em 2008, pouco depois do aparecimento de "A Faca Não Corta o Fogo", de Herberto Helder, a Assírio & Alvim divulgava um livro com a obra do escultor autodidacta madeirense Francisco Ferreira. essa obra é uma lapinha (presépio expandido com figuras típicas madeirenses e outras, religioso e profano de mão dada, até uma decapitação nos aparece...), inteiramente feita com madeiras e com pigmentos naturais. a obra tomou tal dimensão e tal fama, que, perante o fluxo de visitantes, se tornou inviável manter a lapinha em sua casa, pelo que mandou construir no seu quintal uma capela para expôr todo o seu trabalho. Francisco Ferreira e Maria Augusta Fernandes, sua esposa, morreram nos anos '30, mas a família foi mantendo a lapinha. nos anos '70 um incêndio destruiu a capela, mas as figuras foram salvas. o livro de que vos falo: "Lapinha do Caseiro", com fotos de Ricardo Jardim, procura reconstituir na medida do possível essa lapinha, disposta em casa de Lourdes Castro num cenário que procurou replicar o original. a obra de um analfabeto (para quem a mulher lia a Bíblia) quase desaparecer num incêndio numa capela, seria já de si motivo para despertar o interesse deste agnóstico. se lhe juntarmos poema(s) do bisneto do escultor, o poeta Herberto Helder, que vai para o ringue com Deus, então perceberão o valor acrescentado e o foco que esta obra permite. abaixo apenas uma foto de uma página, alusiva à época natalícia e parte do(s) poema(s) de HH. a lapinha é muito mais, mas vão à procura... e sim, se não forem crentes, ou mais ainda se o não forem, poderão apreciar a lapinha com olhos de ver.
Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos?
Nem música nem cantaria.
Foi-se ver no livro: de um certo ponto de vista de
terror sentido beleza
acontecera sempre o mesmo - quebram-se os selos aparecem
acontecera sempre o mesmo - quebram-se os selos aparecem
os prodígios
(...)
O homem não é uma criatura entre mal e bem: falava-se com Deus
porque Deus era potência, Deus era unidade rítmica.
A mão sobre as coisas com vida sua, com essa mão reunir as coisas,
refazer as coisas - cada coisa tem a sua aura, cada animal tem
a sua aura, como se pastoreiam as auras!
em transe: eu sou a coisa. Acabou.
(...)
O homem não é uma criatura entre mal e bem: falava-se com Deus
porque Deus era potência, Deus era unidade rítmica.
A mão sobre as coisas com vida sua, com essa mão reunir as coisas,
refazer as coisas - cada coisa tem a sua aura, cada animal tem
a sua aura, como se pastoreiam as auras!
em transe: eu sou a coisa. Acabou.
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