12/07/2019

     Leva mais uma vez à testa o lenço ensopado, alarga a camisa aberta. O suor desliza continuamente. Chovesse duma vez, viesse o fim do mundo, mas deixassem um homem respirar em paz! Aproxima a cadeira da janela e abre os portais de par em par. É sempre o mesmo vento espêsso, viscoso, as mesmas terras nuas, os mesmos pinhais pasmados. Apenas o sol se escondeu atrás da avalanche negra que caminha do poente, nuvens sôbre nuvens, emaranhadas e grossas. Do lado das serras, o céu coberto avança de leste. Não tarda que tôdas aquelas avantesmas se atirem umas contra as outras. Serão raios na planície, chuva nas gândaras gretadas, casas e pinheiros rachados de alto a baixo.

Carlos de Oliveira, in "Alcateia", 1944


Capa desenhada por Victor Palla

24/06/2019

CARTA AO EGITO

A POESIA não necessita de «ser salva» porque o que nós entendemos por poesia não necessita de espécie alguma de salvação. Todo o acto de revolta ou de rebeldia, todo o processo de violentar «a natureza» e de desconhecer o direito e a moral é para nós poesia embora não se plasme, não se fixe, não se possa generalizar - e aqui está, implícita, a recusa terminante de amarrar o poeta a uma técnica, seja ela qual for, mesmo a mais actual, a mais oportuna, porque, precisamente, o que o distingue do homem de técnica é um sentido de não oportunidade, de inoportunidade, que lhe advém duma clarividência total e duma insubmissão permanente ante conceitos, regras e princípios estabelecidos. Com isto não queremos dizer (Deus nos livre!) que o poeta seja um louco, um visionário, mas que, se ele tem de possuir uma estética e uma moral, é, sem sombra de dúvida, uma estética e uma moral próprias. 
     A poesia é um meio de conhecimento e acção de cujos frutos, bons ou maus, só o poeta aproveita (facto, este, de que muito poucos se dão conta) e daí a inutilidade dos esforços para ligá-lo a qualquer filosofia, política ou teologia, inutilidade que se não desmente no caso de ser o próprio poeta a tentar essa aproximação. É (foi) o caso de Régio como o de Mayakovsky: a sua voz continuará estranha e o sentido das suas palavras incompreensível mesmo para aqueles que escolheu como amigos ou correligionários. É que o poeta é rebelde sem premeditação, demolidor de tudo e de si próprio, esforçadamente anti-caridade-escostada-às-esquinas-de-pistola-em-punho ou caneta-na-mão-lágrima-de-jacaré.
     Daí que resultem contraditórios os termos de poeta católico, marxista, surrealista, existencialista, anarquista ou socialista, quando não se desconhece que só ao poeta é dado compreender o poeta. Daí que resultem ridículas as homenagens colarinho-alto ou selecta-de-infância com que é costume, aqui e lá fora, enfaixar o cadáver daqueles que como Fernando Pessoa, Rimbaud ou Gomes Leal foram em vida o mais esforçado testemunho contra o bom-senso-não-deites-a-língua-de-fora.
     O que possa haver de menos compreensível em tudo isto resulta do facto de que toda a explicação necessita de uma outra explicação para ser compreendida. Aquilo que de um modo imediato é para nós verdadeiro só será inteligível para outrem depois de uma determinada «mastigação» durante cujo processo já todo o objecto em causa adquiriu nova cor, nova forma, novo ou novos sentidos de interpretação. O poeta tem a clarividência desta transformação e daí a sua atitude, sempre de recusa a qualquer espécie de imposição, e ainda quando nos parece que um dos seus gestos adquire uma cor mais conformista, ou um tom menos violento, ele não é mais do que uma forma diferente de recusa.

1949 

Excerto de uma carta ao poeta Egito Gonçalves. Reproduzido em "Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito", Mário Cesariny de Vasconcelos, Guimarães Editores, 1961, e em "A Intervenção Surrealista", MCV, Editora Ulisseia, 1966. (N.A.)

Pedro Oom, in "Actuação Escrita", &etc, 1980

Capa e «hors-texte». Carlos Ferreiro
 

20/06/2019


Ergo o espelho da vida
até ao meu rosto: sessenta anos.
De um golpe estilhaço o reflexo -
E o mundo como é hábito
fica com tudo no seu lugar.

Taigen Sofu (1495 - 1555), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

18/06/2019

O meu corpo não tem um único osso que seja sagrado - 
não passa de um monte de cinzas de ossos malcheirosos.
Cava um buraco fundo e lá enterra estes restos mortais.
Assim, nem uma partícula de pó irá manchar
As montanhas verdes.

Shumpo Soki (1409 - 1498), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)
 
Aquele que vem sabe apenas da sua chegada
    Aquele que parte sabe apenas o seu fim.   
           Porquê agarrar-se ao penhasco           
              Para ser salvo do abismo?
              Nuvens que flutuam rente
Nunca sabem para onde os ventos as soprarão. 

Sengai Gibon (1750 - 1837), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

17/06/2019

Por mais de trinta anos
Trabalhei para me anular.
Agora dou o salto da morte.
O chão agita-se
Os céus andam à roda.

Rankei Doryu (c. 1231 - 1278), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

16/06/2019

De mãos vazias entrei no mundo
Descalço o deixo.
Minha chegada, minha partida - 
Dois acontecimentos simples
Que se emaranharam.

Kozan Ichikyo (1283 - 1360), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)
Serviço de Estrangeiros

há tanto tempo que não acreditamos em nada
e nem sequer nos lembramos disso
sou apenas uma criança brincando
erguendo a recordação de uma nova pureza
o primeiro pássaro
esse peso de árvore tão feliz por engano
olha confio-te o meu coração
e trago-te esta comida estas palavras com o tempo
dos dedos
a casa onde a terra começa a viver

Joaquim Cardoso Dias, in "Pornografia Comum", 1ª ed., Gulliver, 2015

15/06/2019

Roda em perpétuo movimento é a vida
E cada dia é o dia certo.
Aquele que recita poemas à sua morte
Acrescenta geada à neve.


§

A vida é como uma nuvem de névoa
Emergindo de uma caverna
E a morte
Uma lua flutuante
No seu curso celeste.
Se pensares demasiado
Acerca do significado que possam ter
Ficarás para sempre amarrado
Como um burro a uma estaca.

Mumon Gensen (1323 - 1390), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte".

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

14/06/2019

Setenta e três anos
Retirei água pura do fogo -
Torno-me agora pequeno insecto.
Com um toque do meu corpo
Quebro todas as palavras.

Ingo (? - 1281), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

13/06/2019

Inspirar, expirar
Para a frente, para trás
Vivendo, morrendo:
Flechas, lançadas a voar a si entregues
A meio do caminho encontram-se e cortam
O vazio num voo sem rumo -
Assim eu regresso à fonte.

Gesshu Soko (1618 - 1696), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

09/06/2019

Do Livro do Apocalipse

Onde há uma estrela há um homem nocturno
Um homem hemisférico que pensa na luz.
Ele sabe que a lâmpada é o cordeiro. Sabe que a cidade
Não precisa do sol nem da lua. O homem acende na cidade
O pensamento.
O cordeiro está em pé como que degolado e o sangue
Corre da ferida viva como um braseiro. A lâmpada
Abre uma constelação no chão: o livro
Que nomeia e nutre os ressuscitados.
O homem põe a estrela na direcção da vida
Um astrolábio celeste. Não precisa do sol nem da lua
Porque tem o cordeiro em pé e de frente.
Ele sabe que o cordeiro é uma pedra que está ferida
E roda-a devagar até ele próprio ser a fonte.
O homem junta as duas mãos como quem bebe
E queima-se nas mãos, na boca, nas entranhas
Com o lume muito novo da bebida.

Daniel Faria, in "Dos Líquidos", conforme "Poesia", 2ª ed., Quasi Edições, 2006


04/06/2019


Ouvindo Canções de Dowland

Desta música não ouço mais do que a
nítida estrutura que se oculta sob
a melodia que ondulante toca
falsamente a emoção tão pronta,
ou sob esta harmonia que progride arguta
suscitando pretensas marginais ideias,
ou sob o ritmo que é permanência
enganadora do que flui, dissolve.
Não ouço mais do que a estrutura oculta
desta música, e outras eras e lugares
acorrem pressurosos: mas não ouço
nada de antigo ou novo, dissipado ou
presente ainda no que resta em mim.
Apenas ouço uma estrutura: um
gesto silencioso, um movimento,
e sobretudo uma melancolia.
Uma estrutura: como um deus que a face
encosta pensativo à mão e o cotovelo
ao joelho soerguido, e assim, medita. Em quê?
Como é difícil ser-se humano! El' sabe.

Jorge de Sena, in "Arte de Música"

30/04/2019



( diarística, mais ou menos )


mais um passeio pelo parque. durante a caminhada percebo que a bateria da máquina chegou ao casco, enquanto o dedo e depois o pé - afectados por uma queda há uns meses - começam a latejar: há medida que o pé aquece a dor diminui mas não desaparece na íntegra. procuro concentrar-me nas coisas ao meu redor, as que perdi para sempre porque levei a máquina sem bateria. foco. as margens do lago repletas de sementes, pétalas e lodo a servir de camuflagem a cágados e rãs. um cisne eufórico que corta as águas certeiro para se alimentar de girinos, sujando as asas em toda a sorte de detritos flutuantes; uma libélula enorme de um lapiz lazuli como nunca vira pousa no canavial mesmo ao meu lado, como se dizendo: bem feito. uma mãe ganso e suas crias vagueiam pelas águas em busca de alimento. uma das crias salta usando os seus princípios de asas e fecha o bico sobre um moscardo. adiante, num carreiro, uma cria de galinhola morta. formigas. 
 
mais adiante, um casal pratica yoga, enquanto um amigo, depois de colocar uma corda elástica entre troncos, ensaia equilibrismo. uma família com uma criança pequena diverte-se junto de cisnes e cágados. uma velhinha abre um saco cheio de pão seco e é cercada por aves várias. um casal namora no esplendor da relva, entre lençóis de pequenas flores brancas. já no regresso a casa, sob um túnel de videiras, uma jovem de bicicleta tenta em vão que o vento não lhe levante o vestido. sorri e eu sorrio de volta. o perfume da jovem perde-se na intensidade de umas flores marginais, não muito distantes de uma planta parasita cuja beleza subjuga a da árvore vampirizada. um velho que vejo com frequência pelo parque mantém a sua antipatia, ou talvez as minhas feições não lhe inspirem qualquer confiança. a escassos metros da saída do parque, o meu corpo pede-me (ou dá-me) uma longa inspiração. no decurso dessa inspiração e expiração percebo enfim que algo me abandonou. algo que levou demasiado tempo a deixar-me. dói-me o pé, mas com as dores físicas posso eu bem.  
 
quase em casa ainda ouço num charco rãs a coaxar e recordo os simbolistas e o O'neill, os caminhantes Rousseau e Thoreau, e outras coisas mais ou menos aleatórias. blá, blá, blá, passarinho, piu, piu, a primavera, lugares comuns, etc. passo os dias a evitar lugares comuns, mas as pessoas precisam deles: não na escrita, evidentemente na vida. só quem não passou por nada poderá dizer o contrário. o lugar comum é sinónimo de segurança, estabilidade. gostamos de não gostar, ou talvez o contrário. não que defenda ser como aquelas pessoas que viajam apenas para procurar em cada cidade o que é igual em todas. isso era outra conversa dentro desta. casa, computador: golpe na venezuela, ciclone em moçambique, uns patetas na universidade a mostrar que o associativismo fechado à comunidade e as praxes de toda a espécie já deviam ter sido banidos há muito. nuno melo segue-me no instagram e eu não sei se o bloqueie, se o vigie de volta. balanço geral: percebo que estou um pouco menos zangado com a escrita, i.e., comigo mesmo.



amadeu liberto fraga

27/04/2019


picasso visto do porto

4

no porto não havia «os» pessoanos e as questões do realismo
punham-se de são lázaro até ao passeio alegre, chegavam a matosinhos,
nas conversas sobre arte e no dia a dia lá em casa
para pagar na mercearia ou comprar sapatos novos.

o que também funcionava era uma sólida destruição
do real que o mantinha ferozmente
semelhante e rasgado e algumas coisas amavam-se com fulgor excessivo,
mas sem a coragem de se ir até ao último espasmo.

tudo isto foi uma longa aprendizagem do razoável, do portuense,
que é difícil de desfazer e às vezes nem é inteiramente triste.
os ricos destruíam vários equilíbrios
menos o do pôr do sol na foz do douro e uma certa cordialidade.

musa, é isso o que a trama, armada em anjo azul
e fulva de trejeitos vistos no cinema,
tudo muito anos vinte, tudo muito boquilha
nesses passos que esboça retardando a nudez.

Vasco Graça Moura