04/05/2015

(a pedido de alguns amigos leitores, reponho aqui um texto então escrito a quente, agora retocado aqui e ali. permanece apenas um registo, mantém-se o essencial.)



            soube da morte de Herberto Helder por mensagem. o meu telemóvel é agora um instrumento de morte. menti à amiga que ma comunicou e disse que me tinham vindo as lágrimas aos olhos: a verdade é que chorei como um menino, encolhido no assento do autocarro que me levava para uma aula na faculdade. uma falta de respeito pelo poeta, eu sei. talvez uma falta de respeito para com a sua família, também. ainda assim, não soube conter as palavras que desaguavam nos meus olhos. de cada vez que repetia mentalmente “gregos”, “necrológios”, “paixão”, ria e chorava ao mesmo tempo. nessa bendita aula, uma professora-autora falou acerca do poeta a uma turma mais ou menos interessada, mais ou menos conhecedora. fiquei em silêncio a tentar enganar a amiga da mensagem, que também lá estava. a cada comentário ou paragem cerebral de não-leitores, repetia para mim que “a morte é passar, como rompendo uma palavra, / através da porta, / para uma nova palavra”.
            foi uma homenagem conseguida, para quem lá esteve. não desejaria estar noutro sítio. eu estive a meio gás, pensando que, na sua hora, Herberto terá levado “(...) uma flecha / pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado / loucamente / por um caçador de que nada se sabia.” no dia em que o poeta do corpo deixou o seu corpo – ironia terrível – multiplicaram-se as partilhas de poemas e manifestações públicas de amizade. eu não conhecia o poeta cujas mãos eram cítara, por isso me doeu que, como num relâmpago intelectual, tantos iluminassem tão grande obra num só dia; por isso “não posso ouvir cantar tão friamente”. eu não conheci “o” Herberto porque ele quis assim e eu também. a minha relação com o seu corpo poético estará sempre armadilhada: fuga e captura, em loop. de um ponto de vista geracional cheguei atrasado. enquanto leitor, até a morte procurarei aprender. os seus livros foram para mim uma “casinfância” na qual me formei leitor e homem, apalpando, cego, as “líricas rodas da vida”.
            cresci com aquele “leite cantante” que me ensinou que um poema se começa com o objecto mais vulgar – uma bic de tinta preta – e que assim se atinge o sublime, que “subindo pela caneta”, o poema regressa e “Tudo se levanta como um cravo, / uma faca levantada.” Herberto fez de leitores e obra um continuum, uma “devastação inteligente”. hoje, apetece-me dizer-te, Herberto, coisas que poucos entenderão. apetece-me lembrar quando cheguei à “assombrada roseira” que espalhaste no ventre de todas as mulheres e que, ora quente, ora fria, presidiu às relações, às mulheres que a mim se entregaram. ciciar-te que anseio pela roseira derradeira. apetece-me dizer-te que tenho muita vontade de cerrar “(…) os olhos para ouvir durante toda a noite, / e todo o mês, e recomeçando no interior / da minha vida – o sangue.” dizer-te que hoje sou como “Alguém que se deitasse / com um grito / dentro” não basta.
            apontado como ininteligível, respondeste: “Meu deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.” tudo o que se proferir para lá disso, será excrescência. a ti, como a ninguém, pertenciam o underground e o sagrado, o cósmico e o concreto. budista e hedonista, homem-língua do inominável, corpo-vaso do sopro sagrado, correndo “pelo orvalho dentro”. tu, que tantas vezes calçaste luvas de sangue para nos devolveres o terreno e o eterno, de quem não ficará registo “em nenhum écran do Deus descontínuo”, estás agora livre de todas as servidões. és uno e verbo. és, como quiseste, gramatical. não há despedida, sei onde te encontrar. que “funda manhã” aquela, fiquei-me dobra a pedir ar ao corpo. entrei na sala “de dentro para fora”, sorrindo educadamente “até cada objecto se encher de luz”. fraquejei, foi uma fracção. ou foi uma hora? ou foi... não. a professora-autora pressionou o play e eu encolhi-me de novo na cadeira, desta feita com inveja. a tua voz era só para mim. ou não era? lembrei que o dardo se atira “com o corpo todo”, fiz-me alvo. estóico. escutei.
            com o livro Servidões tornou-se evidente estarmos já de fora do poema contínuo: “ele que tinha ouvido absoluto para as músicas sumptuosas do verso livre / ouvia a cada nó de sílaba / um silêncio de morte”. da aflição que isto causou à crítica não falarei. aduzo apenas uma hipótese de leitor: o seu último livro – Poemas Completos – abandona a ideia de continuidade, pelo que leio a obra de Herberto como composta por três poemas. o primeiro aquele contínuo que termina com os inéditos de A Faca Não Corta o Fogo; o segundo Servidões, no qual “matou o poeta contínuo”; o terceiro A Morte Sem Mestre, no qual resolveu a sua biografia enquanto escrevia, a seu modo, um ars moriendi para ajudar, não a si mesmo, mas os seus leitores. não sei se esta dos três agradaria a Herberto; é que todo o tronco precisa de dois braços para viver e morrer. depois da desarrumação levada a cabo por Cesariny, Herberto Helder é o mælstrøm da literatura portuguesa. mesmo aos que não o lêem ainda, a esses “rebenta-lhes a flor na nervura”. doravante, muitos (se não todos) escreverão contra, porque a sua obra é “a frase de que” somos “filho”. daqui a uns dias talvez releia o Húmus, do Raul Brandão. agora vou mergulhar os polegares numa laranja.

Escultura de Francisco Simões ©

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