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30/09/2019
Luís Miguel Nava, in rev. Colóquio-Letras nº100, fundação Calouste Gulbenkian, Nov. 1987, pág. 116
fonte: http://coloquio.gulbenkian.pt/cat/sirius.exe/issueContentDisplay?n=100&p=116&o=p
Luís Miguel Nava, in rev. Colóquio-Letras nº76, fundação Calouste Gulbenkian, Nov. 1983, pág. 53
fonte: http://coloquio.gulbenkian.pt/cat/sirius.exe/issueContentDisplay?n=76&p=53&o=p
O mar voa nas rochas, como
se a manhã se formasse onde se forma o cuspo eu aproximo-me
dele e arde a pele de que a memória
vem lentamente tomar conta.
Avanço com cuidado, agora que de novo
nas praias o mar solta os cães. O que chamávamos
verão são poços através
dos quais se some a pele pela memória dentro.
Luís Miguel Nava, in "Como Alguém Disse", Contexto Editora, 1982
se a manhã se formasse onde se forma o cuspo eu aproximo-me
dele e arde a pele de que a memória
vem lentamente tomar conta.
Avanço com cuidado, agora que de novo
nas praias o mar solta os cães. O que chamávamos
verão são poços através
dos quais se some a pele pela memória dentro.
Luís Miguel Nava, in "Como Alguém Disse", Contexto Editora, 1982
Paisagem Citadina
A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensável que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.
Não temos então dela senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos
por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.
A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.
Luís Miguel Nava, in "O Céu Sob as Entranhas", Limiar, 1989
A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensável que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.
Não temos então dela senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos
por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.
A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.
Luís Miguel Nava, in "O Céu Sob as Entranhas", Limiar, 1989
29/09/2019
Falésias
Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual ele vem como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.
Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.
Luís Miguel Nava, in "Como Alguém Disse", Contexto Editora, 1982
Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual ele vem como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.
Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.
Luís Miguel Nava, in "Como Alguém Disse", Contexto Editora, 1982
| Manuel Cargaleiro, para o livro "Como Alguém Disse" |
Sem Outro Intuito
Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.
Luís Miguel Nava, in "Vulcão", Quetzal, 1994
Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.
Luís Miguel Nava, in "Vulcão", Quetzal, 1994
Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.
Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.
Luís Miguel Nava, in "Vulcão", Quetzal, 1994
dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.
Luís Miguel Nava, in "Vulcão", Quetzal, 1994
28/09/2019
INTRODUÇÃO
Atei uma ligadura ao mundo. Seguindo uma estratégia diferente, há quem o
aparafuse, ajoelhando-se na terra, ou abra nele um olho, uma pupila. Por
cima dele o céu é elástico. Elástico, adesivo, eis dois dos atributos que, ao
dar por acabado o livro de que este texto pode, entre outros, ser a
introdução, mais me fascinam. A própria alma é elástica: podemos,
assentando um dedo sobre a sua superfície e pressionando-a, levá-la a
tocar nas coisas mais inesperadas. O real é um vidro pintado sob o sol
berrante, as coisas prendem-se-me ao espírito. Do mar, para não dar senão
um exemplo, fiz a minha máscara integral.
Luís Miguel Nava, in "Rebentação", &etc, 1984
Atei uma ligadura ao mundo. Seguindo uma estratégia diferente, há quem o
aparafuse, ajoelhando-se na terra, ou abra nele um olho, uma pupila. Por
cima dele o céu é elástico. Elástico, adesivo, eis dois dos atributos que, ao
dar por acabado o livro de que este texto pode, entre outros, ser a
introdução, mais me fascinam. A própria alma é elástica: podemos,
assentando um dedo sobre a sua superfície e pressionando-a, levá-la a
tocar nas coisas mais inesperadas. O real é um vidro pintado sob o sol
berrante, as coisas prendem-se-me ao espírito. Do mar, para não dar senão
um exemplo, fiz a minha máscara integral.
Luís Miguel Nava, in "Rebentação", &etc, 1984
27/09/2019
Na natureza se retratam céus,
expande-se nos céus a natureza –
e em cada relâmpago ou trovão
vejo e sinto, rompendo o espectáculo,
a profecia da eterna ambiguidade
de uma pitonisa, de um oráculo.
Qual a verdade do meu ser, ó Deus?
não me mantenhas sempre na incerteza!
Faz que eu possua ao menos o perdão
do que é talvez normal na puberdade.
Luís Miguel Nava, in "O Perdão da Puberdade", Coimbra, 1974
(obra publicada aos 16 anos, assinando ainda Perry Nava, e mais tarde renegada pelo autor)
expande-se nos céus a natureza –
e em cada relâmpago ou trovão
vejo e sinto, rompendo o espectáculo,
a profecia da eterna ambiguidade
de uma pitonisa, de um oráculo.
Qual a verdade do meu ser, ó Deus?
não me mantenhas sempre na incerteza!
Faz que eu possua ao menos o perdão
do que é talvez normal na puberdade.
Luís Miguel Nava, in "O Perdão da Puberdade", Coimbra, 1974
(obra publicada aos 16 anos, assinando ainda Perry Nava, e mais tarde renegada pelo autor)
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