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30/09/2019

O mar voa nas rochas, como
se a manhã se formasse onde se forma o cuspo eu aproximo-me
dele e arde a pele de que a memória
vem lentamente tomar conta.

Avanço com cuidado, agora que de novo
nas praias o mar solta os cães. O que chamávamos
verão são poços através
dos quais se some a pele pela memória dentro.

Luís Miguel Nava, in "Como Alguém Disse", Contexto Editora, 1982



29/09/2019

Falésias 

Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual ele vem como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.


Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.


Luís Miguel Nava, in "Como Alguém Disse", Contexto Editora, 1982


Manuel Cargaleiro, para o livro "Como Alguém Disse"