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29/09/2019

Sem Outro Intuito 

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.


Luís Miguel Nava, in "Vulcão", Quetzal, 1994
Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.


Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,


aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.


Luís Miguel Nava, in "Vulcão", Quetzal, 1994