24/02/2016

era quase noite.
agora é quase sempre quase noite.
a indefinição da distante paisagem
a tremer nas canas ou nos olhos
aproximou a lente das águas paradas
num plano cansado, contrapicado.
engana-se o obturador,
mas não se engana facilmente
a ingenuidade de uma ave.
silvando o ar, agitando quase
de noite, quase sobre a minha cabeça
perdida, uma garça-real silvou
ao perto e longe daquele resto
de diálogo que tinha comigo, disfarçado
de disparo. esqueci-me de programar
o balanço de brancos para o fim do dia.
ficou tudo difuso. era quase noite.
desequilibrei-me. não caí,
mas também não me levantei.
era quase eu.