30/10/2016

"Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio ", Nº 1 setembro 2016.

Coordenação: Victor Oliveira Mateus




COLABORADORES:

Adalberto Alves, Albano Martins, Alberto Pereira, Alberto Riogrande, Alexandre Bonafim (Brasil), Alice Fergo, Amadeu Baptista, Amadeu Liberto Fraga, Ana Mafalda Leite, Ana Maria Puga, André Alves, António de Almeida Mattos, António Cândido Franco, Antonio Carlos Sechin (Brasil), António Ferra, António José Queiroz, António Salvado, Artur Coimbra, Carlos Afonso, Casimiro de Brito, Cecília Barreira, César A. Miranda de Freitas, Cláudia Lucas Chéu, Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Ernesto Rodrigues, Eugénia Bettencourt, Iacyr Anderson Freitas (Brasil), Inez Andrade Paes, Isabel Cristina Pires, Jeannette L. Clariond (México), Jessica Falconi ( Itália ), João Rasteiro, Jorge Velhote, José Jorge Letria, José Viale Moutinho, Julia Barella (Espanha), Julio Ferreira Leite, Luís Aguiar, Luís Fernando Chueca Field (Peru), Luís Filipe Pereira, Luís Filipe Sarmento, Luís Quintais, Maria Augusta Silva, Maria José Quintela, Maria Quintans, Marisa Martinez Pérsico (Argentina - Itália ), Mbate Pedro (Moçambique), Montserrat Villar González (Espanha), Orlando Barros, Paulo Inocêncio Moreira, Paulo Pêgo, Pompeu Miguel Martins, Renata Pallottini (Brasil), Renato Epifânio, Ricardo Gil Soeiro, Ricardo Marques, Rui Rocha (Macau), Ruy Espinheira Filho (Brasil), Samuel Pimenta, Sergio Laignelet (Colômbia - Espanha), Vicente Alves do Ó, Xavier Oquendo Troncoso (Equador), Xosé Lois Garcia (Espanha - Galiza).
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Nota: os poetas de Língua Castelhana foram todos traduzidos para Português por Victor Oliveira Mateus à excepção do poema de Montserrat Villar González que foi traduzido por Jorge Fragoso. O poema de Xosé Lois Garcia virá em Língua Galega, O ensaio de Jessica Falconi foi escrito directamente em Português.

22/09/2016

oficinas de carne ambulantes, o desengano acena ao leitor que somos.
desafiem-se algumas notas desse parente do simum,
deixemos o sorriso ser hiena enquanto alguém se autoflagela
até um fio de luz antibiótica nos resgatar
daquela roda de poço que puxava água aos olhos.
cuidado, o fio que brilha pode ser de navalha,
diz o primeiro leitor. e o cínico, escondido atrás do papel,
responde: há muito me cortei, é do sangue que escrevo.
deflagra a dúvida, parte-se o pescoço à certeza mais dura
e do tutano drena-se surpresa. ardamos de não saber,
mesmo se a dada altura precisarmos tanto de luz.
cansada de mentir à folha, a língua dirá que o silêncio
do algoz começa no espelho, que a pior das noites é aquela
que se instala nas paredes interiores do corpo.
dorme enquanto podes, diziam uns olhos prevendo
a operação stop. magoar-te-ei e deixar-te-ei vivo para
que não esqueças: mesmo as ruas estão obrigadas
aos dois sentidos da derrota. não se sabe ao certo
quantos fantasmas de pátroclo aguenta um homem.
sabe-se, porém, que foi o homem a inventar o anzol
e que é a humanidade hoje a ser pescada em lesbos.
queria cobrir-me todo de terra como de nojo,
porque a poesia é um velho com cataratas
e o poema uma criança a brincar. ulisses já não tem
para onde regressar e o cínico, esse, segue para sul,
onde ainda é possível morrer sem interrupções
entre uma laranja e a memória do sal na pele,
sem nunca regressar dos mortos que escurecem
as paredes e engrossam a voz a cada noite destilada.
tréguas é a palavra menos pensada de toda a história
e o mal menor é mesmo que nas livrarias deste país
os gregos se vendam ao centímetro quadrado.

© amadeu liberto fraga

30/07/2016

o meu conto "Asas", na revista Preguiça online. grato a Paulo Kellerman (pela leitura e publicação) e a João Pedro Coutinho pela ilustração:

http://preguicamagazine.com/2016/07/25/conto-asas-de-amadeu-liberto-fraga/

24/02/2016

era quase noite.
agora é quase sempre quase noite.
a indefinição da distante paisagem
a tremer nas canas ou nos olhos
aproximou a lente das águas paradas
num plano cansado, contrapicado.
engana-se o obturador,
mas não se engana facilmente
a ingenuidade de uma ave.
silvando o ar, agitando quase
de noite, quase sobre a minha cabeça
perdida, uma garça-real silvou
ao perto e longe daquele resto
de diálogo que tinha comigo, disfarçado
de disparo. esqueci-me de programar
o balanço de brancos para o fim do dia.
ficou tudo difuso. era quase noite.
desequilibrei-me. não caí,
mas também não me levantei.
era quase eu.

amadeu liberto fraga

07/01/2016

uma breve gota basta,
benévola ou nefasta.



















© poema e fotografia: amadeu liberto fraga

04/01/2016

(ao antónio, o primeiro estóico que conheci)
o longe é uma pedra quente que se agarra.
quando era miúdo atirei uma dessas e atingi
a cabeça do antónio. hoje não sei nada dele
mas sei que esta educação pela pedra disse
então, como agora: quando violentamos
alguém, é o braço que não volta, não a pedra.
um insulto de criança, um instante com sua
raiz no mais sincero e infantil mal.

dente por dente. um poema não salda dívidas,
nem se pode esperar de um mestre como o mar
que nos tire de dentro da caixa torácica a pedra
instalada pela culpa. o joão cabral sabia da
dureza de certos homens. hoje sei: coisas
como uma pedra só dão fruto se deixarmos.
o antónio não deixou. ferido, ensinou-me.
depois do mar, o antónio foi o meu mestre.

só mais tarde vieram os músicos e os poetas.



amadeu liberto fraga