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20/06/2019


Ergo o espelho da vida
até ao meu rosto: sessenta anos.
De um golpe estilhaço o reflexo -
E o mundo como é hábito
fica com tudo no seu lugar.

Taigen Sofu (1495 - 1555), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

18/06/2019

O meu corpo não tem um único osso que seja sagrado - 
não passa de um monte de cinzas de ossos malcheirosos.
Cava um buraco fundo e lá enterra estes restos mortais.
Assim, nem uma partícula de pó irá manchar
As montanhas verdes.

Shumpo Soki (1409 - 1498), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)
 
Aquele que vem sabe apenas da sua chegada
    Aquele que parte sabe apenas o seu fim.   
           Porquê agarrar-se ao penhasco           
              Para ser salvo do abismo?
              Nuvens que flutuam rente
Nunca sabem para onde os ventos as soprarão. 

Sengai Gibon (1750 - 1837), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

17/06/2019

Por mais de trinta anos
Trabalhei para me anular.
Agora dou o salto da morte.
O chão agita-se
Os céus andam à roda.

Rankei Doryu (c. 1231 - 1278), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

16/06/2019

De mãos vazias entrei no mundo
Descalço o deixo.
Minha chegada, minha partida - 
Dois acontecimentos simples
Que se emaranharam.

Kozan Ichikyo (1283 - 1360), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

15/06/2019

Roda em perpétuo movimento é a vida
E cada dia é o dia certo.
Aquele que recita poemas à sua morte
Acrescenta geada à neve.


§

A vida é como uma nuvem de névoa
Emergindo de uma caverna
E a morte
Uma lua flutuante
No seu curso celeste.
Se pensares demasiado
Acerca do significado que possam ter
Ficarás para sempre amarrado
Como um burro a uma estaca.

Mumon Gensen (1323 - 1390), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte".

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

14/06/2019

Setenta e três anos
Retirei água pura do fogo -
Torno-me agora pequeno insecto.
Com um toque do meu corpo
Quebro todas as palavras.

Ingo (? - 1281), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)

13/06/2019

Inspirar, expirar
Para a frente, para trás
Vivendo, morrendo:
Flechas, lançadas a voar a si entregues
A meio do caminho encontram-se e cortam
O vazio num voo sem rumo -
Assim eu regresso à fonte.

Gesshu Soko (1618 - 1696), in "Poemas de Morte Japoneses: escritos por monges zen e poetas haiku à beira da morte"

(versão portuguesa: amadeu liberto fraga)