01/11/2014

      ontem, trinta e um de outubro, vi muita gente mascarada a passear pela cidade, e estou certo de que muita gente preferiu a travessura à doçura. a maquilhagem, essa, pode remover-se, mas algumas máscaras - como a do cavaco - já caíram há muito e não há maquilhagem que o esconda da noite das bruxas em que se tornou a nossa mui nobre classe política. tive, assumo, esperança que algum culto satânico se desse ao trabalho de esfolar o coelho-mor, mas parece que o cara de broche vai continuar a chupar nas cenouras dos outros. 
      hoje, primeiro de novembro, vi senhoras e cavalheiros atropelando-se para chegarem primeiro às flores que logo abandonarão na lápide que raramente visitam: é preciso cuidado, o hábito faria o monge. como se sabe, o halloween, de tão português, foi importado dos estados unidos - onde serve para abafar o feriado mexicano dos mortos: para esse latinos vestir-se para vir à rua em parada e dançar, é expiar os seus demónios uma vez no ano. lavam a alma e retomam o seu quotidiano, como nenhum pilatos português pode já fazer. 
      esta parada, por metonímia, pode também corresponder a uma transmigração das almas que me leva para uma outra viagem: brittany maynard, americana, vinte e nove anos, não chegará à minha idade. mudou-se de san francisco - no flowers in her hair - para o oregon, estado que lhe permitirá pôr termo à sua vida. brittany tem um cancro em estado terminal e percebeu que less is more. decicidiu viver em qualidade os últimos dias e tentar mudar mentalidades. hoje é o dia dos finados, mas é também o dia depois do aniversário do marido de brittany, dan diaz. primeiro de novembro, o último de brittany. penso no fuso horário e sinto-me absurdo: não é tarde, é cedo... e ainda assim, talvez os tempos verbais estejam todos errados. talvez brittany já tenha partido. 
      já não sei o que é a solidão, não posso saber: neste momento, seria, suponho, alguém a olhar para a combinação de pharmakoi que porá fim ao seu respirar. o cavaco, o coelho, a síria, os curdos, a malala, hoje, ficam um pouco lá atrás, ruído de fundo que retomarei dentro de algumas horas. pergunto-me se aquele casal celebrou o aniversário dele, se perceberam que o halloween nunca mais será a mesma coisa para quem os ama, pois juntaram, na memória dessas pessoas, vida e morte. sinto, sim, sinto que me torno aos poucos um voyeur vicioso e percebo que está na hora de dar este texto por finado. se hoje me saísse um poema (o que será isso, afinal?), seria sobre e para brittany e dan. mas não me sinto capaz. 
      então, faça-se noite.

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