13/06/2014


porque há dias em que devíamos estar em dois sítios ao mesmo tempo,
resta-nos rir para dentro do silêncio, um pouco loucos, um pouco lentos,
e pedir à língua que seja a ponte falível para dentro do silêncio do outro.


estou tão gasto que vou ao encontro do poeta, tão sujo de mim que nem
me demoro com desculpas. quero apenas que este não dizer seja os três
silêncios em que me encosto para gritar, como rimbaud, vezes sem conta:


"je est un autre, je est un autre, je est un autre, je est un autre, je est un autre..."
(loop and repeat untill it makes sense, then repeat untill it doesn't, and then...)

porque queria pedir desculpa por não estar, roubo a quem me fez companhia:



«(...) Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.»



                                        Rui Pires Cabral, in "Longe da aldeia



no fim de tudo, porque nada mais me resta, agradeço e desisto em vénia.
e nem assino, pois se pilho, roubo, aninho-me para lá de quaisquer datas.



escultura de Kyuin Shim

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