Os Prazeres Inferiores
Não desdenhes as paixões vulgares.
Tens os anos necessários para saber
que elas se correspondem exactamente com a vida.
Não reduzas sua acção,
pois se do breve tempo em que consistes
as retiras,
é ainda o existir mais imperfeito.
Descobre sua verdade por trás da aparência,
e assim não haverá falsidade,
não poderás fingir que foi razão de vida o que foi só passagem.
Mas elas evitaram-te o fiel tédio das horas.
Exigem lucidez, não em sua experiência,
mas em seu escasso ser;
dá-lhes seu exacto valor,
para o que tens de saber o que a vida vale
e essa sabedoria há muito que é tua.
Se cometes um erro quando as medes,
hás-de fazê-lo atendendo à degradação.
Nunca melhores o que vale pouco.
E que não tenham nome, nem tempo demorado,
e fiquem confundidas em sua promiscuidade.
Sabes que tua memória é débil e te ajuda.
São todas uma só,
como é única a vida.
E as outras paixões que merecem um nome
e o abrigo de um tempo,
salva-as longe delas,
e sempre te recordem o que a vida não é.
E agradece tais erros à vida.
Francisco Brines, in "Ensaio de Uma Despedida. Antologia 1960-1986", pág. 133-34, selecção e tradução de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, nov. 1987
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