06/06/2018

     Albano Martins deixou-nos hoje. 

    recordo a sua presença discretíssima sempre que ia à livraria em que trabalhei longos anos, em gaia, para encomendar a colóquio-letras ou outras revistas entretanto extintas. lembro-me de tantas e tantas vezes ter dito para mim mesmo que havia de lhe pedir que me assinasse o "As Escarpas do Dia", mas ficava sempre para a próxima porque não queria importuná-lo. 

    recordo também uma aula de 'estética e filosofia da linguagem', no meu último ano de licenciatura, cadeira opcional ministrada pela professora dra. Maria Luísa Malato, dada quase na íntegra a partir de um poema de Albano Martins. lembro-me do estremecimento e da vergonha que senti, misturados com sentido de responsabilidade, quando, em 2016, e a convite de Victor Oliveira Mateus, publiquei um poema na revista 'Cintilações', onde constava, entre outros, um poema de Albano Martins. 

    este homem deixa-nos uma obra lírica rigorosíssima, pulso implacavelmente seguro desde o primeiro verso, capaz de ombrear sem pedantismo com os gregos antigos ou com alguns nomes da geração de '27. foi, e digo-o sem quaisquer termos comparativos, o único poeta português capaz de se inserir na mesma linhagem de poetas a que pertencia Eugénio, sem ser epígono de ninguém. deixa-nos ainda uma "Antologia de Poesia Grega Clássica", devedora de duas traduções francesas de referência, uma pessoalíssima antologia designada "Três Momentos da Poesia Europeia", a premiada tradução de "Canto Geral", de Pablo Neruda e "Poemas do Desterro", de Ovídio, além de alguns livros infantis. 

    nestes tempos que fingimos viver é cada vez mais raro ter acesso a vozes como a de Albano Martins, quando a narrativa poética vigente, e à laia de oficial, é cada vez mais a de uma poesia pop tipo pastilha elástica disparada por grandes grupos com autores consagrados no facebook e nas colunas de jornais amigas do amigo. aos leitores de poesia aviso: é importante lê-lo, relê-lo, tirar lições, ou pelo menos notas. se o não fizeram...


Um dos Capítulos
Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.



27/05/2018


    (pensei muito, antes de escrever e publicar isto. não pretendo substituir-me a tratados de bioética, é apenas o que penso acerca desta matéria. opinião, portanto. sintam-se à vontade para comentar, mas já não participo em debates. grato, desde já, pela vossa leitura e compreensão.)


    eu defendo a eutanásia. este enunciado: "eu defendo a eutanásia.", pede alguma análise de todos nós. na larga maioria das ocasiões, quando escuto alguém falar sobre eutanásia, o seu argumentário acaba por centrar-se no individualismo: a minha vida, a minha decisão. porém, a eutanásia não é sinónimo de comprar uma arma e dar um tiro na têmpora. por isso prefiro hoje falar de despenalização da morte assistida. aquilo que estou a tentar dizer é isto: para que alguém possa decidir pôr termo à sua vida, essa possibilidade tem de ser facultada, i.e., os meios humanos e logísticos para a prossecução de tal acto não aparecem aos olhos do paciente ab nihilo. não podemos, contudo, cair em alarmismos: ninguém andará por aí com uma agulha no bolso a "eutanasiar" velhinhos, tão-pouco a desleixar cuidados paliativos ou a recusar cirurgias apenas por ser mais fácil e económica uma "morte limpa" (alguma morte é limpa?). 

    também vos digo - quem já teve, por exemplo, um familiar doente oncológico saberá do que falo - como é fácil fazer circular substâncias num hospital, com ou sem consentimento médico: os enfermeiros não poupam na morfina, quando se deparam com um paciente em sofrimento atroz, e, mesmo com notas de poupança da administração, mesmo sem o aval médico, saem e entram de alas inúmeras vezes trazendo no bolso doses lenitivas que administram, não como anjos exterminadores, mas como gente com um pouco de coração, apesar da necessária frieza e distanciamento a que a sua profissão obriga para que se não tornem maus profissionais. portanto, despenalizar ou legalizar uma morte assistida não irá mudar absolutamente nada - continuarão a morrer velhos em lares pagos pelas famílias, quando durante a noite perdem a capacidade de engolir a própria saliva, assim como tantos jovens cuja sorte dita que partam antes dos pais. 

    parece-me apenas que deverá existir um enquadramento legal para que: 1) seja feita uma avaliação independente a cada caso, analisando o estado psíquico e clínico de cada paciente; 2) exista, o quanto antes, formação e apoio para o pessoal médico e/ou familiares que, no futuro, venham a ter um papel preponderante na preparação e no momento da morte assistida do paciente. se isto não é claro, estamos ainda longe de ser gente civilizada. isto não tem qualquer relação com religião, pelo que os líderes religiosos bem podem unir-se para o não. isto não tem qualquer relação com governos de esquerda, direita, centro, ou quaisquer outros. não defendo alguma forma distorcida de nazismo clínico, apenas um fim condigno para aqueles que, perante uma existência de dor apenas, e sem alternativas, possam, conscientemente, decidir pôr termo a um mal crónico que lhes diminua a humanidade. 

    quando já não temos como cerzir o tecido da nossa existência, quando já nem retalhos somos, prolongar o sofrimento alheio é um acto de profundo egoísmo: muitas vezes sentimos a culpa de não termos dado o suficiente de nós aos outros e, por isso, na recta final, confiamos na medicina para prolongar o rio do tempo dos outros. mas por conta dessa culpa judaico-cristã não pode valer tudo. não pode valer sobretudo a hipocrisia. como um rio, a vida. nada detém a água, nada. e um dia, como quando o rio, na foz, encontra o mar, morremos mas não desaparecemos: tornamo-nos parte de algo maior.

amadeu liberto fraga

07/05/2018

Tenho pena, ah como eu tenho pena!... dos que precisam de inventar coragem para um novo dia, certezas certezinhas, obediência a religião ou partido ou rotinas, de inventar-se comodidades necessidades ou ilusórias vaidades de levar melhor vidinha (ceguetas todos eles aos limites da humana criatura que é para todos e de repente o coveiro), razões para estar e lutar além destas, tão simples afinal e misteriosas sempre, tão naturais e primitivas: uma rapariga nossa que amamenta o filho, duas crianças que pedem pão e olham para ti.
Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente variada nesta Viagem. Pobre gente: estúpidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos, foliões e parasitas da Vida, parasitas (os mais criminosos, estes) chulos do próprio talento desperdiçando tudo: as horas do relógio deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo tem seu calor e seu exemplo; ou frustrados falhados tentando arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por impotência de criar, lazeira ou cobardia (mas o coveiro nada perdoa). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e muito mal mascarados. Uma caca a respirar.
Ora deixem-me que lhes diga: um cadáver não nunca tem terá razão, mesmo que a tivesse tido antes. Um estúpido um cobardola é para rir e chorar, porque a estupidez e o medo não têm medida. Um patareco, dá-se-lhe um pontapé no cu, um parasita esborracha-se por nojo e a um folião fazemos notar que não lhe achamos graça nenhuma. E fugi dos frustrados e falhados que é a malta mais tratante e castradora que existe. Mas um bebé! uma rapariga com o filho ao colo! os bambinos em volta! são os bichos mais exigentes e precisados de tudo. E há que lhes dar tudo. Eis, Senhores, porque saúdo a manhã e faço gosto em a ver inda uma vez, eis porque a pardalada me incita. E no riso do meu Paulocas uma leve ironia contente me desperta, babada em leite e ternura. Somos puros. Sabemos e cumprimos. Bemaventurados somos e vós, também, SE SABEIS ESTAS COISAS, BEM-AVENTURADOS SEREIS, SE AS PRATICARDES."

Luiz Pacheco, in "Comunidade"




04/05/2018

APRENDER OU NÃO (EXCERTO)

     Por acaso, lembro-me como aprendi essas coisas do «masculino-feminino» com uma criança de oito anos, à volta com a 2.ª classe. Vagabundeávamos os dois pelos cais. Não era nada inesperado haver barcos por ali. Havia muitos. Estava eu a ver que era assim quando o meu companheiro me coloca este embaraço: «Porque é que os barcos, que são masculinos, têm nomes femininos?» Decifrei o nome de alguns barcos: «Maria Rita, «Ana Mafalda», «Nossa Mãe», «Bambolina». Dei uma resposta idiota porque realmente não compreendia aquela desatenção denominadora: «É que os donos dos barcos são parvos.» Ele sorriu, irónico: «Não. É que não são barcos. São barcas.» E, dentro de mim, tudo se reorganizou, e o mundo - com seus barcos (ou barcas) e nomes - recuperou o abalado sentido.

Herberto Helder, in "em minúsculas" 


21/04/2018

QUARTZO, FELDSPATO, I MICA

699
Miríades de pequeníssimos espelhos
espalham e espelham
milímetro a milímetro
as
mil e mil
luzes
da
manhã fria

#
A fonte fria
na manhã clara
é de qualquer modo
o foco de luz
que te chega aos olhos.

Manuel Gusmão, in "A Foz em Delta"



14/02/2018

A Nuvem Prateada das Pessoas Graves

Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés e
mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, destas pessoas, é, por
isso, uma subtil forma de cuidado.

Rui Costa, in "Mike Tyson para Principiantes. Antologia poética."

http://www.correiodoporto.pt/do-porto/rui-costa-1972-2012

12/02/2018

"Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio", Nº 2 fevereiro 2018





COORDENAÇÃO

Victor Oliveira Mateus

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CONSELHO EDITORIAL


Ana Cecilia Blum (Equador), António Carlos Cortez (Portugal), Daniel Gonçalves (Portugal), Hugo Pinto Santos (Portugal), José Ángel Garcia Caballero (Espanha), Leonor Castro (Portugal), Maria João Cabrita (Portugal), Maria João Cantinho (Portugal), Marta López Vilar (Espanha), Mbate Pedro (Moçambique), Mirna Queiroz (Brasil), Ricardo Gil Soeiro (Portugal), Risoleta Pinto Pedro (Portugal), Ronaldo Cagiano (Brasil), Stefania Di Leo (Itália), Victor Oliveira Mateus (Portugal).
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COLABORADORES DO PRESENTE NÚMERO
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poesia:
Adalberto Alves, Albano Martins, Alberto Bresciani, Alberto Pereira, Alfredo Pérez Alencart, Álvaro Mata Guillé, Amadeu Liberto Fraga, Ana Cecilia Blum, Ana Luísa Amaral, Ana Maria Puga, Anderson Braga Horta, André Domingues, António José Borges, António José Queirós, António Salvado, Artur Ferreira Coimbra, Cláudia Lucas Chéu, Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Everardo Norões, Gisela Ramos Rosa, Gonçalo Salvado, Henrique Levy, Inês Lourenço, Isabel Mendes Ferreira, Isabel Miguel, João Ricardo Lopes, João Rui de Sousa, José Ángel Garcia Caballero, José do Carmo Francisco, José Eduardo Degrazia, Josep M. Rodríguez, Leonor Castro, Licínia Quitério, Manuel Neto dos Santos, Maria Augusta Silva, Maria do Cebreiro, Maria José Quintela, Maria Toscano, Maurício Vieira, Myriam Jubilot de Carvalho, Pedro Lyra, Pedro Sánchez Sanz, Pompeu Martins, Ricardo Gil Soeiro, Rita Taborda Duarte, Rui Almeida, Sandra Lopes, Stefania Di Leo, Victor Oliveira Mateus.
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ensaio:
André Barata, César Freitas, Hugo Pinto Santos, Jaime García Mafla, José Cândido de Oliveira Martins, Maria João Cabrita, Nuno Brito, Pedro Marques Pinto, Rosa Alice Branco, Victor Oliveira Mateus.
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caderno:
Maria João Cantinho.
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crítica literária:
Hugo Pinto Santos.
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prosa:
António Ladeira, Luísa Venturini, Paulo Pego, Pedro Martins.


08/02/2018

Detritos

Penso nas ervas que não chegam a ser altas
vai chegar a neve
inadiável sobre as cordas
a pequena mão do silêncio
regressa por assim dizer dos pátios inocentes
demora-se sobre o coração
breve sépala verde pétala
um calor branco a mansidão de vaga em vaga
lenta masturbação do olhar
a noite perdeu o seu rouxinol
com a morte na boca
reparto contigo o peso da alegria.

Eugénio de Andrade in "Véspera da Água"

fotografia de Rui Ochôa