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27/06/2022

O PACIFISMO É A REACÇÃO ERRADA, por Slavoj Žižek (trad. minha)

Para mim, o mega-êxito “Imagine” foi uma canção popular sempre pelas razões erradas. Imaginar que o “mundo viverá em uníssono” é o melhor modo de acabar no inferno.

Aqueles que se agarram ao pacifismo face ao ataque russo à Ucrânia permanecem agarrados à sua própria versão de “Imagine”. Imaginem um mundo em que as tensões já não são resolvidas através de conflitos armados… A Europa persiste neste mundo do “imagine” ignorando a realidade brutal fora das suas fronteiras. É tempo de acordar.

O sonho de uma célere vitória ucraniana, repetição do sonho inicial de uma rápida vitória russa, acabou. No que parece cada vez mais um impasse prolongado, a Rússia progride lentamente, e o seu objectivo final é claro. Já não há qualquer necessidade de ler nas entrelinhas quando Putin se compara com Pedro, o Grande: “Aparentemente, ele estava em guerra com a Suécia colhendo frutos disso… Ele não estava a tirar nada, ele estava a recuperar e a reforçar, era isso que ele estava a fazer… Claramente, recaiu sobre nós a responsabilidade de recuperar e reforçar também.” https://edition.cnn.com/2022/06/10/europe/russia-putin-empire-restoration-endgame-intl-cmd/index.html

Mais do que concentrar em aspectos particulares (está a Rússia somente a recuperar? E o quê?) devemos ler cuidadosamente a justificação principal para a sua afirmação: “Para reclamar qualquer tipo de liderança – nem sequer falo de liderança global, refiro-me a liderança em qualquer área – qualquer país, qualquer povo, qualquer grupo étnico deve assegurar a sua soberania. Porque não há termo intermédio, não há estado intermédio: ou um país é soberano, ou é uma colónia, independentemente do nome que se atribui à colónia.”

O que estas linhas implicam, como um comentador disse, é evidente: há duas categorias de estado: “O soberano e o conquistado. Na visão imperialista de Putin, a Ucrânia deve inserir-se na segunda categoria.” https://edition.cnn.com/2022/06/10/europe/russia-putin-empire-restoration-endgame-intl-cmd/index.html

E, como é não menos evidente pelas declarações oficiais feitas nos últimos meses, a Bósnia e Herzegovina, o Kosovo, a Finlândia, os Estados Bálticos e, por fim, a própria Europa, “caem nessa segunda categoria.”

Agora sabemos o que significa o pedido para permitir que Putin salvasse a sua face. Não significa aceitar um pequeno acordo de cedência territorial no Donbass, mas antes a ambição imperial de Putin. A razão por que esta ambição deve ser rejeitada incondicionalmente é por, neste mundo global hodierno em que todos somos assombrados pelas mesmas catástrofes, estarmos todos no meio termo, num estado intermédio, nem num estado soberano, nem em território conquistado: insistir numa soberania total face ao aquecimento global é pura loucura uma vez que a nossa sobrevivência depende de uma estreita cooperação global.

Mas a Rússia não ignora simplesmente o aquecimento global – porque ficou tão irritada com os países escandinavos quando expressaram a sua intenção de aderir à OTAN? Com o aquecimento global, o que está em jogo é o controlo sobre a passagem do Ártico (por isso Trump queria comprar a Gronelândia à Dinamarca). Com o desenvolvimento explosivo da China, do Japão e da Coreia do Sul, a principal rota de transporte passa a norte da Rússia e da Escandinávia. O plano estratégico da Rússia é lucrar com o aquecimento global: controlar a principal rota comercial, enquanto desenvolve a Sibéria e controla a Ucrânia. Deste modo, a Rússia dominará tanta produção alimentar que será capaz de chantagear o mundo inteiro. É esta a derradeira realidade económica sob o sonho imperial de Putin.

Aqueles que defendem um menor apoio à Ucrânia e maior pressão para que a Ucrânia negocie, incluindo a aceitação de renúncias territoriais dolorosas, gostam de repetir que a Ucrânia simplesmente não pode ganhar a guerra contra a Rússia. É verdade, mas é exactamente nisso que vejo a grandeza da resistência ucraniana: eles arriscaram o impossível, desafiando cálculos pragmáticos, e o mínimo que lhes devemos é apoio total, e, para fazer isto, precisamos de uma OTAN mais forte – mas não como prolongamento de políticas americanas.

A estratégia americana de contra-atacar através da Europa está longe de ser auto-evidente: não é só a Ucrânia, mas a própria Europa que está a tornar-se o local de uma guerra por procuração entre os Estados Unidos e a Rússia, que poderá muito bem terminar com um acordo entre ambos às expensas da Europa. Há somente dois modos de a Europa sair deste lugar: fazer o jogo da neutralidade – um atalho para a catástrofe – ou tornar-se um agente autónomo (pensemos como a situação poderá mudar se Trump vencer as próximas eleições americanas).

Enquanto alguma esquerda afirma que a continuação da guerra é do interesse do complexo industrial/militar da OTAN, que usa a necessidade de novo armamento para evitar crises e conseguir novos lucros, a sua verdadeira mensagem para a Ucrânia é: Sim, vocês são vítimas de uma agressão brutal, mas não contem com as nossas armas porque desse modo estão a colocar-se nas mãos do complexo industrial/militar…

A desorientação causada pela guerra na Ucrânia tem produzido aliados estranhos como Henry Kissinger e Noam Chomsky que vêm de extremos opostos do espectro político – Kissinger serviu como secretário de estado sob a alçada de presidentes republicanos e Chomsky é um dos principais intelectuais de esquerda nos Estados Unidos – e colidiram frequentemente. Mas no que concerne à invasão russa da Ucrânia, ambos recentemente defenderam que a Ucrânia deveria considerar a hipótese de abdicar de algum território para alcançar um acordo de paz mais rápido.

Em suma, ambos professam a mesma versão de “pacifismo” que só resulta se negligenciarmos o facto fundamental de que a guerra não é sobre a Ucrânia, mas um momento de uma tentativa selvagem de mudar toda a nossa situação geopolítica. O verdadeiro alvo da guerra é o desmantelamento da unidade europeia defendida não apenas pelos conservadores americanos e pela Rússia, mas também pelas extremas direita e esquerda europeias – até ao momento, em França, Melenchon meets Le Pen.

A ideia mais louca que circula por estes dias é a de que, para contrapor a nova polaridade entre Estados Unidos e China (que representam os excessos do liberalismo ocidental e do autoritarismo oriental), a Europa e a Rússia deveriam juntar forças e formar um terceiro bloco “eurasiático” baseado no legado cristão purificado dos seus excessos liberais. A própria ideia de uma terceira via “euroasiática” é uma forma de fascismo actual.

Então o que acontecerá quando os votantes na Europa e na América, confrontados com custos crescentes na energia e uma inflação alargada propalada por sanções contra a Rússia, possam perder o apetite para uma guerra que parece não ter fim, com necessidades que só irão aumentar enquanto ambos os lados se dirigem a um impasse prolongado? A resposta é clara: chegados a esse ponto, o legado europeu estará perdido, e a Europa estará efectivamente dividida entre as esferas de influência americana e russa. Resumindo, a própria Europa tornar-se-á o lugar de uma guerra que parece não ter fim…

O que é absolutamente inaceitável para um verdadeiro esquerdista hoje é não só apoiar a Rússia, mas também fazer alegações neutras mais modestas de que a esquerda está dividida entre pacifistas e apoiantes da Ucrânia, e que devemos tratar esta divisão como um facto menor que não deve afectar a luta global da esquerda contra o capitalismo global.

Quando um país é ocupado, é a classe dominante quem é normalmente subornado para colaborar com os ocupantes para manter a sua posição privilegiada, para que a luta contra os ocupantes não se torne uma prioridade. O mesmo pode ser dito quanto à luta contra o racismo; num estado de tensão racial e exploração, o único modo de lutar eficazmente pela classe trabalhadora é manter o foco em combater o racismo (e é por isso que qualquer apelo à classe trabalhadora branca, conforme feito hoje pelo populismo de extrema direita, trai a luta de classes).

Hoje, não pode alguém ser de esquerda se não apoia inequivocamente a Ucrânia. Ser um esquerdista que demonstra compreensão pela Rússia é como ser um desses esquerdistas que, antes da Alemanha ter atacado a União Soviética, levaram a sério a retórica anti-imperialista alemã dirigida ao Reino Unido e professaram a neutralidade na guerra da Alemanha contra a França e o Reino Unido.

Se a esquerda vai falhar aqui, o jogo acabou para a esquerda. Mas significa isto que a Esquerda deve simplesmente tomar o partido do ocidente, incluindo os fundamentalistas de direita que também apoiam a Ucrânia? Num discurso em Dallas, a 18 de maio de 2022, enquanto criticava o sistema político da Rússia, o ex-presidente Bush disse: “O resultado é a ausência de pesos e contrapesos na Rússia, e a decisão de um homem de lançar uma invasão violenta e inteiramente injustificada do Iraque.” Ele corrigiu-se rapidamente: “Quer dizer, da Ucrânia”, dizendo depois “o Iraque, enfim…” provocando o riso da multidão, e acrescentou “75”, referindo-se à sua idade.

Como vários comentadores notaram, duas coisas saltam à vista neste óbvio deslize freudiano: o facto de a assistência ter recebido a confissão implícita de Bush de que a invasão americana do Iraque (por ele ordenada) se tratou de “invasão violenta e inteiramente injustificada” com riso, ao invés de a tratar como uma admissão de um crime comparável ao da invasão russa da Ucrânia; acresce a continuação enigmática de Bush na sua auto-correcção “o Iraque, enfim…” – o que quis ele dizer com aquilo? Que a diferença entre a Ucrânia e o Iraque não tem importância? A referência final à sua idade avançada não afecta em nada este enigma.

Mas o enigma é dissipado a partir do momento em que levamos a sério e à letra a declaração de Bush: sim, tendo em conta todas as diferenças (Zelensky não é um ditador como Saddam), Bush fez o mesmo que Putin faz agora com a Ucrânia, portanto deveriam ser ambos julgados pelos mesmos critérios.

No dia em que escrevo isto, ficamos a saber pelos media que a extradição para os Estados Unidos, do fundador da WikiLeaks, Julian Assange, foi aprovada por Priti Patel, Secretária de Estado para Assuntos Internos do Reino Unido. O seu crime? Nada mais do que tornar públicos os crimes confessados pelo deslize de Bush: os documentos revelados pela WikiLeaks mostraram como, sob a presidência de Bush, os militares americanos mataram centenas de civis em incidentes não reportados durante a guerra no Afeganistão, enquanto os documentos sobre a guerra do Iraque tornados públicos mostraram que 66.000 civis foram mortos, e vários prisioneiros torturados. Crimes inteiramente comparáveis com o que Putin está a fazer na Ucrânia. Em retrospectiva, podemos afirmar que a WikiLeaks revelou dezenas de Buchas e Mariupols imputáveis aos Estados Unidos.

Assim, se levar Bush a tribunal é tão ilusório quanto levar Putin ao tribunal de Haia, o mínimo que deve ser feito por aqueles que se opõem à invasão russa da Ucrânia é exigir a libertação imediata de Assange. A Ucrânia alega lutar pela Europa, e a Rússia alega lutar pelo resto do mundo contra a hegemonia ocidental unipolar. Ambas as alegações devem ser rejeitadas, e aqui a diferença entre esquerda e direita entram em cena.

Do ponto de vista da direita, a Ucrânia luta por valores europeus contra autoritarismos não-europeus; do ponto de vista da esquerda, a Ucrânia luta pela liberdade mundial, incluindo a liberdade dos próprios russos. E é por isso que o coração de cada verdadeiro Russo bate pela Ucrânia.


daqui: https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/jun/21/pacificsm-is-the-wrong-response-to-the-war-in-ukraine?fbclid=IwAR1JumHex23GIUWdFU8xq7CoclHq5iQIp1FStmR_tpdGOIPnv6n1TogMIlI

26/03/2022

 

La terreur n’est pas une caractéristique facultative des États totalitaires, elle fait partie de leur fondement même. C’est pourquoi il est vain de vouloir étudier ces États, comme l’ont fait diverses écoles «révisionnistes», sans en tenir compte, comme s’il s’agissait de sociétés animées par les conflits et les tensions classiques. On l’a bien vu en 1989: dès que la terreur a été suspendue (la police et l’armée n’avaient pas reçu l’ordre de tirer sur les manifestants), les États totalitaires communistes se sont écroulés comme un château de cartes.

 

Au-delà des frontières, la terreur retrouve le visage plus familier de la guerre (ou, en position de repli, de la guerre froide); les pactes sont forcément provisoires. Le but est toujours la domination; les moyens sont adaptés aux circonstances du moment. En fin de compte, la violence reçoit, dans le cadre totalitaire, une légitimation multiple. Elle est d’abord la loi de vie et de survie; mais elle convient, en outre, à celui qui possède la vérité scientifique: à quoi bon s’embarrasser de discussions quand on sait où il faut aller et ce qu’il faut faire?


La division de l’humanité en deux parties mutuellement exclusives est essentielle pour les doctrines totalitaires. Il n’y a pas de place ici pour les positions neutres; toute personne tiède est un adversaire, tout adversaire un ennemi. Réduisant la différence à l’opposition et cherchant ensuite à éliminer ceux qui l’incarnent, le totalitarisme nie radicalement l’altérité, c’est-à-dire l’existence d’un tu à la fois comparable au je, voire interchangeable avec lui, et qui pourtant reste irréductiblement distinct de lui. On tient là une définition de la pensée totalitaire, laquelle est beaucoup plus répandue que les États totalitaires: c’est celle qui ne laisse aucune place légitime à l’altérité et à la pluralité.

 

Son emblème pourrait être cette perle de Simone de Beauvoir, qu’on ne se lassera pas de citer : «La vérité est une, l’erreur est multiple. Ce n’est pas un hasard si la droite professe le pluralisme.» On ne dira pas pour autant, imitant son esprit, que la gauche est nécessairement totalitaire; c’est plutôt que, dans la pensée qu’illustre cette phrase, les principes de la guerre se trouvent étendus à la vie civile; l’ennemi de l’intérieur ne mérite pas moins la mort que celui du dehors. En ce sens, le totalitarisme est hostile à l’universalisme qui cultive, au contraire, l’idéal de paix.


Tzvetan Todorov, in "Mémoire du Mal, Tentation du Bien", pp. 35-36, Robert Laffont, 2000

 


 

23/02/2022


We have the “technocratic” vision of Europe as another efficient actor in global capitalism, we have the liberal vision of Europe as the pre-eminent space of human rights and freedoms, and we have the conservative vision of Europe as a union of strong national identities. How to orient ourselves in this mess? It is all too easy to distinguish between the different aspects of Europe, the good and the bad, adopting a stance wherein we reject the Europe which gave birth to modern colonialism, racism, and slavery, but we support the Europe of human rights and multicultural openness. Such a solution recalls an American politician from the era of prohibition who, when asked where he stands on drinking wine, replies: “If you mean by wine the drink which makes an evening with friends so wonderful, I am all for it, but if you mean by wine the horror which induces family violence and makes people jobless and degenerate, I am totally opposed to it!” Yes, Europe is a complex notion full of inner tensions, but we have to make a clear and simple decision: can “Europe” still serve as what Jacques Lacan called a Master-Signifier, as one of the names that symbolizes what the struggle for emancipation stands for?


My thesis is that it is precisely now, when Europe is in decline and the attacks on its legacy are at their strongest, that one should decide for Europe. The predominant target of these attacks is not Europe’s racist or conservative legacies, but the emancipatory potential that is unique to Europe: secular modernity, Enlightenment, human rights and freedoms, social solidarity and justice, feminism. . . The reason we should stick with the name “Europe” is not only because good features prevail over bad; the main reason is that the European legacy itself provides the best critical instruments with which to analyze what went wrong in Europe. Are those who oppose “Eurocentrism” aware that the very terms they use in their critique are part of European legacy?

 

Obviously, the most visible threat to this emancipatory potential comes from within, from the new Right populism which aims at destroying the European emancipatory legacy. The Right’s Europe is a Europe of nation-states bent on preserving their particular identity. When Steve Bannon visited France a couple of years ago, he made a speech which finished with the words: “God bless America and Vive la France!, Vive la France, viva Italia, long live Germany. . . but not Europe. We should be attentive to how this vision of Europe implies a totally different mapping of our political space.


In his Notes Towards the Definition of Culture, the great conservative T. S. Eliot remarked that there are moments when the only choice is the one between sectarianism and non-belief, when the only way to keep religion alive is to perform a sectarian split from its main corpse. This is our only choice today: only by means of a “sectarian split” from the standard liberal-democratic version of the European legacy, only by cutting ourselves off from the decaying corpse of the old Europe, can we keep the European legacy alive. To act on a global scale that is not focused on Europe—for instance in helping India and others with vaccines, mobilizing internationally against global warming, and organizing global health care—is the only way to be a true European today.


Slavoj Žižek, "A European Manifesto", in Heaven in Disorder, pág. 173-75, OR Books, Dez. 2021

 


 

06/02/2022

Lecture Two: “A Social and Psychic Revolution of Almost Inconceivable Magnitude”: Countercultural Bohemia as Prefiguration
 
Bentham famously proclaimed that mankind is at the mercy of two sovereign masters: pleasure and pain. Human beings will pursue pleasure and avoid pain. It seems obvious! But Freud discovers that this apparent truism just doesn’t hold up, actually. Much of the time, we will pursue things which seem, on the face of it, painful. There is, in a way, a second-order level of enjoyment, which is the enjoyment of things which, on the first-order level, seem to be painful. And yet, part of the problem that Freud had with his patients was this attachment to a second-order level of enjoyment. Because if it’s simply a matter of people being in pain, and that pain was straightforwardly undesirable, then you could fairly easily wean them off the pain, but if there’s some second kind of satisfaction to be derived from things which were superficially painful, then it’s much more problematic, and other attachments are formed. This is what stood in his way and one of the key things that he finds.  
 
So, then there is this problem of “repetition compulsion”, which is central to Beyond the Pleasure Principle of 1921. It’s commonly known that Beyond the Pleasure Principle, like Civilisation and its Discontents, was substantially informed by the experience of World War One. Because one of the things that Freud was puzzled by was shellshock, from the First World War. Shellshock, which is a phenomenon whereby people would repeat the trauma of a shell going off near them. So, if a book fell from a shelf, they would immediately be thrown back into the situation of a shell having exploded close to them.
 
We kind of take this for granted now. Freud asked the naive question:Why? Why do people do this? Because if an organism was simply motivated by staving off panic and moving towards pleasure, then what compels it to repeat these extremely unpleasurable things? Part of the answer for Freud is some kind of mastery over the trauma. The repetition enables the organism to claim the trauma for itself, in a way. And he discusses this with the so-called “fort–da” game… He plays this game [with his grandson], to do with the absence of his mother, who is spending more and more time apart from him, he plays this game which involved, I think, some sort of small object that you throw away and it’s here, it’s gone, it’s there, it’s gone, it’s here, it’s gone… And so, instead of simply avoiding the pain of the absence of his mother, he turned it into a game of which he could have some sort of mastery, and which tells him some sort of narrative in the process. 
 

This compulsion to repeat, then, becomes crucial. But beneath that there is then this more metaphysical problem that emerges for Freud from the very basic drives of human beings. And this is where he starts to posit the so-called “death drive”, which is highly complicated… We’ll broach it though.
 
Partly, it’s complicated because Freud himself is not fully sure what he thinks it is. You can see it in almost diametrically opposed ways, in some respects. The first way to see it, then, would be simply as a destructive or aggressive drive, which is simultaneously also the drive towards self destruction. And Freud starts to posit this as an independent drive from erotic drives, the drives for pleasure. But, hold on a minute … You see, what he also starts to think is, well, is this really opposed to the pleasure principle or another form of the pleasure principle? Because what the death drive ultimately seems to be aiming towards, at least in one of its versions, is acquiescence, peace, ultimate calm — the release from desire itself. This is the so-called “nirvana principle”… We can see it as if the organism is like an elastic band that is being pulled. It’s in a state of tension. And there is this innate impulse towards the release of that tension, just in the tension itself. If I keep pulling the elastic band, something doesn’t pull it back — it pulls itself.
 
This is one way that Freud starts to think of the death drive. The death drive has to be pivoted in its aim, and this is how Marcuse essentially discusses it — the erotic drives are there to impede the goal of the death drive towards acquiescence. The organism finds its own way to death — that’s the line that he takes. 
 
There’s another way of thinking about the death drive. A lot of Lacanians take this view of the death drive. People like Žižek. The deathdrive doesn’t aim at death; it doesn’t aim towards a final state of acquiescence. It aims at, rather… I don’t want to say an indifference to death.
 
One of Žižek’s examples is The Red Shoes. (. . . )
It’s where a ballerina puts on a pair of enchanted dancing shoes and they basically dance her to death. She’s initially in a state of ecstasy but, eventually, she can’t keep dancing at that sort of frenzied pitch, and so she dies.
 
The point is not that she was taken over by something which aimed at killing her. It’s that she happened to die because the drive made her indifferent to death; indifferent to organic death. This is a drive that was stronger than the desire to avoid death.
 
So, there are these two almost diametrically opposed senses of the death drive here, but what they have in common is this antipathy towards the idea of a utilitarian-style disposition of our desires. So, there’s all this to contend with. And this leads Freud, then, into his most pessimistic theses, which are expressed most powerfully in Civilisation and its Discontents, which haunts this chapter of Marcuse’s Eros and Civilisation.
 
Mark Fisher, in "Post Capitalist Desire. The Final Lectures, edited by Matt Colquhoun
 

 

01/12/2020

𝑼𝒎𝒂 𝒏𝒐𝒗𝒂 𝒆 𝒓𝒂𝒅𝒊𝒄𝒂𝒍 𝒍𝒆𝒊𝒕𝒖𝒓𝒂
 
      Claro que no mais fundo de nós desejaríamos que esta versão idílica da colonização e a não menos utópica da descolonização fraterna correspondessem à realidade. Que, sobretudo, não fossem uma demão (a última?) na imagem açucarada e sinistramente opressiva que os portugueses construíam de si mesmos e da sua História ao longo dos séculos. Acontece apenas que a mentira sobre nós mesmos nos corrompe a substância e nos rouba a verdadeira vida. Não temos depois do 25 de abril desculpa alguma para nos mentirmos por conta de uma imagem idólatra, beata, de nós mesmos e menos a temos para continuar a alimentá-la à custa de mitos imperiais historicamente defuntos. E tanto menos a temos quanto a simples e crua verdade do nosso destino de nação — compreendendo nele a colonização — não exige de nós ocultações urgentes nem penitência eternas. Como também não as exige a descolonização e as suas mais que surpreendentes (embora previsíveis) consequências. O que tudo está pedindo é, com urgentíssima necessidade, uma nova e radical leitura, precisamente a que se tornou imperativa para que a Revolução de Abril não seja apenas uma perturbação acidental do nosso viver sonâmbulo, mas a irrupção daquele espaço de liberdade mental e moral que nos permite olhar-nos sem complacência nem pânico, espelho da nossa vera realidade.
 
      Alguma coisa se modificou depois do 25 de Abril, mas, atentando bem, a essência da nossa antiga mitologia cultural continua intacta. A nova liberdade superficial do mero discurso político e ideológico vela-nos o mais importante, a vigência imperturbável do silêncio, da não-fala cultural sobre aquelas realidades-tabus que estruturavam a opacidade do Antigo Regime. Há uma nova arrumação dessas opacidades, uma aparente liberdade ou disponibilidade em relação a elas, mas sem eficácia nem poder de repensamento como o exigiria a dinâmica da ruptura se ela fosse o que poderia ter sido e não foi. Nem a opacidade-Igreja, nem a opacidade-PC, nem a opacidade-Forças Armadas, nem, a bem dizer, a pseudotransparência democrática oficial criada pelo 25 de Abril, foram deslocadas dos seus espaços míticos para a luz de uma consideração frontal não necessariamente iconoclasta, do seu estatuto, da sua função, do seu projecto no seio de uma sociedade que se diz democrática e livre. Terminou sem dúvida o silêncio maiúsculo da nossa antiga cultura, mas para dar lugar a um pluralismo de silêncios de algum modo tão perniciosos como o anterior. Escusado será dizer que o silêncio relativo às últimas peripécias da nossa aventura imperial e do seu fim resume e coroa todos os outros. Nesse campo é o vazio integral, a sufocação íntima por ausência.
 
Eduardo Lourenço, in "Do Colonialismo Como Nosso Impensado", pp. 264-66, 1ª ed., Gradiva Publicações, Lisboa, 2014

28/11/2020


     De um modo geral, pode-se dizer que a história contemporânea está cada vez mais dominada pelo aumento de reivindicações de singularidade subjectiva - querelas linguísticas, reivindicações autonomistas, questões nacionalísticas, nacionais que, numa ambiguidade total, exprimem por um lado uma reivindicação de tipo libertação nacional, mas que, por outro lado, se encarnam no que eu denominaria reterritorializações conservadoras da subjectividade. Deve-se admitir que uma certa representação universalista da subjectividade, tal como pode ser encarnada pelo colonialismo capitalístico do Oeste e do Leste, faliu, sem que ainda se possa plenamente medir a amplitude das consequências de um tal fracasso. Actualmente vê-se que a escalada do integrismo nos países árabes e muçulmanos pode ter consequências incalculáveis não apenas sobre as relações internacionais, mas sobre a economia subjectiva de centenas de milhões de indivíduos. E toda a problemática do desamparo, mas também da escalada de reivindicações do Terceiro Mundo, dos países do Sul, que se acha assim marcada por um ponto de interrogação angustiante.
 
Félix Guattari, in "Caosmose. Um novo paradigma estético" (trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão) pág. 13, Editora 34, SP, 2006 [1992]