29/01/2019

Rui Caeiro (1943-2019)



Diante da morte, diante de um suicida perante a morte, é de muito mau gosto lançar mão de qualquer tipo de literatura. Em tal situação, e perante um tal conviva, não tem qualquer préstimo o arsenal dos subterfúgios. Só talvez o silêncio. O silêncio que a morte faz à sua volta, quando acontece. Quando, por acaso maior ou menor e com mais ou menos solenidade, acontece.
Diante da morte, como em quase tudo, também é preciso distinguir. Há o que é importante e o que não não é.
O que não é, pôr de lado. Não deitar fora mas, resoluto, pôr de lado. Diante da morte não há tempo a perder. Frieza e paixão devem ser habitualmente doseadas.
Diante da morte o importante é sentir. Sabe-se lá como. E o quê.
A morte, provavelmente. O tempo que falta até lá. O que ainda resta.
Sentir, degustar o tempo esse como um percurso: de aprendizagem. de exaltação, de sabedoria.
Diante da morte o importante é estar.

*

Pois morre-se de muita coisa, de muita coisa
se morre, morre-se por tudo e por nada
morre-se sempre muito
Por exemplo, de frio e desalento
um pouco todos os dias
mas de calor também se morre
e de esperança outro tanto
e é assim: como a esperança nunca morre
morre a gente de ter que esperar
Morre-se enfim de tudo um pouco
De olhar as nuvens no céu a passar
ou os pássaros a voar, não há mais remédio
ó amigos, tem que se morrer
Até de respirar se morre e tanto
tão mais ainda que de cancro
De amar bem e amar mal
de amar e não amar, morre-se
De abrir e fechar, a janela ou os olhos
tão simples afinal, morre-se
Também de concluir o poema
este ou qualquer outro, tanto faz
ou de o deixar em meio, o resultado
é o mesmo: morre-se
Data-se e assina-se – ou nem isso
Sobrevive-se – ou nem tanto
Morre-se – sempre
Muito

in "Sobre a Nossa Morte Bem Muito Obrigado", &etc, Lisboa, 1989





Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem

in "Livro de Afectos", ed. autor, Lisboa, 1992




A dois passos

Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso — esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno — estava-se bem.

'Do inferno – cinco aproximações', in "Telhados de vidro nº 12", Averno, maio de 2009





O nosso amor não é coisa que se apresente
a uma sociedade como esta cujas exigências
stop que é do nosso amor que se trata
o nosso amor cheira às folhas podres de Outono
e quanto a reverdecer vou ali e já venho
o nosso amor está de rastos e como há-de ir
o nosso amor coelho esfolado o nosso amor
disco partido o nosso amor rato morto o nosso
amor ovo cozido ovo estrelado porque isso tanto faz
o nosso amor osso esburgado o nosso amor
brinquedo que um menino esventrou e não sabe
agora como é que vai poder consertar
o nosso amor chá de tília choque
anafilático paragem cardíaca
mas nosso amor apesar de ou nosso amor
tudo e mais alguma coisa o nosso amor
cinco sentidos viste-o ouviste-o tocaste-o
cheiraste-o degustaste-o o nosso amor
seja ou não seja e esteja ou não esteja
ele é para já e largamente quanto basta

*


Um poema de amor que ninguém
tivesse feito e só um merecesse
e só o outro entendesse

E aí estaria ele o amor
em estado de pura nudez
litográfica à século das luzes


*

Um sinaleiro invisível manda parar o trânsito
há uma pausa brutal no bulício da cidade
Soa a campainha da porta, entras furtiva-
mente, sorris acanhada e logo começas
a abandonar sapatos e a despir a roupa em gestos
sacudidos. Grande é a importância que me dás
Por momentos tudo vais trocar pelas minhas mãos

in "O Quarto Azul e outros poemas", Livraria Letra Livre, 2011






Refastelado no veludo negro
do inferno, um gato
espera por mim

Espera por mim, negro
e macio, confortável-
mente sentado à porta do inferno

Desde sempre à minha espera
aconchegado no veludo negro
do inferno

Resignadamente sentado
à porta do inferno
à espera de quê ou de quem
— ou de mim? — o gato

in "Um Gato no Inferno", ed. autor, Lisboa, Julho de 2013

26/01/2019

La fascination de l’absence de temps

      Ecrire, c’est se livrer à la fascination de l’absence de temps. Nous approchons sans doute ici de l’essence de la solitude. L’absence de temps n’est pas un mode purement négatif. C’est le temps où rien ne commence, où l’initiative n’est pas possible, où, avant l’affirmation, il y a déjà le retour de l’affirmation. Plutôt qu’un mode purement négatif, c’est au contraire un temps sans négation, sans décision, quand ici est aussi bien nulle part, que chaque chose se retire en son image et que le «Je» que nous sommes se reconnaît en s’abîmant dans la neutralité d’un «Il» sans figure. Le temps de l’absence de temps est sans présent, sans présence. Ce «sans présent» ne renvoie cependant pas à un passé. Autrefois a eu la dignité, la force agissante de maintenant; de cette force agissante, le souvenir témoigne encore, lui qui me libère de ce qui autrement me rappellerait, m’en libère en me donnant le moyen de l’appeler librement, d’en disposer selon mon intention présente, le souvenir est la liberté du passé. Mais ce qui est sans présent n’accepte pas non plus le présent d’un souvenir. Le souvenir dit de l’événement: cela a été une fois, et maintenant jamais plus. De ce qui est sans présent, de ce qui n’est même pas là comme ayant été, le caractère irrémédiable dit: cela n’a jamais eu lieu, jamais une première fois, et pourtant cela recommence, à nouveau, à nouveau, infiniment. C’est sans fin, sans commencement. C’est sans avenir.

Maurice Blanchot, in "L'Espace Littéraire"

© Mme. C. Blanchot

17/01/2019


            quando era puto olhava para a máquina de escrever do meu avô e não descansava enquanto ele não me deixava ir para lá mexer. a máquina tinha manhas que só ele conhecia – certas teclas precisavam de certa força, ou de certa subtileza –, o rolo, a fita, tinham uma arte que me era totalmente interdita, sob pena de acabar com a fita estragada e os dedos tingidos. aquela olivetti, creio que era uma olivetti, ensinou-me algumas coisas.
            por um lado, e muito antes de Herberto Helder ser do meu conhecimento, que as mãos são instrumentos capazes de música e de verbo. por outro, ensinou-me a paciência e a magia de ver texto nascer à frente dos meus olhos, em simultâneo com a respiração o batimento – letra a letra. ensinou-me ainda que a escrita é esforço, por mais bafejado que um tipo seja pelas musas (tantas vezes cegas). e que para a máquina uma nota de encomenda ou um conto têm a mesma ciência. e se um tipo se não cuida, acaba sujo.
            escolho estas palavras e não outras, porque mais uma vez veio à baila a omissão, portanto censura, de alguns versos de Álvaro de Campos num manual de língua portuguesa para o 12º ano. digo mais uma vez porque – e muita gente parece desconhecer este facto – esta censura não é nova. as edições da Ática dos anos ’70 censuravam aqueles mesmos versos em livro. e em manuais, desde os anos ’90 que essa censura se verificava sem grandes alaridos. foi necessária a edição da obra pessoana pela Assírio & Alvim, nos anos ’80, para que o grande público tivesse acesso à obra plena dos heterónimos.
            o argumentário da editora, procurando justificar a opção de pontilhar versos que abordam a pedofilia, parte de um pressuposto errado. aquele não é o único poema de Campos que importa. poderiam optar pela Ode Marítima ou outro texto de Campos, mas se optam pela Ode Triunfal não se pode cortar o fôlego ao poeta. o uso de vernáculo, é sabido, servia a terapia de choque modernista com que a geração de Orpheu visava abalar a burguesia. esconder aqueles versos é adulterar todo um programa.
            mas o que me incomoda nesta questiúncula não é tanto o absurdo da censura em pleno séc. XXI – certamente, sim, os jovens de 16 ou 17 anos foram já expostos a muita coisa nos monitores dos seus aparelhos mais ou menos portáteis –, mas que alguém com poder de decisão sobre os textos, alguém que trabalha numa editora, considere que a poesia deve apenas mostrar o belo e o bom. há aqui um retrocesso de mentalidade que não é compatível com o trabalho de editor, menos ainda com o de um editor que arroga o título de uma das mais importantes casas no que à manufactura de manuais escolares concerne.
            quando um manual censurado chega às mãos de um jovem, este não irá aprender a gostar de poesia. irá aprender que a poesia é censurável, que há algo de errado em ser livre na escrita. e para isso, nunca, mas nunca, contem comigo. atalhando muito: pedagogicamente, esse manual não ensina senão a auto-censura. e não me parece que precisemos de formar adultos que se censurem. precisamos de adultos que se saibam sujar no mundo sem se tornarem sujos. como quem suja os dedos numa máquina de escrever ou num jornal impresso. 
          que se leiloe a máquina de escrever royal que o poeta usava na sociedade portuguesa de explosivos porque não pertencia ao espólio, ainda entendo. mas a poesia, ao contrário do que alguns pensam, não está à venda. sabotar um poeta, num manual escolar, não é pedagogia. sabotado, o manual torna-se outra coisa. um instrumento de outra coisa. não se pode conhecer a casa se não subirmos o vão de escada. sujidade é precisa, branqueamento não.

alf



(seguindo o link, a Ode Triunfal completa: http://arquivopessoa.net/textos/2459)



( Fernando Pessoa em "flagrante delitro", cf. dedicatória a Ofélia em 1929 )



30/12/2018

INSISTÊNCIA, de Edmond Jabès *

§

História de Cabelos 


I

Cortámos as madeixas de água e as madeixas de sal do mar

Aparámos o rochedo e os seixos 
Uma escova e cabelo para fazer uma árvore
Varremos a praia 
e no mar rejeitámos os cabelos inúteis com algas

II

O rio longa barba ruiva rente ao joelho do meu país
Cabeleireiro ousado
dias e noites
nunca a horas

III

Descem a colina
os olhos mais azulados que a fome dos tubarões
mais azulados que as axilas do céu
do amanhecer debruçando-se sobre a terra 


§


História de Pedras 


I

Segredo da pedra vazia

que a picareta procura perfurar
onde o sol jamais penetra
Quanto terão de perseverar
Debruçados sobre o seu ferimento
a única riqueza
eles ignoram até onde a febre os doura

II

Dia batido na sua cave, na sua asa
batido no seu sexo de hermafrodita
dia de sangue nos templos da onda
e na palma dos mergulhadores
Um nome de flor na boca
Um nome de chamas no rasto das borboletas
no fundo das ruínas

III

Não podemos gravar senão um nome
um de cada vez
na morte
não temos direito senão a um elogio fúnebre
a um só epitáfio



§

História de Viagem 


I

O restolho do exílio
o mais terno dos limites
a sua sombra no diário de viagens
como uma rosa

II

O barco liberta-se da constrição do porto
como os braços exauridos de uma mulher
o esquecimento sobe a bordo

III

Amanhã não reconhecerás a terra

os cabelos brancos como o mar
ou careca como a colina
uma árvore para bengala
Amanhã não mais terás nome
Não furarás passagem
por entre ombros anónimos
Uma viúva estenderá os seus lençóis
na linha do teu horizonte

IV

O galo para cata-vento
A coruja para espelho


§


História de Palavras 


I

A tempestade com os seus porta-canetas desesperados

Não se lê tudo o que na terra está escrito
Da mais bela mensagem o padeiro fará talvez o pão
e daquele de cada mulher amada como apenas tu
cujas cartas concordam sob os passos do homem
entre as espigas de trigo então balançando ao sol

II

Matilha de dias alargados
de escritos espólios de caça
A trompa convoca cães espingardas
A ilha inundou os seus trapos
o bairro de lata seus ligeiros telhados
O dilúvio é para este ano
A nado a fuga no corpo
A nado o relâmpago no coração
As girafas são menos apressadas

III

De cada semente de obsessão
a palavra emerge impaciente
como uma arma incompreendida


§


História de Olhos 


I

Os falcões assombram o reino
de João Pestana**
Suas garras fixadas nas pálpebras

II

Ao preço do ouro de novos compromissos
lutando com cada trança de luz
a corda ao pescoço
o carrasco como refém

III

Ao longo das docas de éter
as pessoas acenam com a cabeça
Lajes com graffitis e signos
a âncora no fundo das águas
invejosa memória
O sal conserva a despedida

IV

Crepúsculo

espartilho de reivindicações hostis
Aurora
Paleta de esmalte da renúncia
a mulher nua
desliza
pelo olhar transparente do pintor

V

A morte para noiva

com luvas de missal
e azevinho na cintura

VI


Seus grandes poros dados à luz
Besta de pêlo amarelo acossada
a aldeia uiva ao lobo

VII

Belo caçador com andas

VIII

Para a procissão de cinzas pitorescas
para o soluço das trepadeiras das nações
para o balançar com bochechas ameaçadoras
a terra cospe o seu velho chumbo.

.
* in "Le Seuil, Les Sables", pp. 183-188, Gallimard, 1990
   versão muito livre de amadeu liberto fraga

** Este trecho fala de vendedores de areia e pós, no que aparenta ser uma remissão para um velho conto popular em que esse vendedor, um mago, asperge uma espécie de areia sobre os olhos das crianças que dormem para lhes influenciar os sonhos: os bem comportados teriam bons sonhos, os mal comportados teriam, já se vê, maus sonhos. Ao longo dos tempos este relato foi sofrendo variações mas o essencial manteve-se. Consciente ou inconscientemente, Hubert Reeves participou neste mito popular quando afirmou: "Somos todos feitos de pó de estrelas". No mundo anglo-saxónico este conto daria origem a Sandman, e por cá a João Pestana. Vi-me assim obrigado a abdicar de muita da poeticidade contida naqueles versos para tornar evidente ao leitor que aquele poema remete para o mundo dos sonhos. Infelizmente perde-se ali - além da figura do vendedor de pós - o termo areia (sable) que partilha com seuil (ombreira) o título dado à poesia completa pelo autor, que remete para a ideia de algo mágico que atravessa o limiar da nossa porta e invade a nossa intimidade - o sonho, a criação, a poesia portanto. Que tenha, pelo menos, prevalecido o carácter onírico da passagem.