03/12/2018

Joaquim Manuel Magalhães acaba de divulgar "Para Comigo", obra que reúne, em versão definitiva, o que o poeta considera ser o epítome da sua obra, a poesia a que pretendia chegar. Aqui encontram-se uma versão modificada, melhorada, de "Um Toldo Vermelho", bem como o livro "Galopam", que até agora fora somente distribuído entre amigos. Onde outrora se lia "aproximar o real", ler-se-á doravante: * Apenas o real. Diferendo. Árduo impacto. Drenam o visível. Atípico e controverso zarcão. Superfície e miragem, passaporte, coturno.




11/11/2018

a propósito dos 100 anos do armistício e das inúmeras publicações surgidas nos últimos dias lembrando o contingente português, ocorreu-me a obra "A Malta das Trincheiras", do mal-amado André Brun. no excerto que abaixo reproduzo, retirado da edição da Civilização, nos anos 80, Brun presenteia-nos com um xapirógrafo. não sei como resolveu a Guerra e Paz este berbicacho, na sua reedição: vou supor que manteve o termo redigido por Brun. para muitos, esta palavra tem aqui a sua única aparição em toda a história da língua portuguesa. para uns gralha, para outros um curioso hápax, certo é que parece não haver uma explicação definitiva para aquele lexema. eu não creio que se trate de gralha, mas de um aportuguesamento de "spirographe", o aparelho que Bruno Abakanowicz inventou entre 1881 e 1900, mais tarde desenvolvido por Theodore Brown, e que Brun poderá ter escutado pela boca de um soldado de outra nacionalidade. no contexto da obra de Brun, pode querer dizer que o sargento colocava os de patentes abaixo da sua a desempenhar tarefas que os faziam sentir-se às voltas no mesmo sítio, descrevendo círculos, sem alcançar grandes feitos. tácticas floreadas, portanto, mas com pouca eficácia. esta é a minha interpretação, uma vez que o "spirographe" - ou chamemos-lhe de uma vez xapirógrafo ou espirógrafo - servia para calcular áreas delimitadas por linhas curvas, ou, no caso do aparelho de Brown, para criar uma sequência de imagens através da rotação de um disco. claro que posso estar errado. segue abaixo o excerto da obra em que Brun parece não ser muito simpático para com os soldados portugueses, mas na verdade queria apenas deixar registado o quão mal preparados estavam, por comparação com os aliados, assim como dois links com mais informação sobre o espirógrafo de Brown e sucessores.

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     "Longe de mim a ideia de amesquinhar o esforço dos primeiros combatentes em França; mas, durante muito tempo, a permanência numa guerra de trincheiras, em sectores relativamente calmos de que certa nervosidade destrambelhada vinda do alto pretendia fazer sem método sectores de verdadeiro combate, não permitiu que se pusessem à prova senão a capacidade de adaptação que distingue a nossa raça, sempre através dos séculos a abandonada de alguém, e aquelas qualidades passivas de resignação que a História reconhece ao soldado português. Dos dias terríveis de Abril até aos do alvorecer de Agosto, em que me separei da frente portuguesa, só o esforço individual de certos manteve a continuidade do esforço anterior, reduzida ainda ao trabalho obscuro da malta das trincheiras.

      Acompanhei de perto essa arraia-miúda para a não amar e não a estimar. Foi com ela que ganhei os meus primeiros galões bem ganhos. Sei o que ela vale, o que ela fez e o que ela podia ter feito no instante próprio, se os chefes combatentes, verificando que ao começo as suas funções tácticas eram, pela natureza especial da guerra que se estava fazendo, reduzidas à versão e reprodução de ordens anteriores, e portanto redutíveis a proporções para as quais chegava e sobejava a mentalidade de um sargento-ajudante munido de um xapirógrafo, tivessem melhor atentado na importância das suas funções humanas e cuidado com maior carinho e mais inteligente desvelo do moral de tropas já de si ignorantes e propensas à estagnação de espírito e fatalismo atávico e, para mais, atiradas para longe da terra onde tinham as razões lógicas do seu ser."





05/11/2018

No próximo sábado, 10 de Novembro de 2018, pelas 16 horas, Graça Pires apresenta a obra de Victor Oliveira Mateus; Victor Oliveira Mateus apresenta a obra de Graça Pires. Duas obras editadas pela Coisas de Ler na colecção de poesia Clepsydra. Será na livraria Ferin, no nº 70 da Rua Nova do Almada, Lisboa.

https://www.facebook.com/events/342136329690404/


24/08/2018

Relatório

Vamos fazendo o melhor uso possível 
dos dedos com que se queimam os fogos de artifício,
da tinta azul de pintar os carrosséis,
das palavras amargas na boca dos poetas.

Numa gaveta guardamos 
os nomes dos afogados
e sob um canteiro de jardim
as ferramentas do ódio.

Já queimamos todo o papel de carta.

E enquanto as crianças continuam 
a dançar nuas sobre a praia,
a rádio já só transmite os gritos dos abutres
e os polícias refugiaram-se nos olhos dos estudantes.

As espingardas, petrificadas, 
ainda servem para povoar os lagos.

José Manuel Simões, in "Sobras Completas"



12/08/2018

SINALIZAÇÃO OSSIFICADA A aranha-termómetro mergulhou no peso do meu nome e deixou que ele falasse gota a gota: «– O sexo-limbo é um composto sobrevivente... etc., etc.» Daí tirei conclusões que tudo me permitem: – A borracha-centopeia furada ao lado pela parede-telefone a invenção dum novo dialecto para falar às formigas a auto-fixação de um purificador nos buracos do vento uma complicação perfeita para objectificada em gesso morder o cio na boca... etc., etc. António Maria Lisboa, in "Ossóptico e Outros Poemas"

29/07/2018

Fingem, as palavras: uma casa é uma casa, um medronheiro é um medronheiro, uma montanha é uma montanha, uma rosa é uma rosa. Esta neutralidade apazigua: é um quarto de hotel: entra-se nele como se se acabasse de nascer. Tudo é estável. Não há sequer a ameaça de uma recordação nem a imprevisibilidade do futuro: estamos num presente sólido: a janela dá para o parque, os pombos voam pela primeira vez, as crianças chamam pela primeira vez, o homem de fato de treino corre pela primeira vez. Como num filme, tudo se põe em movimento à voz do realizador: acção.
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A escrita destrói a inocência do medo. Fica a suspeita, essa transversal que modela uma faca
Rui Nunes, in "A Margem de Um Livro"





19/07/2018

67. Olhem para o vosso quarto, à noite, quando já dificilmente se distinguem as cores – e agora acendam a luz e pintem o que viram antes, na semiobscuridade. – Como comparam as cores tal como estão na pintura com as do quarto semiobscurecido?
Ludwig Wittgenstein, in "Anotações Sobre as Cores"

27/06/2018

Impossível

Que bom seria que a vontade imperasse.
Ou que a fina pele do teu rosto
obedecesse apenas.
Ou, como dois irmãos, duas crianças
andássemos pelo mundo sós.
Ou que a sorte, o silêncio, a distância de tudo
mais nos unisse.
Que bom seria que acordássemos juntos.
E que no cristal e no azul dos teus olhos
eu me visse.
Que o teu riso - riso humano! - despontasse a Alegria
no meu e em todos
os corações.
Que tivéssemos pressa
de chegar a casa - uma casa à nossa espera
para nos fazer felizes.
Que bom seria que fôssemos felizes!
Que nada no teu rosto transparecesse
desconfiança.
E que a transparência, em suma, e definitivamente
se implantasse - gloriosa - na nossa vida inteira.
Impossível.

3 de Janeiro de 1976

Raul de Carvalho, in "Desejaria Provar Que Esquecera a Ponto de Já Nem se Lembrar de Ter Tido Qualquer Coisa Para Esquecer"

Autor desconhecido