24/11/2015

(não-resposta a poema de josé miguel silva, com eco)

o dia e a noite não me servem,
ao pôr-do-sol é que me sei,
embora saiba tratar-se de uma
convenção, que nada se põe.
não sei o que se passa comigo.
vou a concertos de orquestra
e o que mais me fica é o antes,
enquanto os músicos afinam.
sento-me em família e é raro o
momento em que concordamos
politicamente. quando estou entre
amigos prefiro o silêncio porque
me parece que não tenho nada
de importante para dizer. levo
as suas vozes para casa, dentro
do mais fundo de mim - ecos
de um sagrado ateu. fico horas
a ouvir o mesmo tema em loop
e a pensar que não me entendi
com ela porque não discutimos,
que algo em mim cessou ao ouvir
o seu riso afinal e apenas oco.
perdi o gosto à poesia e meti
uma máquina entre mim e o mundo
para fingir que faço fotografia.
pouso livros ao colo e quando
um verso me rouba ao alheamento
penso que ascender é ainda
uma forma de queda. comigo
me desavim? je est un autre?
meto as mãos aos bolsos e afundo
quanto de mim é corpo na cadeira
para ter a certeza de que estou
aqui, compacto, pronto a negar
que dentro de um homem pode
nascer uma ilha a que um esteta,
se pudesse, chamaria de pedra.
que é possível partir e ficar.