𝑼𝒎𝒂 𝒏𝒐𝒗𝒂 𝒆 𝒓𝒂𝒅𝒊𝒄𝒂𝒍 𝒍𝒆𝒊𝒕𝒖𝒓𝒂
Claro que no mais fundo de nós desejaríamos que esta versão idílica da colonização e a não menos utópica da descolonização fraterna correspondessem à realidade. Que, sobretudo, não fossem uma demão (a última?) na imagem açucarada e sinistramente opressiva que os portugueses construíam de si mesmos e da sua História ao longo dos séculos. Acontece apenas que a mentira sobre nós mesmos nos corrompe a substância e nos rouba a verdadeira vida. Não temos depois do 25 de abril desculpa alguma para nos mentirmos por conta de uma imagem idólatra, beata, de nós mesmos e menos a temos para continuar a alimentá-la à custa de mitos imperiais historicamente defuntos. E tanto menos a temos quanto a simples e crua verdade do nosso destino de nação — compreendendo nele a colonização — não exige de nós ocultações urgentes nem penitência eternas. Como também não as exige a descolonização e as suas mais que surpreendentes (embora previsíveis) consequências. O que tudo está pedindo é, com urgentíssima necessidade, uma nova e radical leitura, precisamente a que se tornou imperativa para que a Revolução de Abril não seja apenas uma perturbação acidental do nosso viver sonâmbulo, mas a irrupção daquele espaço de liberdade mental e moral que nos permite olhar-nos sem complacência nem pânico, espelho da nossa vera realidade.
Alguma coisa se modificou depois do 25 de Abril, mas, atentando bem, a essência da nossa antiga mitologia cultural continua intacta. A nova liberdade superficial do mero discurso político e ideológico vela-nos o mais importante, a vigência imperturbável do silêncio, da não-fala cultural sobre aquelas realidades-tabus que estruturavam a opacidade do Antigo Regime. Há uma nova arrumação dessas opacidades, uma aparente liberdade ou disponibilidade em relação a elas, mas sem eficácia nem poder de repensamento como o exigiria a dinâmica da ruptura se ela fosse o que poderia ter sido e não foi. Nem a opacidade-Igreja, nem a opacidade-PC, nem a opacidade-Forças Armadas, nem, a bem dizer, a pseudotransparência democrática oficial criada pelo 25 de Abril, foram deslocadas dos seus espaços míticos para a luz de uma consideração frontal não necessariamente iconoclasta, do seu estatuto, da sua função, do seu projecto no seio de uma sociedade que se diz democrática e livre. Terminou sem dúvida o silêncio maiúsculo da nossa antiga cultura, mas para dar lugar a um pluralismo de silêncios de algum modo tão perniciosos como o anterior. Escusado será dizer que o silêncio relativo às últimas peripécias da nossa aventura imperial e do seu fim resume e coroa todos os outros. Nesse campo é o vazio integral, a sufocação íntima por ausência.
Eduardo Lourenço, in "Do Colonialismo Como Nosso Impensado", pp. 264-66, 1ª ed., Gradiva Publicações, Lisboa, 2014
Sem comentários:
Enviar um comentário