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05/04/2020

 10

QUANTO PUDERES
(1913)
Mesmo se não puderes fazer a vida como a queres,
isto ao menos tenta
quanto puderes: não a desbarates

nos muitos contactos do mundo,
na agitação e nas conversas.

Não a desbarates arrastando-a,
e mudando-a e expondo-a
ao quotidiano absurdo
das relações e das companhias
até se tornar uma estranha importuna.

Konstantinos Kaváfis, 145 Poemas (trad. Manuel Resende), pág. 39, 1ª ed., Flop, Porto, Out. 2017 
 

03/04/2020

8

MONOTONIA
(1908)

A um dia monótono outro dia
monótono também, se segue. Dá-se
o mesmo, sempre, e uma e outra vez –
os instantes, os mesmos, vêm e vão.

Um mês passa e traz outro mês.
O que vem, qualquer um facilmente adivinha:
é esse aborrecido ontem,
e o amanhã já nem parece um amanhã.

Konstantinos Kaváfis, 145 Poemas (trad. Manuel Resende), pág. 33, 1ª ed., Flop, Porto, Out. 2017