29/05/2017


visitei o anjo,
duvidei por toda a extensão da pausa.

a mensagem: não há mensagem.

despedi-me, sem respostas.
regressei.

exílio:
testemunhar aproxima o limite.

paráclita metalúrgia dos dias.
tudo é, tudo será: texto.













escultura de Irene Vilar: "O Mensageiro"
© poema e fotografia: amadeu liberto fraga

22/09/2016

oficinas de carne ambulantes, o desengano acena ao leitor que somos.
desafiem-se algumas notas desse parente do simum,
deixemos o sorriso ser hiena enquanto alguém se autoflagela
até um fio de luz antibiótica nos resgatar
daquela roda de poço que puxava água aos olhos.
cuidado, o fio que brilha pode ser de navalha,
diz o primeiro leitor. e o cínico, escondido atrás do papel,
responde: há muito me cortei, é do sangue que escrevo.
deflagra a dúvida, parte-se o pescoço à certeza mais dura
e do tutano drena-se surpresa. ardamos de não saber,
mesmo se a dada altura precisarmos tanto de luz.
cansada de mentir à folha, a língua dirá que o silêncio
do algoz começa no espelho, que a pior das noites é aquela
que se instala nas paredes interiores do corpo.
dorme enquanto podes, diziam uns olhos prevendo
a operação stop. magoar-te-ei e deixar-te-ei vivo para
que não esqueças: mesmo as ruas estão obrigadas
aos dois sentidos da derrota. não se sabe ao certo
quantos fantasmas de pátroclo aguenta um homem.
sabe-se, porém, que foi o homem a inventar o anzol
e que é a humanidade hoje a ser pescada em lesbos.
queria cobrir-me todo de terra como de nojo,
porque a poesia é um velho com cataratas
e o poema uma criança a brincar. ulisses já não tem
para onde regressar e o cínico, esse, segue para sul,
onde ainda é possível morrer sem interrupções
entre uma laranja e a memória do sal na pele,
sem nunca regressar dos mortos que escurecem
as paredes e engrossam a voz a cada noite destilada.
tréguas é a palavra menos pensada de toda a história
e o mal menor é mesmo que nas livrarias deste país
os gregos se vendam ao centímetro quadrado.

© amadeu liberto fraga

24/02/2016

era quase noite.
agora é quase sempre quase noite.
a indefinição da distante paisagem
a tremer nas canas ou nos olhos
aproximou a lente das águas paradas
num plano cansado, contrapicado.
engana-se o obturador,
mas não se engana facilmente
a ingenuidade de uma ave.
silvando o ar, agitando quase
de noite, quase sobre a minha cabeça
perdida, uma garça-real silvou
ao perto e longe daquele resto
de diálogo que tinha comigo, disfarçado
de disparo. esqueci-me de programar
o balanço de brancos para o fim do dia.
ficou tudo difuso. era quase noite.
desequilibrei-me. não caí,
mas também não me levantei.
era quase eu.

07/01/2016

uma breve gota basta,
benévola ou nefasta.



















© poema e fotografia: amadeu liberto fraga

04/01/2016

(ao antónio, o primeiro estóico que conheci)
 
o longe é uma pedra quente que se agarra.
quando era miúdo atirei uma dessas e atingi
a cabeça do antónio. hoje não sei nada dele
mas sei que esta educação pela pedra disse
então, como agora: quando violentamos
alguém, é o braço que não volta, não a pedra.
um insulto de criança, um instante com sua
raiz no mais sincero e infantil mal.

dente por dente. um poema não salda dívidas,
nem se pode esperar de um mestre como o mar
que nos tire de dentro da caixa torácica a pedra
instalada pela culpa. o joão cabral sabia da
dureza de certos homens. hoje sei: coisas
como uma pedra só dão fruto se deixarmos.
o antónio não deixou. ferido, ensinou-me.
depois do mar, o antónio foi o meu mestre.

só mais tarde vieram os músicos e os poetas.

24/11/2015

(não-resposta a poema de josé miguel silva, com eco)

o dia e a noite não me servem,
ao pôr-do-sol é que me sei,
embora saiba tratar-se de uma
convenção, que nada se põe.
não sei o que se passa comigo.
vou a concertos de orquestra
e o que mais me fica é o antes,
enquanto os músicos afinam.
sento-me em família e é raro o
momento em que concordamos
politicamente. quando estou entre
amigos prefiro o silêncio porque
me parece que não tenho nada
de importante para dizer. levo
as suas vozes para casa, dentro
do mais fundo de mim - ecos
de um sagrado ateu. fico horas
a ouvir o mesmo tema em loop
e a pensar que não me entendi
com ela porque não discutimos,
que algo em mim cessou ao ouvir
o seu riso afinal e apenas oco.
perdi o gosto à poesia e meti
uma máquina entre mim e o mundo
para fingir que faço fotografia.
pouso livros ao colo e quando
um verso me rouba ao alheamento
penso que ascender é ainda
uma forma de queda. comigo
me desavim? je est un autre?
meto as mãos aos bolsos e afundo
quanto de mim é corpo na cadeira
para ter a certeza de que estou
aqui, compacto, pronto a negar
que dentro de um homem pode
nascer uma ilha a que um esteta,
se pudesse, chamaria de pedra.
que é possível partir e ficar.

22/09/2015

há alguns anos escrevia muitíssimo,
tinha medo que as ideias fugissem.
agora escrevo muito, muito pouco,
tenho medo que as ideias fiquem.
tudo isto para dizer que andam ondas
nos meus lençóis, altas em espessura
e silêncios que morreram na praia.
na almofada, um rosto marca ainda
o sítio onde não pretendo adormecer.
nas sombras da cadeira em que largo
a roupa floresce um tronco soerguido,
afundo com o terror às costas, onde
o cheiro de cabelos que não estão.
há um risco na parede do quarto, obra tua,
mais sublime que quaisquer destes versos
(burke falaria de habituação e subitaneidade).
a vida pode ser uma elipse. paisagem
esboroando, até restar não se sabe o quê.
palavras como bombas de fragmentação,
citações a abrir fendas sem aspas.
já ninguém morre de amor, graça moura dixit,
mas pode ficar-se estropiado para a vida.
também em maus lençóis se contam os anos.
algodão nem sempre doce. sim,
a vida é uma elipse,
uma eli
uma __________ .
e o candeeiro arde de ausência. palavra.