morte
desta qualquer coisa que não tem nome.


Victor Oliveira Mateus, in "Aquilo Que Não Tem Nome"



05/11/2018

No próximo sábado, 10 de Novembro de 2018, pelas 16 horas, Graça Pires apresenta a obra de Victor Oliveira Mateus; Victor Oliveira Mateus apresenta a obra de Graça Pires. Duas obras editadas pela Coisas de Ler na colecção de poesia Clepsydra. Será na livraria Ferin, no nº 70 da Rua Nova do Almada, Lisboa.

https://www.facebook.com/events/342136329690404/


12/02/2018

"Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio", Nº 2 fevereiro 2018





COORDENAÇÃO

Victor Oliveira Mateus

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CONSELHO EDITORIAL


Ana Cecilia Blum (Equador), António Carlos Cortez (Portugal), Daniel Gonçalves (Portugal), Hugo Pinto Santos (Portugal), José Ángel Garcia Caballero (Espanha), Leonor Castro (Portugal), Maria João Cabrita (Portugal), Maria João Cantinho (Portugal), Marta López Vilar (Espanha), Mbate Pedro (Moçambique), Mirna Queiroz (Brasil), Ricardo Gil Soeiro (Portugal), Risoleta Pinto Pedro (Portugal), Ronaldo Cagiano (Brasil), Stefania Di Leo (Itália), Victor Oliveira Mateus (Portugal).
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COLABORADORES DO PRESENTE NÚMERO
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poesia:
Adalberto Alves, Albano Martins, Alberto Bresciani, Alberto Pereira, Alfredo Pérez Alencart, Álvaro Mata Guillé, Amadeu Liberto Fraga, Ana Cecilia Blum, Ana Luísa Amaral, Ana Maria Puga, Anderson Braga Horta, André Domingues, António José Borges, António José Queirós, António Salvado, Artur Ferreira Coimbra, Cláudia Lucas Chéu, Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Everardo Norões, Gisela Ramos Rosa, Gonçalo Salvado, Henrique Levy, Inês Lourenço, Isabel Mendes Ferreira, Isabel Miguel, João Ricardo Lopes, João Rui de Sousa, José Ángel Garcia Caballero, José do Carmo Francisco, José Eduardo Degrazia, Josep M. Rodríguez, Leonor Castro, Licínia Quitério, Manuel Neto dos Santos, Maria Augusta Silva, Maria do Cebreiro, Maria José Quintela, Maria Toscano, Maurício Vieira, Myriam Jubilot de Carvalho, Pedro Lyra, Pedro Sánchez Sanz, Pompeu Martins, Ricardo Gil Soeiro, Rita Taborda Duarte, Rui Almeida, Sandra Lopes, Stefania Di Leo, Victor Oliveira Mateus.
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ensaio:
André Barata, César Freitas, Hugo Pinto Santos, Jaime García Mafla, José Cândido de Oliveira Martins, Maria João Cabrita, Nuno Brito, Pedro Marques Pinto, Rosa Alice Branco, Victor Oliveira Mateus.
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caderno:
Maria João Cantinho.
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crítica literária:
Hugo Pinto Santos.
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prosa:
António Ladeira, Luísa Venturini, Paulo Pego, Pedro Martins.


30/10/2016

"Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio", Nº 1 setembro 2016.

Coordenação: Victor Oliveira Mateus




COLABORADORES:

Adalberto Alves, Albano Martins, Alberto Pereira, Alberto Riogrande, Alexandre Bonafim (Brasil), Alice Fergo, Amadeu Baptista, Amadeu Liberto Fraga, Ana Mafalda Leite, Ana Maria Puga, André Alves, António de Almeida Mattos, António Cândido Franco, Antonio Carlos Sechin (Brasil), António Ferra, António José Queiroz, António Salvado, Artur Coimbra, Carlos Afonso, Casimiro de Brito, Cecília Barreira, César A. Miranda de Freitas, Cláudia Lucas Chéu, Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Ernesto Rodrigues, Eugénia Bettencourt, Iacyr Anderson Freitas (Brasil), Inez Andrade Paes, Isabel Cristina Pires, Jeannette L. Clariond (México), Jessica Falconi ( Itália ), João Rasteiro, Jorge Velhote, José Jorge Letria, José Viale Moutinho, Julia Barella (Espanha), Julio Ferreira Leite, Luís Aguiar, Luís Fernando Chueca Field (Peru), Luís Filipe Pereira, Luís Filipe Sarmento, Luís Quintais, Maria Augusta Silva, Maria José Quintela, Maria Quintans, Marisa Martinez Pérsico (Argentina - Itália ), Mbate Pedro (Moçambique), Montserrat Villar González (Espanha), Orlando Barros, Paulo Inocêncio Moreira, Paulo Pêgo, Pompeu Miguel Martins, Renata Pallottini (Brasil), Renato Epifânio, Ricardo Gil Soeiro, Ricardo Marques, Rui Rocha (Macau), Ruy Espinheira Filho (Brasil), Samuel Pimenta, Sergio Laignelet (Colômbia - Espanha), Vicente Alves do Ó, Xavier Oquendo Troncoso (Equador), Xosé Lois Garcia (Espanha - Galiza).
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Nota: os poetas de Língua Castelhana foram todos traduzidos para Português por Victor Oliveira Mateus à excepção do poema de Montserrat Villar González que foi traduzido por Jorge Fragoso. O poema de Xosé Lois Garcia virá em Língua Galega, O ensaio de Jessica Falconi foi escrito directamente em Português.

16/06/2016

1.

Sobre esta terra me deito e digo sol
Digo-o na teimosia branda do casario, onde à noite as mulheres,
todas de esperança vestidas, enfeitam de pequenos búzios
a terrível margem do silêncio

Ah, ninguém já ousa semelhante Viagem!
Ou sequer um frágil aceno, como quem convoca, no rendilhado
das areias, a beleza de uma miragem; espécie de visão fulgurante
onde uma porta auspiciosa se firma

Sobre esta terra me deito e digo sol
Digo-o com o feliz desalento que sempre trago, com o desapego
de duas mãos na fértil aridez do Deserto

Victor Oliveira Mateus, in "Pelo deserto as minhas mãos"