11/07/2025

 

Fernando Guimarães (03.02.1928 — 11.07.2025)

 

Poeta único (mesmo único) e incansável, ensaísta extraordinário, professor de/para várias gerações, deixa vasta obra, de qualidade contínua inegável. Sendo certo que já não se fazem homens assim (da sua disponibilidade e da sua gentileza têm sido deixados inúmeros testemunhos nas redes sociais desde o dia de ontem), não menos certo será afirmar que poetas assim não surgem a toda a hora.

Combinava o conhecimento literário, a estética, um certo pensamento especulativo (que tornava tantos dos seus poemas em filosofemas, algo que partilhava com o seu amigo Fernando Echevarría), o amor pelas artes plásticas e pela música, com uma linguagem poética própria onde parecia caberem mundos vários, e de onde, apesar disso, estava ausente Fernando Guimarães.

Feito extraordinário, numa obra iniciada na década de 50 e cujo último título é deste ano. Entre "A Face Junto ao Vento" e "Sobre a Voz", fica um legado poético povoado por intertextualidades, palimpsestos, écfrases (no sentido grego/estrito e no sentido mais lato/moderno de exercício meditativo a partir de), mas também exemplos sem igual de metapoesia, assim como textos habitados por personagens, normalmente, de outros tempos.

Essa alteridade, não raro, manifestava-se, por convocação de figuras femininas, como mostram os poemas sobre a violação de mulheres em tempos de guerra ou uma longa fala de uma mulher idosa, entre tantos outros. Além de poemas a partir de esculturas, telas, música dita erudita, ou de convocação de mitos ou de figuras mais ou menos anónimas mas universais, a poesia de Fernando Guimarães adquiria, em momentos altos, uma forte e rara carga simbólica, provavelmente inigualável no panorama da poesia portuguesa, a partir de palavras-imagens que logo se tornavam centros nevrálgicos ou rizomas/pontos de partida.

Disso são exemplo os poemas em torno do conceito de árvore ou de casa, que em dois ou três versos passavam da definição diccionarizada para expansões metafóricas produtoras de inusitados sentidos múltiplos. Nos últimos livros (entra, estilo tardio), as meditações acerca da morte intensificaram-se, de mão dada com um tom elegíaco que homenageava a sua esposa, Maria de Lourdes Guimarães (falecida em 2021), também autora e tradutora.

Além da produção poética, FG deixa vasta obra ensaística, da qual se destacam estudos sobre o Simbolismo e o Modernismo, mas também sobre a poesia contemporânea ou a ligação entre literatura e artes plásticas, tema que lhe era muito caro e que lhe inundou a obra tanto na vertente poética quanto na recensão/ensaística. Se a sua obra poética foi vigilantemente editada e reeditada/recompilada, como mostram as sucessivas recolhas por entre novos livros (na Modo de Ler, nas Quasi e na Afrontamento), urge reeditar alguma da sua obra ensaística, há muito esgotada.

Disso são exemplo algumas obras de estética editadas in illo tempore pela Presença ou obras sobre o Romantismo e sobre o Modernismo editadas pela Lello nos anos 90, quando a Lello ainda era a Lello... Como se não fosse tudo isto já extraordinário, colaborou ainda com várias revistas e alguns jornais, que me coíbo aqui de listar, e foi ainda tradutor, entre outros, de Shelley, Keats ou Dylan Thomas. Poderia dizer-se que aquele verso de Camões, tão citado e deslocado por tudo e por nada - "Para tão longo amor tão curta a vida" - serve a Fernando Guimarães como a muito poucos.


alf

 

 
 


 

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